Economia Solidária ocupa o Festival do Trabalhador e Trabalhadora em Porto Alegre

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O Festival do Trabalhador e Trabalhadora, em Porto Alegre, marcou o 1º de Maio com a valorização da produção coletiva e do empreendedorismo popular, tendo como um de seus destaques a Feira de Economia Solidária e Criativa. Integrada à programação do evento, a iniciativa começou às 10h e segue até as 22h, na Casa do Gaúcho, no Parque Harmonia, reunindo cultura, gastronomia, artesanato e práticas sustentáveis com 12 horas de atividades abertas ao público.

Mais do que diversidade produtiva, a feira evidencia o protagonismo feminino na economia solidária. À frente de grande parte dos empreendimentos, mulheres organizam coletivos, lideram processos produtivos e transformam saberes em geração de renda, muitas vezes conciliando o trabalho com o cuidado familiar e comunitário. São elas que sustentam redes de cooperação, fortalecem territórios e constroem alternativas econômicas baseadas na solidariedade.

Ao todo, 80 iniciativas integram a feira – sendo 30 voltadas à alimentação e bebidas – compondo um mosaico diverso de saberes, territórios e práticas. Entre os segmentos presentes estão agricultura familiar e agroecologia, alimentos e bebidas artesanais, artesanato autoral, vestuário e economia circular, produtos naturais, práticas integrativas em saúde, espiritualidade, sustentabilidade e editoras independentes com produções literárias progressistas.

Na gastronomia, o público encontrou uma forte presença de cozinhas solidárias, lideradas por mulheres, que transformam a produção de alimentos em estratégia de autonomia financeira e segurança alimentar. A área conta ainda com cervejarias artesanais, food trucks, ambulantes parceiros.

A feira é uma das principais atrações do Festival, promovido pela Central Única dos Trabalhadores do Rio Grande do Sul (CUT-RS), Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB/RS), UGT e Fórum, federações e sindicatos, com produção da HD’Arte. A proposta é fortalecer a geração de trabalho e renda, ampliar a visibilidade dos empreendimentos solidários e incentivar a circulação de bens e serviços baseados em princípios como autogestão, cooperação, comércio justo, sustentabilidade e consumo consciente. A participação dos expositores é gratuita, sem cobrança de taxas.

Compromisso social e diversidade cultural

As cozinhas solidárias se destacaram na programação do Festival, reunindo iniciativas populares protagonizadas majoritariamente por mulheres. Entre produtos, alimentos e reivindicações, os coletivos apresentaram experiências que articulam geração de renda, cuidado comunitário e organização popular.

Apoiadas pelo projeto CUT Comunidade, além da participação de sindicatos, movimentos sociais, empreendimentos vinculados à Unisol-RS e representantes de povos e comunidades tradicionais – incluindo matrizes africanas e indígenas. A iniciativa reafirma o compromisso com a justiça social, a valorização das culturas populares ancestrais e a promoção da segurança alimentar e nutricional.

Para a coordenadora da feira, Gabriela Teixeira, o espaço vai além da comercialização: “É um encontro de redes, saberes e resistências que mostram, na prática, que outro modelo de economia é possível”.

Já a produtora cultural Michelle Rodrigues, da HD’Arte, destaca a integração com o festival como forma de “potencializar a visibilidade dos empreendimentos e aproximar o público de experiências transformadoras”.

Com entrada gratuita e programação contínua, a Feira de Economia Solidária e Criativa se consolida como um dos principais espaços de celebração do Dia do Trabalhador e da Trabalhadora no Rio Grande do Sul, conectando cultura, trabalho e cidadania em um mesmo território.

Trabalhadoras da economia solidária

Na banca da Associação de Mulheres Maria da Glória, Maria Leonor, ao lado de Andréa Rodrigues Trindade, explicou que o grupo levou diferentes tipos de produção própria. “A gente tá com produto de roupas. De tarde vai ter alimentação lá dentro, que as gurias mesmo que produzem. Tudo da cozinha solidária”, afirmou.

Maria Leonor e Andréa Rodrigues Trindade, da Associação de Mulheres Maria da Glória | Crédito: Clarissa Londero

Ela detalhou que todos os itens são feitos coletivamente: “As bolsas, as roupas são todas nós que produzimos. Os alimentos, tudo que vai ser vendido, todos nós fizemos junto”. Segundo Maria Leonor, o trabalho garante sustento às participantes. “Isso gera renda para as mulheres da comunidade. Se eu dividir o ganho, a gente ganha, é por isso o nosso trabalho”.

O grupo desenvolve um projeto social de produção de absorventes. “Tem muitas crianças que vão pro colégio e não têm condições de comprar. Aí a gente inventou um projeto para fazer e doar”, explicou. A associação reúne 45 mulheres e articula diferentes frentes: “Tem geração de renda, tem a cozinha solidária, tem a horta comunitária e tem as crianças”. Sobre esse cuidado, completou: “Tem mãe que vai lá ajudar e a criança fica lá com a gente”.

Clarice Rangel, do Coletivo Periferia Feminista do Morro da Cruz e da Marcha Mundial das Mulheres, apresentou a diversidade de ações do grupo. “A gente tem uma horta comunitária, uma cozinha solidária, uma padaria e agora também oficina de bordados e costuraria”, contou. No festival, levaram produtos como “botões, camisetas e adesivos” e organizaram um bazar.

Clarice Rangel, do Coletivo Periferia Feminista do Morro da Cruz e da Marcha Mundial das Mulheres | Crédito: Clarissa Londero

Para além da comercialização, Clarice destacou o caráter político da participação. “A gente tá aqui trazendo a nossa feira de economia solidária e também as denúncias contra a exploração, contra a escala 6×1.” Ela enfatizou o papel das mulheres na sustentação da sociedade: “As mulheres sustentam a vida sete dias por semana. Sem o trabalho das mulheres no dia a dia, o sistema não funcionaria e o capitalismo não ficaria em pé”.

O coletivo também promoveu uma campanha de solidariedade internacional. “A gente tá arrecadando medicamentos para Cuba. No final de maio a gente vai levar e denunciar o bloqueio econômico”, afirmou. Clarice destacou que as pautas são diversas, mas conectadas, e convidou o público: “Gostaria de chamar todo mundo para estar na inauguração do nosso bazar no dia 9 de maio, na rua 9 de Junho, 1671, no Morro da Cruz”.

Representando a Amigas da Terra Brasil, Letícia Paranhos explicou que a organização atua pela justiça ambiental e participou da feira em articulação com a Marcha Mundial das Mulheres. Segundo ela, o grupo apresentou a iniciativa “Comunidade que Sustenta a Agricultura Agroecológica”, baseada em compromisso político de consumo. “Não é só orgânico, é agroecológico”, afirmou.

Letícia Paranhos, da Amigas da Terra Brasil | Crédito: Clarissa Londero

Ela destacou que a proposta está vinculada a princípios sociais: “Não existe agroecologia sem feminismo, não existe agroecologia sem luta antirracista”. Para ela, o ambientalismo precisa dialogar com a classe trabalhadora: “A gente acredita que o ambientalismo tem que estar junto com a classe trabalhadora”.

A proximidade territorial também foi ressaltada: “A gente está pertinho da Periferia Feminista, um território que a gente atua com a Marcha Mundial das Mulheres”. Ela concluiu reforçando a importância das bases populares. “A gente acredita nessa força que vem da base, dos territórios, das lutas feministas e populares para fazer essa mudança de sistema tão necessária.”

A escritora e artesã Isabel Fagundes Almeida, integrante do Fórum Estadual de Mulheres Negras na Economia Popular e Solidária (Fespope) e do Coletivo de Escritores Negros, levou ao evento produtos e obras autorais. “Estou trazendo minhas africanas de garrafa, turbantes, faixas com tecido africano e meus livros”, relatou.

Isabel Fagundes Almeida integra o Fórum Estadual de Mulheres Negras na Economia Popular e Solidária (Fespope) e do Coletivo de Escritores Negros | Crédito: Clarissa Londero

Ela destacou a importância da economia solidária: “É muito importante para nós, principalmente para nós mulheres negras, que estamos alcançando alguma estabilidade através desse trabalho”.

Isabel também contou sobre as suas obras: “Todas as poesias trabalham alguma parte do cérebro”. O primeiro livro, Passeio Poético, está ligado à Lei 10.639 e resgata figuras negras invisibilizadas. “Traz poesias resgatando figuras negras que não estão nos livros escolares e alguns afro-gaúchos, como Lupicínio, Oliveira Silveira.” Moradora do bairro Jardim Carvalho, em Porto Alegre, ela resume: “É um trabalho sempre pensando na educação e no aprendizado”.

Na Florescer Rede, vinculada ao Instituto Ecoa, Natália Soares destacou a interdependência entre meio ambiente e alimentação. “Para ter comida, a gente precisa cuidar do meio ambiente, cuidar de nós”, afirmou.

Natália Soares, da Florescer Rede, vinculada ao Instituto Ecoa | Crédito: Clarissa Londero

Ela explicou que o projeto atua dentro da lógica da economia solidária e da cozinha solidária, promovendo geração de renda e capacitação. “Gerar renda para as mulheres é outro trabalho. A gente trabalha capacitando com isso”, disse.

No Instituto Apakani, a coordenadora Eliane Almeida, conhecida como Negrita, apresentou a atuação com práticas integrativas, economia solidária e PANCs. “Estamos com o PL das PICS e PANCS, muito felizes, e agora temos um curso de economia solidária”, afirmou.

Eliane Almeida, conhecida como Negrita, do Instituto Apakani | Crédito: Clarissa Londero

Na loja Produção da Gente, em Viamão, Patrícia Bilo e Celeste Patchwoek explicaram que o coletivo reúne 16 participantes. “A gente trabalha com costura, crochê, tricô, chinelos”, disseram. A produção combina trabalho manual, quanto uso de máquinas de costura e integra redes com fóruns de economia solidária”, finalizaram.

Patrícia Bilo e Celeste Patchwoek, da loja Produção da Gente, de Viamão | Crédito: Clarissa Londero

Jacqueline Severo, do Centro de Assessoria Multiprofissional (CAMP), participou do Festival em apoio às iniciativas populares de economia solidária. Organização não governamental, o CAMP atua na mobilização e organização social, além de desenvolver ações de educação, capacitação, formação de lideranças, pesquisa e sistematização de conhecimento. Seu trabalho está voltado à promoção e garantia de direitos políticos, econômicos, sociais, culturais e ambientais das populações urbanas, por meio do fortalecimento da participação social e da construção de novos referenciais de desenvolvimento local sustentável.

Jacqueline Severo, do Centro de Assessoria Multiprofissional (CAMP), participou do Festival em apoio às iniciativas populares de economia solidária | Crédito: Clarissa Londero

Durante o evento, Jacqueline destacou o compromisso da entidade com os projetos de base comunitária. “Estamos aqui hoje apoiando os projetos em execução, à exemplo dos desenvolvidos no Morro da Cruz e Lomba do Pinheiro. Tratam-se de parcerias estabelecidas com a Associação dos Moradores do Morro da Cruz (Acomuz) e Instituto Apakani. Ambas, fruto da emenda parlamentar do vereador Adeli Sell. Outras entidades parceiras estiveram fazendo parte do evento, que objetiva o empoderamento das comunidades locais, com ênfase na economia solidária e geração de trabalho e renda”, afirmou.

Trabalhadoras do artesanato e da panificação da Associação dos Moradores do Morro da Cruz (Acomuz) | Crédito: Clarissa Londero

Representando a Cooperativa Terra Livre, de Nova Santa Rita, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Clóvis Doyle destacou o papel da agricultura familiar. “Trabalhamos para atender principalmente municípios e escolas municipais e estaduais”, explicou.

Clóvis Doyle, da Cooperativa Terra Livre, de Nova Santa Rita, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) | Crédito: Clarissa Londero

Ele ressaltou que a produção está baseada em princípios sustentáveis: “Produção de alimentos saudáveis, preservação da natureza, valorização do agricultor”. Segundo ele, há uma busca por transição agroecológica. “Levar para a sociedade uma qualidade mais próxima de uma transição agrícola possível, com alimentos de base orgânica.”

Para Clóvis, o evento também representa articulação política: “Participar desse dia do trabalhador é fazer essa união e integração entre campo e cidade”.

Entre as cozinhas solidárias, Patrícia Pedroso, da Cozinha Solidária da Pedreira, destacou a trajetória do projeto. “A gente já tem há muitos anos e é o segundo ano que participa aqui”, afirmou.

Patrícia Pedroso, da Cozinha Solidária da Pedreira | Crédito: Clarissa Londero

Ela ressaltou a importância da visibilidade: “É muito bom poder expor e mostrar que tem geração de renda na comunidade, para as moças, para as mães que fazem salgado para vender”.

Além da alimentação, o projeto oferece formação. “A gente ajuda dando alimento e também oficina de salgados e doces para gerar mais renda.” Segundo Patrícia, a iniciativa depende de doações e da mobilização comunitária. “A gente vive de doações e da atuação”, disse, mencionando também o papel da circulação de público nas vendas.

A produção é intensa: “A gente dá comida três vezes por semana, mais de 300 marmitas”. E conclui: “O retorno é bem gratificante”. Já Tia Beth, da Cozinha Comunitária Nossa Senhora Aparecida, no bairro Bom Jesus, destacou a dimensão do trabalho social. “Eu dou 250 marmitex por dia para a favela e mais 150 para moradores de rua”, afirmou.

Tia Beth, da Cozinha Comunitária Nossa Senhora Aparecida, no bairro Bom Jesus | Crédito: Clarissa Londero

Além da alimentação, a iniciativa oferece itens básicos: “Roupinha, sabonete, paninho, corta o cabelinho”. Segundo ela, a participação no evento tem objetivo direto de sustento. “Eu não ganho gás, então tiro daqui para comprar o gás para fazer a comida.”

Também presente, Maria de Luz, da Associação Comunitária Tia Lurdinha, explicou que a participação no Festival dos Trabalhadores e Trabalhadoras é fundamental para manter as cozinhas solidárias de portas abertas. “Estamos aqui também pra arrecadar renda para comprar material para a cozinha para manter as atividades.”

Maria de Luz, da Associação Comunitária Tia Lurdinha | Crédito: Clarissa Londero

Uma pauta recorrente trazida pelas cozinheiras solidárias no festival foi a de enfatizar a defesa dessas iniciativas como políticas públicas permanentes. O foco esteve na necessidade de reconhecimento institucional, garantia de investimentos contínuos voltados ao combate à fome e à promoção da segurança alimentar, além da remuneração para as trabalhadoras das cozinhas.

Confira mais fotos:

Crédito: Clarissa Londero
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