O apoio irrestrito a Israel, que por muitas décadas foi um consenso na política estadunidense, parece estar se transformando, por conta do genocídio palestino documentado diariamente desde 2023. Essa é a opinião da cientista política Jana Silverman, da Universidade Federal do ABC.
Ao Brasil de FatoSilverman lembrou que esse apoio não nasceu simultaneamente ao estabelecimento de Israel em 1948, mas se constituiu depois, quando os EUA entenderam precisar de um aliado próximo no Oriente Médio.
“Essa transformação na opinião pública influenciou diretamente o cenário político”, afirma. “Embora não tenha sido o único fator determinante, a questão palestina afetou o resultado eleitoral de 2024.”
A analista avalia também as possibilidades abertas pelo pleito legislativo de novembro, que pode selar o futuro da administração de Donald Trump. Se hoje o magnata tem maioria nas duas casas — e na Suprema Corte —, as eleições podem mudar isso, transformando-o em um “pato manco”, ou seja um mandatário com pouca governabilidade em seus dois anos restantes de mandato.
Jana Silverman participará da conferência “A Saída é pela Esquerda – Good Night, Far Right”. Para mais informações, clique aqui!
Leia abaixo a entrevista:
Brasil de Fato: Como as guerras apoiadas e realizadas pelo governo Trump impactam sua própria base de apoio entre eleitores? A guerra do Irã é vista como uma derrota?
Jana Silverman: A guerra é obviamente altamente impopular, está fazendo com que os níveis de popularidade de Trump nas pesquisas de opinião caiam drasticamente. Hoje, ela não passa de 38% ou 39%, números mais baixos do que nos piores momentos da administração do (ex-presidente, Joe) Biden.
Historicamente, o Partido Republicano nos Estados Unidos tende a adotar uma postura mais isolacionista. Donald Trump baseou sua campanha nessa premissa, o que torna a possibilidade de iniciar uma guerra sem justificativas claras algo contraditório. Atualmente, a necessidade estadunidense de controlar fontes externas de petróleo diminuiu, uma vez que o país se tornou um grande produtor de petróleo e gás natural.
Sob a perspectiva do eleitor estadunidense, uma intervenção militar carece de lógica clara, embora ela exista no campo geoestratégico. O Irã e o Estreito de Ormuz ocupam posições vitais, sendo alvos de disputa com potências como China e Rússia.
O cenário assemelha-se a um “beco sem saída”: Trump não detém o controle territorial sobre o Estreito de Ormuz e o que existe é um cessar-fogo instável e “quente”. Recentemente, inclusive, foram registrados bombardeios contra os Emirados Árabes Unidos, um aliado estratégico dos EUA na região.
Este panorama sugere um conflito de longa duração, possivelmente uma versão de menor escala das guerras do Iraque e do Afeganistão. Entretanto, o cenário atual apresenta motivos ainda menos nítidos do que os utilizados em intervenções passadas. Hoje, as motivações parecem restringir-se a:
Questões geoestratégicas, de contenção de potências rivais e manutenção dos lucros das empresas do setor de energia dos Estados Unidos.
A antipatia com israel que as pesquisas mostram pode forçar uma mudança na relação entre os dois países?
A relação entre os Estados Unidos e Israel é historicamente complexa. É fundamental lembrar que o apoio incondicional estadunidense não existiu desde a criação do Estado de Israel; essa aliança consolidou-se ao longo do tempo, à medida que os EUA perceberam a necessidade de um aliado estável em uma região estrategicamente disputada por outras potências.
Atualmente, observa-se uma mudança significativa na percepção pública, especialmente entre os eleitores mais jovens e os filiados ao Partido Democrata. O impacto de acompanhar conflitos em tempo real, por meio de dispositivos móveis e redes sociais, gerou uma sensibilização profunda e duradoura. Pela primeira vez em décadas, há um aumento notável na simpatia pela causa palestina em detrimento do apoio irrestrito a Israel.
Essa transformação na opinião pública influenciou diretamente o cenário político. Embora não tenha sido o único fator determinante, a questão palestina afetou o resultado eleitoral de 2024. Pesquisas indicam que, entre os eleitores que apoiaram Joe Biden em 2020 mas não votaram em Kamala Harris em 2024, quase 30% justificaram sua decisão com base na postura da candidata em relação à Palestina.
Apesar de o tema ter perdido espaço momentâneo na grande mídia, consolidou-se uma infraestrutura de mobilização. Organizações de solidariedade à Palestina fortaleceram-se, criando conexões inéditas entre comunidades árabes e judeus anti sionistas, com destaque para estados como Michigan e Nova York.
A questão tornou-se central para os pré-candidatos democratas que disputam o Congresso. Atualmente, é virtualmente impossível sustentar uma candidatura de esquerda nos EUA sem criticar o apoio militar a Israel ou sem recusar financiamento de grupos de lobby pró-Israel, como o AIPAC (Comitê de Assuntos Públicos de Israel Americano).
Em suma, a política externa em relação ao Oriente Médio deixou de ser um consenso bipartidário para se tornar um elemento decisivo e de intensa disputa dentro da política interna estadunidense.
A crise energética é um elemento que preocupa o cidadão estadunidense?
A crise energética é um tema central para o eleitor estadunidense, especialmente devido à precária infraestrutura de transporte público do país, que torna a dependência de veículos particulares quase absoluta.
A análise do cenário atual revela três pontos críticos. As políticas do governo Biden para impulsionar a produção nacional de veículos elétricos enfrentam dificuldades. A iniciativa foi tardia, o que garantiu aos fabricantes chineses uma vantagem competitiva considerável. Ao mesmo tempo, a imposição de altas tarifas de importação impede que modelos mais acessíveis, como os da BYD, entrem no mercado estadunidense.
O custo de aquisição de um carro elétrico nos EUA permanece elevado. Além do fator financeiro, há uma percepção cultural de que esses veículos — simbolizados pela Tesla — são produtos voltados para elites políticas e econômicas, não sendo uma opção viável para a classe trabalhadora.
O preço da gasolina impacta diretamente o orçamento das famílias. Recentemente, houve um aumento significativo, beirando os 20%, em um contexto onde o trabalhador já enfrenta dificuldades para arcar com custos básicos de moradia e saúde.
Qualquer elevação no custo de vida gera um peso desproporcional para a população e, consequentemente, exerce um impacto determinante no cenário eleitoral, influenciando a decisão de voto do trabalhador que se sente pressionado pela inflação energética.
Como você vê o pleito de novembro, as chamadas eleições midterms, e como avalia as chances de Trump manter maioria na Câmara e no Senado?
O cenário para as eleições de novembro é fluido, tornando previsões a longo prazo incertas. Atualmente, os Democratas possuem chances reais de conquistar a Câmara dos Representantes, embora o Senado apresente um desafio maior devido à configuração das cadeiras em jogo e ao peso proporcional de estados rurais e conservadores.
A viabilidade eleitoral democrata dependerá do perfil dos candidatos. Mensagens genéricas sobre a “defesa da democracia” mostraram-se insuficientes em 2024. Para atrair o eleitorado, será necessário apresentar alternativas ao neoliberalismo e revisar o apoio incondicional a ações militares externas.
A Suprema Corte dos EUA é favorável a Trump. Qual a consequência disso e quais os limites que a oposição enfrenta por causa disso?
A composição atual da Suprema Corte tem revertido jurisprudências consolidadas, evidenciando uma falha estratégica do Partido Democrata: a não codificação de direitos em leis federais quando detinham a maioria. Esse cenário impacta diretamente os direitos reprodutivos, com a queda do direito universal ao aborto.
Também a comunidade trans, com restrições severas a cirurgias de afirmação de gênero em diversos estados. E ainda o direito ao voto já que decisões recentes podem restringir o acesso ao voto para ex-detentos e pessoas sem identificação oficial.
A lição central é a urgência de codificar direitos sociais em lei, garantindo que não dependam exclusivamente de interpretações judiciais oscilantes.
Brutalidade do ICE, guerras sem sentido, Caso Epstein…. o que repercute mais junto ao eleitor dos EUA?
A economia continua sendo o fator determinante para o eleitor estadunidense. A vitória de Donald Trump anteriormente não se deveu a uma guinada ideológica repentina da população para o preconceito, mas sim a uma “memória econômica” negativa ligada à inflação pós-pandemia. Problemas conjunturais, como a escassez de mão de obra e de bens, foram percebidos como falhas de gestão, e o aumento dos combustíveis pode repetir esse efeito nas próximas eleições.
A questão migratória possui forte apelo emocional e cultural, conectando-se ao “mito fundacional” dos EUA como uma nação de imigrantes. Abusos cometidos por órgãos como o ICE chocam a opinião pública por remeterem a cenários de regimes autoritários. A mobilização em torno deste tema é robusta, como visto na greve geral em Minneapolis, refletindo a dependência da economia estadunidense do trabalho migrante.
Como vê a situação da oposição de esquerda a Donald Trump? Há novos movimentos e figuras surgindo para além das forças tradicionais?
Com Bernie Sanders assumindo um papel de mentor devido à idade, a nova geração de esquerda ganha protagonismo com figuras como Alexandria Ocasio-Cortez e Zohran Mamdani.
A meta é expandir a bancada socialista e progressista no Congresso. Nesse sentido, o DSA (Democratic Socialists of America) tem papel importante. A organização cresce de forma inédita, servindo como escola política para minorias e trabalhadores.
O sucesso de candidaturas como a de Mamdani demonstra que a força da esquerda reside no trabalho voluntário e na organização de base, e não apenas em recursos financeiros. Dá pra dizer que a tarefa da esquerda estadunidense é fortalecer a infraestrutura social — sindicatos e movimentos de rua — para disputar a política no “coração do império”. Caso esse espaço não seja ocupado de forma organizada, grupos políticos extremistas avançarão, com consequências negativas para a humanidade.
É, e os os outras perguntas estou vendo são meio conectados. A questão da eleitoral é novembro, claro, com a popularidade do Trump, é, os democratas têm grande chance pelo menos a ganhar a Câmara baixa. A Câmara, o Senado muito complicado porque são menos, cadeiras em jogo e, é, enfim, um sobrepeso dos estados mais rurais, mais conservadores, mas eu acredito que possível e é possível que ganhe o Senado.
*Esta publicação é fruto de uma parceria entre o Brasil de Fato e a Fundação Rosa Luxemburgo

