Pressão internacional deve ajudar a liberar Thiago Ávila, ativista brasileiro preso por Israel, diz analista

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Na quinta-feira passada (30), o ativista Thiago Ávila foi capturado ilegalmente em águas internacionais pelas forças militares israelenses. O brasileiro integrava a Global Sumud Flotilha que tentava chegar com ajuda humanitária até Gaza, onde Israel continua promovendo o genocídio do povo palestino.

A ação de Israel, a atual situação de Gaza e os desdobramentos políticos e diplomáticos a partir de agora é o tema do episódio do videocast O Estrangeiro desta quarta-feira (6), que teve a participação do correspondente do Brasil de Fato na Rússia, Serguei Monin, e da analista internacional Amanda Harumy, doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina da Universidade de São Paulo (Prolam/USP).

Monin destaca que o cessar-fogo, além de não significar o fim dos ataques, nunca aconteceu de fato, e relata um cenário de terra arrasada atualmente na Faixa de Gaza. “O que a gente percebe nesses últimos meses é uma suavização, uma melhora na intensidade dos bombardeios que destruíram Gaza nos últimos anos, mas eles estão longe de cessar completamente. Nos últimos dias, houve relatos de novos bombardeios em Gaza. A gente tem uma situação humanitária catastrófica como efeito dessa guerra. Falta de saneamento básico, há disseminação de doenças. Você tem uma situação de, em números modestos, mais de 72 mil mortos, mais de 2 milhões de deslocados. É uma situação que, inclusive, as agências humanitárias internacionais já não classificam como crise humanitária, mas como colapso sistêmico”, afirma.

“Há fome e não há chegada de água, comida, remédio”, cita Serguei Monin, ao explicar o tamanho da importância de missões como a flotilha interceptada por Israel.

“A gente percebe tudo isso como método, não apenas um efeito de uma guerra que causa uma crise humanitária. É uma coisa muito grave, que é, na verdade, um instrumento de pressão, de morte de pessoas. E, para completar, ainda existe um fator um pouquinho subestimado ou menos citado também pela questão do holofote virar para o conflito no Irã, que é uma escalada dos ataques israelenses na Cisjordânia. É uma continuidade de um processo de expansão territorial, de ocupação dos colonos israelenses nos territórios palestinos”, destaca.

Amanda Harumy analisa os elementos que estão em jogo atualmente nessas dinâmicas do Oriente Médio e destaca que o suposto caminho de pacificação considerando a criação de dois estados — Israel e Palestina — que coexistiriam é uma realidade cada vez mais distante. “O projeto (de Benjamin Netanyahu em Gaza), infelizmente, é um projeto que a gente pode categorizar como fascista, porque busca impor uma questão de raça, interpretar como inferior outras raças. (O projeto) parte desse pressuposto. Mas não podemos esquecer da questão econômica, geopolítica, da importância do Oriente Médio e do quanto isso é interessante aos Estados Unidos e a Israel. Então, nós sabemos que a construção do Estado de Israel teve apoios internacionais importantes, da própria Rússia, Europa, Estados Unidos, mas a questão da Palestina, que é um genocídio, não está sendo solucionada pelo multilateralismo”, afirma.

“A extrema direita não tem temor de atravessar os consensos do direito internacional”, critica. Por essa razão, Harumy avalia que a situação na qual Thiago Ávila se encontra é de um cenário repleto de complexidades. “Nessa inércia dos Estados, na crise da ONU (Organização das Nações Unidas) e do multilateralismo, o que pode ser feito?”, questiona. “Obviamente, uma flotilha não vai enfrentar o poder bélico de Israel, mas ela vai trazer para o debate político o quanto extrema é a condição de Gaza e como Israel descumpre o direito internacional constantemente.”

Harumy lembra que, na outra detenção de Ávila, foi a pressão internacional que fez com que Israel flexibilizasse e não o mantivesse preso. “Óbvio que precisamos de um trabalho diplomático que o Itamaraty está fazendo. Inclusive, na nota deles, eles chamam de sequestro para denunciar justamente que o que o ativismo estava fazendo não se trata de terrorismo. Mas uma aliança que realmente é forte é a de Lula com lideranças europeias. Eu acredito que Lula e Pedro Sanchez podem ser a voz para colocar uma pressão. E o caminho é trazer cada vez mais contradições dos aliados dos Estados Unidos e de Israel”, pontua.

Confira o programa completo abaixo:

Para ouvir e assistir

Ó podcast O Estrangeiro vai ao ar semanalmente às quartas às 15h, disponível nos canais do Brasil de Fato.

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