Em 2026, celebramos o centenário de nascimento de um dos maiores intelectuais brasileiros, reconhecido no mundo inteiro: Milton Santos. Nascido em Brotas de Macaúbas, na Bahia, em 03 de maio de 1926, ele foi um dos grandes intérpretes da realidade brasileira. Embora formado em Direito, sua sensibilidade para com os movimentos migratórios do Nordeste e a percepção das desigualdades estruturais o levaram a construir uma obra que é, hoje, o alicerce fundamental para qualquer ativista que lute pelo direito à cidade.
Para Milton Santos, a cidade não é um palco inerte onde a vida acontece. A cidade é, por excelência, o espaço em sua forma política, é fator social, é território produzido, disputado e usado conforme a correlação de forças entre o Estado, o mercado e as forças da sociedade civil. Celebrar seu centenário em meio à crise urbana que atravessamos não é apenas um ato de memória, mas uma necessidade política para transformar as cidades em bem comum.
A urbanização brasileira: um avanço cego e a produção do espaço
O processo de urbanização no Brasil não foi um “progresso” harmonioso, mas o que Milton Santos chamou de um “avanço cego”, o resultado de uma modernização dolorosa. A partir de 1940, o Estado brasileiro financiou uma modernização agrícola que transformou o campo em uma máquina de expulsão. Não foi o “brilho da cidade” que atraiu as massas, mas a mecanização do campo e a concentração fundiária que as expulsaram. Esse êxodo rural forçado moldou cidades que já nasceram cindidas.
Nessa cisão do espaço urbano, formou-se o que ele chamou de dois circuitos da economia urbana, um circuito superior e um circuito inferior, ou seja, formou-se um “espaço divido”. O circuito superior funciona com capital intensivo, produção em larga escala e vínculo com o mercado internacional. Já o circuito inferior é feito por trabalho intensivo, produção em pequena escala e vínculo com o mercado local. Esses dois circuitos coexistem e são representação da urbanização desigual no país.
O território usado: onde a cidadania se realiza ou morre
Um dos conceitos mais potentes de Milton Santos é o de território usado. Para ele, o objeto de estudo da Geografia não é o território em si, mas o território como uso. É aqui que a geografia encontra a política: a cidadania não é algo abstrato; ela acontece no território. Como ele mesmo dizia: “A justiça social é proporcional aos serviços e recursos urbanos disponíveis para determinado território.”
Se você vive em um bairro com transporte eficiente, iluminação pública e água encanada, sua cidadania é de “primeira classe”. Se você vive em territórios onde o Estado só aparece por meio do braço armado da polícia, sua cidadania é mutilada. Milton Santos denunciava a existência de diferentes classes de cidadania determinadas pelo CEP.
Nas grandes e médias cidades brasileiras, essa desigualdade se manifesta em feridas abertas:
- Segregação socioespacial: a expulsão dos pobres para áreas cada vez mais remotas e desassistidas;
- Mobilidade precária: o tempo de vida roubado dos trabalhadores em transportes caros e ineficientes;
- Genocídio da juventude negra: o território periférico sendo transformado em zona de guerra, em que a violência institucional substitui o direito à existência;
- Privatização do essencial: o encarecimento e a mercantilização da água e da energia elétrica, transformando direitos básicos em mercadorias inacessíveis para quem ganha salário mínimo.
O meio técnico-científico-informacional e a cidade-mercadoria
Milton Santos alertava que vivemos no meio técnico-científico-informacional. Isso significa que o território é hoje altamente tecnificado para atender às exigências do capital global. O Estado, muitas vezes, atua como o gestor dessa infraestrutura para o mercado, negligenciando a função social da terra.
Vemos hoje uma tensão permanente: de um lado, o projeto de mercantilização da cidade, em que cada metro quadrado é um ativo financeiro e cada serviço público é uma oportunidade de lucro para grandes empresas. De outro, a visão da cidade como equipamento público, voltada para a realização das necessidades humanas.
Nessa disputa, o mercado imobiliário (a construção civil, os bancos e os fundos de investimento) dita o ritmo do crescimento urbano, enquanto o Estado, sob a lógica neoliberal, beneficia o capital e penaliza o cidadão comum. O resultado é uma cidade que funciona perfeitamente para os negócios, mas é hostil para a vida.
A luta por direitos e a transformação da cidade
Milton Santos, às vésperas de sua partida em 2001, previu a complexidade e a aceleração dessa crise. Mas ele também nos deixou a chave para a saída: a consciência do território.
A transformação da cidade não virá de um planejamento tecnocrático “de cima para baixo”, mas da ação coletiva daqueles que sentem na pele a escassez. Os movimentos populares, como o Movimento de Trabalhadoras e Trabalhadores por Direitos (MTD), são os sujeitos históricos que compreendem que o espaço urbano é o palco da luta de classes.
A cidade é um acúmulo de trabalho humano. Cada asfalto e cada poste foram construídos com impostos e mãos trabalhadoras. Portanto, a cidade pertence a quem a constrói e a habita. Reivindicar o direito a serviços públicos de qualidade e o fim do genocídio nas periferias é, portanto, reivindicar a própria humanidade.
Chegamos ao centenário de Milton Santos com um desafio hercúleo. A cidade brasileira do século 21 é um campo de batalha entre a barbárie privatista e a sobrevivência popular. No entanto, como dizia o mestre, o mundo pode ser outro se o território for usado para a solidariedade em vez do lucro.
Somente quando a infraestrutura urbana estiver a serviço da vida, e não da reprodução do capital, poderemos dizer que teremos alcançado a verdadeira cidadania. Milton Santos vive em cada passo dessa caminhada. Que sua teoria continue sendo nossa bússola, e sua coragem, o nosso combustível.
Para os movimentos e lutas urbanas, devemos ecoar nossas vozes em cada ocupação, em cada comunidade, em cada assembleia e em cada barricada. A palavra de ordem é: lutar por direitos, transformar as cidades!
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*Márcia Falcão é geógrafa, pesquisadora do Observatório das Metrópoles e militante do MTD no estado do Rio Grande do Sul.
**Pablo Bandeira é advogado, educador popular e militante do MTD no Distrito Federal.
***Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

