Olá, na blitzkrieg de Alcolumbre, quem ganha é o próprio Alcolumbre, o bolsonarismo e o centrão. Quem perde é Lula, o governo e o STF.
.O semi-impeachment de Lula. Guardadas as devidas proporções, o que o Senado fez com Jorge Messias foi similar ao golpe contra a ex-presidenta Dilma Rousseff. Nas palavras do ex-ministro do STF, Celso de Melloo Senado cometeu um “equívoco institucional” ao sequestrar uma prerrogativa constitucional do presidente da República sem qualquer razão substantiva. É verdade que já se esperava um placar apertado. Davi Alcolumbre, o líder do motimnunca escondeu sua insatisfação por Lula não ter indicado Rodrigo Pacheco, um filho dileto do centrão, para a vaga do STF. Lula já vinha trabalhando nas últimas semanas para conquistar a boa vontade do Congresso com a liberação de emendaso que se mostrou insuficiente. Jorge Messias também fez o tema de casa, conquistando apoio de importantes lideranças evangélicasevitando arroubos e mostrando-se moderado. A decisão do Senado é, em primeiro lugar, uma aposta do próprio Alcolumbre para manter-se no poder, vislumbrando uma vitória de Flávio Bolsonaro em outubro. Certamente contaram os sinais de fraqueza de Lula, que enfrenta uma onda de impopularidade nas pesquisas de opinião, e o fortalecimento da candidatura de Flávio, que animou a oposição no Congresso. Houve também um erro de cálculo do governo ao demorar para articular a sabatina, deixando o tema ser contaminado pela disputa eleitoral. Agora, o governo sai à caça dos traidores e analisa se vale a pena tentar uma nova indicação neste ano ou se deixa para o próximo mandato. Mas a principal motivação de Alcolumbre foram as animosidades com o STF. Depois de abocanhar parte crescente do orçamento por meio de emendas, o centrão quer tomar para si o poder de indicar os membros do STF, já que tem perdido nos embates entre os poderes. Da mesma forma, a derrubada dos vetos de Lula à anistia aos golpistas é um recado direto à Corte. Por isso, os bolsonaristas já se assanham com a possibilidade de, na sequência, aprovar o impeachment de algum dos ministros do Supremo e, se Flávio vencer as eleições, poderem indicar ainda três ministros até 2023. Mas, de imediato, quem vai pagar o pato é o Planalto, com a possibilidade de que todo e qualquer acordo com o Congresso vá por água abaixo. O que comprometeria a aprovação do projeto de fim da escala 6×1, que até então vinha contando com a boa vontade de Hugo Motta.
.Trabalhador brasileiro. Mais do que o Congresso, a maior ameaça à reeleição de Lula é a insatisfação dos trabalhadores. E isso por diversos motivos. A taxa de desemprego voltou a subir em marçomas ainda é considerada baixa e está em um patamar inferior ao mesmo período do ano passado. O problema é a qualidade do trabalho no Brasil. Sintoma disso é que, no ano passado, o número de acidentes de trabalho chegou a níveis alarmantes. Outro problema bem conhecido é a redução do poder real de compra. Os efeitos da guerra sobre o preço dos combustíveis e de outros produtos, como fertilizantes e chips eletrônicosapenas começaram a chegar ao Brasil. E de nada adianta dizer que é um problema global, que nada tem a ver com o governo, pois a responsabilidade de um provável aumento da inflação sobre o transporte e a alimentação recairá sobre Lula. Daí o esforço em mitigar este impacto, com medidas para conter a escalada do preço do gás de cozinhapor exemplo. E, enquanto os problemas econômicos internos se avolumam, o governo comemora a isenção de taxas de exportação de produtos industriais, agrícolas e matérias-primas brasileiras para a União Europeia. Evidentemente, o mercado já precifica a crise, elevando pela sétima vez a expectativa da inflação para este ano. Por hora, o Banco Central segurou a mão e reduziu a taxa básica de juros em 0,25%o que é uma gota no deserto. Porém, é provável que esta tendência mude nas próximas reuniões e venham elevações pela frente. E os juros altos, aliados ao endividamento, especialmente por meio do crédito consignado, são responsáveis por drenar cerca de R$ 15 bilhões por mês da conta dos trabalhadores diretamente para o sistema financeiro. O governo não encontra uma solução estrutural para o problema, mas aposta que o sucesso de uma nova edição do Desenrola poderá aliviar a situação dos endividados e o mau desempenho nas pesquisas eleitorais. O problema é que, com apenas 11 palanques estaduais próprios e 16 de partidos aliados, o PT não tem força para levar sozinho a empreitada da reeleição de Lula e, enquanto estende uma mão para o trabalhador, estende a outra para o Centrão, de olho nos votos da classe média e setores mais conservadores.
.Os filhos do Padre Kelmon. Apesar da gravidade do que está em jogo nestas eleições presidenciais, não faltarão candidatos sem chances reais, mas que participarão da corrida eleitoral para tumultuar o ambiente ou funcionar como linha auxiliar dos Bolsonaros. Esse é evidentemente o caso de Aldo Rebelo, Renan Santos e Romeu Zema. O surpreendente é que o governador mineiro pode estar saindo do batalhão de trás para ser levado a sério, pelo menos pela turminha da Faria Lima. Nos últimos dias, Zema passou a ganhar uma atenção maior na mídiaturbinado pelos seus ataques ao STF, armadilha em que Gilmar Mendes caiu como um patinhopedindo o enquadramento do candidato no infinito inquérito das fake news. Zema também é a prova de que, ao lado da mula sem cabeça, a terceira via moderada é uma das grandes lendas do nosso folclore. Afinal, o seu programa de governo inclui a privatização da Petrobras e do Banco do Brasil, redução da maioridade penal e flexibilização das leis trabalhistas. Por hora, os ataques ao STF serviram para turbinar o número de seguidores do mineiro nas redes sociais, mas não se sabe ainda se terão algum efeito nas pesquisas. Por sua vez, mesmo que tenha governado um estado decisivo na disputa eleitoral, Zema deixou o cargo com uma aprovação em queda e com dificuldades em eleger seu sucessor. Mas o fato de que esteja sendo levado a sério por parte do empresariado é sinal de que a candidatura de Flávio Bolsonaro ainda não convenceu as elites. Entre outras coisas, porque o Bolsonarinho ainda não fez o beija-mão da Faria Lima e não apresentou um projeto econômico que diga o que a turma dos bancos quer ouvir. Além disso, sua candidatura está dedicada, no momento, a administrar as brigas de Michelle com os enteados, de Carlos com Nikolas Ferreira, dos irmãos contra Tarcísio, etc. Em todos os casos, a verdadeira preocupação da Faria Lima está com seu integrante mais famoso, Daniel Vorcaro. Apesar de todos negociarem uma delação premiada, a vida da quadrilha do Master não será tão fácil. As investigações da PF avançaram bastante e as delações precisam oferecer algo que não saibam; caso contrário, não tem negócio. É o caso do pastor Fabiano Zettel, cuja delação, a princípio, está sendo considerada sem grande valor para a investigação.
.Ponto Final: nossas recomendações.
.Escândalos, misoginia e racismo: quem é o enviado de Trump para o Brasil. Jamil Chade traça o perfil do representante de Trump que pretendia encontrar Bolsonaro. No ICL.
.Mães da Praça de Maio completam 49 anos de luta persistente por memória, verdade e justiça. De 30 de abril de 1977 até hoje, as Madres seguem sendo exemplo de luta por direitos humanos na América Latina. No Brasil de Fato.
.Conflitos no campo: assassinatos dobram no Brasil em um ano, aponta Pastoral da Terra. Relatório da CPT registra aumento dos homicídios e da impunidade no campo, além da ofensiva do agronegócio sobre as terras indígenas. Na Pública.
.Trabalhadores da escala 6×1 ganham, em média, 58% a menos que os da 5×2. A Alma Preta apresenta os dados da desigualdade econômica e racial na jornada de trabalho.
.Pochmann: Além da regressão e ressentimento. Marcio Pochmann analisa a nova forma de consciência invertida do trabalhador do século XXI. No Outras Palavras.
.Assentamento Califórnia, 30 anos: a terra que é resistência. A Amazônia Latitude visita o assentamento conquistado após o Massacre de Eldorado dos Carajás.
.Trabalhando no escuro. Neste podcast da Rádio Novelo, como uma estagiária descobriu que trabalhava em uma empresa disparadora de fake news.
Errata e retratação
Na edição do Boletim Ponto publicada em 20 de março de 2026, sob o título “Brasília tem cheiro de gasolina e óleo diesel”, a descrição da reportagem da Carta Capital intitulada ‘Como um documentário da Brasil Paralelo se liga a uma rede de ódio contra Maria da Penha’ continha a seguinte afirmação: ‘O Brasil Paralelo atuou como organização criminosa, segundo o MP, para atacar a ativista e descredibilizar a lei.’
Esclarecemos que a referida afirmação extrapolou o conteúdo da matéria referenciada. A denúncia oferecida pelo Ministério Público do Estado do Ceará, mencionada na reportagem, não imputa ao Brasil Paralelo, nem a seus colaboradores, o crime de organização criminosa, tipificado no art. 2º da Lei nº 12.850/2013. A reportagem da Carta Capital também não emprega tal expressão.
Procedemos, assim, à retratação da imputação e à edição do conteúdo publicado, de modo a excluir a afirmação inverídica.

