‘Estamos plantando uma semente’, diz ministra Margareth Menezes sobre Ano Cultural Brasil-China

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A ministra da Cultura, Margareth Menezes, liderou em Pequim e Xangai a primeira missão oficial do Ano Cultural Brasil-China, estabelecido em novembro de 2024 durante visita de Estado do presidente chinês Xi Jinping. O evento levou 120 profissionais brasileiros à China, rendeu 22 shows, possibilitou um acordo entre a Ancine (Agência Nacional de Cinema) e o grupo estatal chinês CMG e oficializou o primeiro Ponto de Cultura brasileiro em solo asiático.

“É uma oportunidade ímpar que o Brasil não pode perder: expandir aqui na China a sua cultura, a sua arte, o seu talento, e fazer negócios”, afirmou Margareth ao Brasil de Fatoem entrevista exclusiva.

A ministra esteve na China de 27 de abril a 5 de maio. Em Pequim, se reuniu com Sun Yeli, ministro da Cultura e Turismo da China, e com Shen Haixiong, presidente do Grupo de mídia da Chinacom quem assinou o acordo de colaboração no setor audiovisual entre a Ancine e o grupo estatal chinês. Em Xangai, se reuniu com a secretária municipal de Cultura e Turismo da cidade, Zhong Xiaomin, e visitou o Museu de Arte Contemporânea de Xangai, sede da Bienal de Xangai, onde será realizada em julho uma exposição dedicada à ítalo-brasileira Lina Bo Bardi, arquiteta do prédio do Masp.

Durante a missão, o coletivo Brasileiros de Ouroque atua na China desde 1998 e organiza a única roda de samba e chorinho em atividade no país, recebeu o certificado de primeiro Ponto de Cultura brasileiro na Ásia, como parte do programa Cultura Viva, criado em 2004 e hoje presente em 14 países.

A programação artística trouxe mais de 120 profissionais da cultura, com 22 shows em Pequim e Xangai. A Orquestra Neojibá, com 94 jovens músicos baianos, se apresentou na Sala de Concertos do Museu Palácio de Pequim. A Neojibá é um programa do Governo da Bahia com o objetivo de integrar formação musical e inclusão social.

O Brasil teve grande destaque este ano no JZ Spring Festival, um dos principais festivais de jazz e música contemporânea da Ásia e o maior da China. O festival contou com apresentações de Ivan Lins, Adriana Calcanhotto, Hamilton de Holanda, Silvero Pereira e Luedji Luna, entre outros.

Na entrevista exclusiva ao Brasil de Fatoum ministra da Cultura fala sobre o significado de ter a economia criativa como eixo da relação bilateral e a importância de entender a dinâmica cultural chinesa para que a presença brasileira no país cresça de forma sólida.

“Estamos plantando uma semente. Existe, dos dois lados, a disposição para que esse momento frutifique. O Brasil é o maior parceiro comercial da China na América Latina e, para nós, a China também tem enorme importância comercial”, afirma.

Leia abaixo a íntegra da entrevista

Brasil de Fato: Ministra, como a senhora avalia o significado desta missão para a relação cultural entre Brasil e China?

Margareth Menezes: Quando o Ministério da Cultura abriu, a primeira visita que recebi foi a do embaixador da China. Aquilo já sinalizava algo. É um sinal de fortalecimento da relação. A cultura tem esse lugar, o lugar do sentimento, onde transitam as nossas representações e simbologias. Ele me convidou para o aniversário chinês no Teatro Nacional em Brasília. E quando o presidente Lula veio aqui, foi a primeira vez que vim à China de verdade. Entrar na China, ver a maneira como o presidente foi recebido, como o chefe de Estado que ele é, por tudo que vem construindo para o Brasil, aquilo emocionou a todos nós. Foi uma recepção de alto nível. Na cultura, fizemos memorandos de entendimento, tanto aqui como lá. O que está acontecendo agora é a construção dessas ações, dando viabilidade ao que pretendemos para um futuro de relação comercial. Porque estamos vendo isso como uma ação da economia criativa, que é o que é também a arte. Tem essa dimensão econômica que precisamos trabalhar para trazer a cultura brasileira para esse grande país que é a China.

Como a senhora está enxergando o significado e a importância deste Ano Cultural Brasil-China?

Estamos plantando uma semente. Existe, dos dois lados, a disposição de que esse momento frutifique. O Brasil é o maior parceiro comercial da China na América Latina e, para nós, a China também tem enorme importância comercial. Neste momento em que o Brasil retoma o mercado internacional, abrindo mais de 500 novos mercados, precisamos entender a cultura como uma forma de avançar com isso. A cultura é estratégica para fazer com que os povos se conheçam. Esse é o nosso trabalho agora. Estar aqui na China durante esse ano cultural, trazendo todos esses artistas em ação de governo, faz parte desse movimento. E isso também acontecerá no Brasil. Artistas e orquestras chinesas já começaram a se apresentar lá. Assinamos ainda um Memorando de Entendimento no audiovisual para essa troca, que já passou pela Câmara dos Deputados e está no Senado. Tudo isso são pontos estratégicos para avançarmos, aos poucos.

Ministra, com a sua vinda foi criado o primeiro Ponto de Cultura brasileiro não só da China, mas do continente asiático. Qual a importância desse acontecimento?

É uma notícia muito positiva para nós. O programa Cultura Viva já existe há 21 anos. Temos 14 países onde a política já está presente. É um reconhecimento de atividades culturais e agentes culturais com influência positiva em suas comunidades, e esse reconhecimento é feito pela própria comunidade. O Ministério da Cultura pesquisa e, se a comunidade confirma o impacto positivo, aquela iniciativa passa a ser um ponto de cultura, com contato direto com o Ministério. Ter um Ponto de Cultura na China é uma maravilha. Isso mostra que estamos com um objetivo certo e já temos sinalizações positivas.

A China é um mercado gigantesco. Quais são as perspectivas e objetivos no campo da economia criativa?

Tivemos uma reunião com o ministro da Cultura e Turismo daqui e com o presidente do Grupo de mídia da China (CMG), com quem assinamos um acordo de colaboração no audiovisual entre nossa Ancine e o CMG. É um grande momento para o Brasil. Os chineses conhecem pouco da nossa cultura, mas o número de chineses indo ao Brasil e de brasileiros vindo para cá cresceu. O futuro é muito positivo. Cabe a nós aproveitar este momento, construir ações sólidas e entender o que eles também querem conhecer, porque este país tem uma dinâmica cultural e artística muito ampla. A intenção dessa troca é fortalecer nossa economia criativa, criar emprego, renda e trabalho. Precisamos olhar a cultura com essa possibilidade, porque ela é real. Trazemos artistas e orquestras. O governo chinês também leva seus artistas e orquestras ao Brasil. Teremos exposições, um festival de cinema das duas culturas. Tudo isso são pontos de construção para trazer mais gente para cá, para visitar e para trabalhar, e abrir mais oportunidades para os chineses no Brasil, onde já existe uma comunidade grande.

Como seguem os próximos passos desta missão e do Ano Cultural Brasil-China?

Estamos aqui para prestigiar e marcar a presença do governo brasileiro neste momento. Este festival traz artistas de várias gerações e de vários lugares do Brasil. Entendemos que nossa representatividade precisa ter essa cara diversa, mas ao mesmo tempo é um primeiro movimento. É como uma onda entrando devagarinho. Há um samba que diz: “alguém me avisou para pisar nesse chão devagarinho”. Chegando com cuidado, entendendo o comportamento, o que cabe e o que não cabe, respeitando as estruturas dos governos. Teremos festival de cinema, filmes brasileiros sendo exibidos em outras cidades, atividades de teatro. O Neojibá também se apresentará em outras cidades. No Brasil, teremos o cinema chinês circulando, com apresentações. É um primeiro movimento. Em todas as reuniões que tive aqui, diretores, secretários e ministros me disseram que as portas estão abertas. Estamos pensando em um projeto de promoção para ampliar a possibilidade de brasileiros virem para cá, unindo turismo e cultura. São essas coisas que estamos programando para o futuro próximo. É uma oportunidade ímpar que o Brasil não pode perder: expandir aqui na China a sua cultura, a sua arte, o seu talento e fazer negócios.

A visita começou com o show de Ivan Lins na abertura do festival. O que significa ter um artista do porte dele, neste momento de expansão brasileira aqui na China?

O Ivan Lins é um artista brasileiro festejado no mundo inteiro, com uma carreira consolidada e fantástica, com obras que fazem parte da nossa vida. E ver ele aqui foi incrível, porque você via o público brasileiro, mas também muitas pessoas do público chinês com os DVDs e CDs dele, uma coisa linda. E, mais curioso ainda, muitos jovens. Isso demonstra a possibilidade que temos de trazer mais música popular brasileira. Mas quero parabenizar e agradecer ao Ivan Lins: o show foi maravilhoso. Também tive a oportunidade de assistir ao Neojibá em Pequim, que foi fantástico. É uma banda de jovens fazendo música clássica com aquele tempero brasileiro contemporâneo, e os chineses receberam muito bem. Soube também que a Ópera de Pequim vai se apresentar na Bahia, em Salvador, na Concha Acústica. Isso vai ser um acontecimento para a gente lá. São dois países distantes, culturas diferentes, mas em ambos existe muita abertura e curiosidade para fazer esse conhecimento cultural. Estamos num grande momento para aproveitar essa oportunidade.

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