Assisti ao show de Shakira do sofá da minha casa e não gostei. Isso, por si só, poderia encerrar a conversa. Mas talvez funcione melhor como ponto de partida. Não gostar, hoje, é quase um barulho. Vivemos sob espetáculos projetados para evitar atritos, para produzir encantamento contínuo, sem fissuras, sem intervalo, sem espaço para dissenso. Havia uma estranheza difusa naquela noite. O atraso ampliou a expectativa até quase esvaziá-la. O setlist oscilava entre picos de euforia e zonas de dispersão. E, sobretudo, o uso insistente de imagens geradas por inteligência artificial produzia mais saturação do que fascínio. Não era apenas uma escolha estética discutível. Era um sintoma. Como se o espetáculo, ao tentar se expandir para além do palco, acabasse perdendo o que historicamente o sustentou: a força da presença.
E, no entanto, algo funcionava ali. Talvez não como performance impecável, mas como evento. Porque, apesar de suas falhas, o que se viu nas areias de Copacabana foi uma espécie de condensação simbólica. Corpos reunidos, vozes em uníssono, bandeiras que voltavam a circular. O show pode ter vacilado, mas o evento permaneceu de pé.
Símbolos nacionais: retorno ou disputa?
Durante os últimos anos, o verde e amarelo deixaram de ser apenas cores para se tornarem fronteiras. Foram capturados, instrumentalizados, estreitados até quase perderem sua capacidade de significar o comum. Quando reaparecem em um palco como esse, não voltam como eram, voltam deslocados. Shakira não apenas ergueu a bandeira brasileira em cena. Ela vestiu o próprio corpo com essas cores, incorporando o verde e amarelo em suas roupas, fazendo do símbolo não apenas um objeto exibido, mas uma superfície habitada. Há algo de potente nesse gesto. O símbolo deixa de ser distante e passa a circular, a vibrar no corpo que o performa.
Mas não se trata de um “resgate” simples. Trata-se de uma rematrícula. Como lembra Néstor García Canclini, as culturas contemporâneas são feitas de deslocamentos, de reapropriações contínuas. Nenhum signo permanece estável por muito tempo. O verde e amarelo, por um instante, deixaram de operar como trincheira e voltaram a funcionar como linguagem. Não porque foram purificados, mas porque foram reencenados em outro regime de visibilidade.
Cultura local: reconhecimento, afeto e tradução
Há momentos em que o espetáculo desacelera e algo mais raro acontece: o reconhecimento da presença. Ao cantar e falar em português, língua que domina com fluência, Shakira não apenas se comunica com o público brasileiro, ela se aproxima dele. E essa aproximação ganha espessura quando atravessada por encontros. A presença de Anitta e Ivete Sangalo já indicava esse movimento. Mas ele atinge outro nível quando o palco se abre para Caetano Veloso e, sobretudo, para a grande Maria Bethânia. Ali, o espetáculo deixa de ser apenas global para se tornar, ainda que por instantes, profundamente brasileiro.
A escolha de cantar O Que É, O Que É? não foi aleatória. Trata-se de uma das canções mais emblemáticas da música popular brasileira, uma espécie de manifesto afetivo sobre a vida, o desejo, a esperança. Ao dividi-la com Bethânia, Shakira não apenas homenageia. Ela reconhece. Reconhece uma tradição, uma sensibilidade, uma história que não lhe pertence, mas que ela escolhe respeitar e reverenciar.
Esse gesto não elimina a ambiguidade própria do espetáculo global. Há, sem dúvida, tradução, adaptação, estratégia. Mas há também algo que escapa ao cálculo: um encontro que produz sentido, que mobiliza memória, que toca. E talvez seja nesse ponto, frágil e potente ao mesmo tempo, que o espetáculo se torna mais do que ele mesmo.
América Latina: o momento em que nos tornamos hermanos
Talvez o aspecto mais bonito daquela noite tenha sido menos visível na estrutura do show e mais evidente no que ele produziu ao redor. O Rio de Janeiro tornou-se, por algumas horas, um território ampliado. Havia ali brasileiros de todas as regiões, mas também públicos vindos de diferentes países da América Latina. Bandeiras que se cruzavam, sotaques que se misturavam, corpos que se reconheciam.
Há, claro, uma dimensão de mercado nesse tipo de circulação. A latinidade que emerge nesses eventos também é mediada, organizada, distribuída. Mas reduzir o que se viu ali a isso seria perder algo importante. Porque havia, de fato, um sentimento compartilhado. Uma alegria específica em ver uma artista latina ocupar um espaço dessa magnitude, em ver nossas línguas, nossos ritmos, nossas histórias ganharem centralidade. Artistas como Bad Bunny já vêm produzindo esse deslocamento, abrindo caminhos para que a América Latina não apareça apenas como margem, mas como protagonista.
Naquela noite, mesmo que por instantes, nos tornamos mais próximos. Mais reconhecíveis uns para os outros. Mais “hermanos”. E talvez essa seja uma das poucas coisas que o espetáculo contemporâneo ainda consegue produzir com alguma intensidade: a sensação, mesmo que provisória, de que pertencemos a algo maior do que nós mesmos.
No fim, dizer que não gostei do show de Shakira importa menos do que parece. Gosto, aqui, é quase irrelevante. Porque o que se revelou naquela noite não foi apenas um espetáculo irregular, mas uma mudança mais profunda na forma como experimentamos a cultura.
Sabemos – e não se deve esquecer – que eventos dessa magnitude são atravessados por uma engrenagem precisa, onde interesses econômicos, estratégias de mercado e a lógica expansiva do entretenimento global operam de forma articulada. Há uma racionalidade que organiza o espetáculo, que o antecipa, que o transforma em produto antes mesmo de se tornar experiência. Nesse sentido, nada ali é ingênuo. E, ainda assim, reduzir o que aconteceu a essa lógica seria insuficiente. Porque, entre as camadas de cálculo, algo escapa. Corpos que se encontram, vozes que se reconhecem, símbolos que, por um instante, voltam a circular sem o peso imediato da disputa. Não se trata de negar as forças que estruturam o espetáculo, mas de reconhecer que, mesmo nelas, há frestas.
Em meio à crise da presença, não é mais apenas a intensidade da experiência que nos convoca, mas a força do dispositivo que a organiza. Em meio a uma cultura saturada, exausta de si mesma, ainda buscamos, e às vezes encontramos, pequenos respiros. Momentos em que, mesmo atravessados por interesses que nos excedem, conseguimos habitar algo comum, ainda que provisório. Não como ilusão, mas como experiência do encontro.
Entre a crítica e o encanto, o espetáculo persiste. E nós com ele. Não porque acreditamos plenamente no que vemos, mas porque, de algum modo, ainda precisamos desses instantes em que o mundo, mesmo mediado, parece um pouco mais habitável e fraterno. E talvez seja justamente aí, nesse ponto em que algo falha, escapa e ainda assim nos reúne, que o espetáculo, enfim, começa.

