Quem forma a Frente Cidadã Pela Despoluição Sonora

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Na coluna anterior, falamos sobre a relação de políticos de partidos de esquerda ou centro-esquerda com o sedutor discurso da poluição sonora e o risco que a aliança com grupos claramente reacionários traz. Buscando aprofundar essa questão, estivemos na 4ª Conferência Municipal Sobre Ruído, Vibração e Perturbação Sonora, que aconteceu no dia 27 de abril, na Câmara dos Vereadores. O nome do evento é bastante descritivo e, além deste tema, o evento serviu para a apresentação do Projeto de Lei nº 123/2026que trata da Política Municipal de Despoluição Sonora, proposto por Eliseu Gabriel (PSB), Cris Monteiro (Novo), Toninho Vespoli (Psol), Renata Falzoni (PSB), Marina Bragante (Rede), Nabil Bonduki (PT) e Gabriel Abreu (Pode).

Com exceção de Cris Monteiro, que não estava no auditório, os demais vereadores foram uníssonos: vivemos uma epidemia de barulho na cidade que precisa ser coibida com mais fiscalização. Os exemplos não saíram do comum, identificando os ruídos como vindos de obras noturnas públicas e particulares, veículos, em especial caminhões, e adivinhem só, bares. Houve um comentário aqui e ali sobre respeitar a dinâmica cultural da cidade, mas nada digno de nota.

A conferência foi muito bem montada, com parlamentares de vários espectros políticos, apresentação de projeto de lei, palestrantes brasileiros e estrangeiros, apoio de associações de moradores e de bares e restaurantes, Consegs, institutos de pesquisa, órgãos públicos, diversas empresas e um final descrito na programação como “reafirmação da importância de consolidar uma agenda municipal de despoluição sonora orientada por evidência, cooperação institucional e participação cidadã”.

Ainda foram citadas articulações para ampliar as políticas de despoluição sonora com a deputada estadual Marina Helou (PSB) e a deputada federal Tábata Amaral (PSB). Os realizadores com tamanha capacidade foram a Frente Cidadã Pela Despoluição Sonora e a ProAcústica.

A Frente Cidadã foi fundada em 25 de junho de 2025, reunindo movimentos de moradores de áreas impactadas por diferentes fontes de ruído, como Avenida Paulista e Allianz Parque. O idealizador é Marcelo Sando, que se apresenta publicamente como filósofo, estrategista e escritor. Ele é o rosto da organização, circulando com desenvoltura pela Câmara Municipal, Prefeitura de São Paulo, Assembleia Legislativa e Palácio do Planalto, além de marcar forte presença na mídia com matérias no Estadão, Folha e Veja. Ao que tudo indica, a “incidência junto ao Poder Público”, como consta no site da ONGestá dando resultados.

A principal parceira de Sando é a ProAcústica, ou Associação Brasileira Para a Qualidade Acústica, uma “entidade sem fins lucrativos” que diz que “nasceu da iniciativa de empresas e profissionais que identificaram a oportunidade de divulgar a toda a sociedade a importância da qualidade acústica nas edificações e no meio ambiente, como fator de bem-estar e de saúde pública”.

A ProAcústica não é uma ONG ambientalista. Seu quadro de associados é, na verdade, um conselho de representantes das maiores fabricantes de materiais de construção e soluções acústicas do país. Seu conselho é presidido por Edison Claro de Moraes, diretor da fabricante de janelas antirruído Atenua-Som. Sua diretoria executiva é liderada por Marcos César de Barros Holtz, da consultoria Harmonia Acústica, e gigantes globais da construção também ocupam cadeiras de destaque: Paula Marcilli Petroni, da Saint-Gobain, como vice-presidente de Comunicação e Marketing, e Paula Epíscopo Omizzolo, da Knauf, como conselheira.

Para se ter uma ideia do tamanho das aliadas, a multinacional francesa teve lucro de R$ 17,6 bilhões no ano de 2025, enquanto sua parceira alemã atingiu inacreditáveis R$ 57 bilhões de faturamento no mesmo período. Em novembro deste mesmo ano, em uma Audiência Pública na Câmarapresidida por Cris Monteiro (Novo) e que selou o compromisso com o PL, Marcos Holtz e Marcelo Sando tiveram cadeira à mesa e apresentaram um discurso alinhado, pavimentando o caminho para a futura lei.

Holtz defendeu que “é possível estruturar uma fiscalização mais inteligente, mais conectada e que funcione em tempo real, sem depender exclusivamente do deslocamento físico de equipes”. Já Sando arrematou com uma crítica ao programa Paulista Aberta: “A ideia era convívio social mais sadio, uma cidade menos barulhenta, mas com o tempo, o espaço passou a atrair bandas, eventos religiosos com amplificação e baterias universitárias, transformando o que era para ser um ambiente de descanso em um palco de ruído constante”.

Todo este cenário bem montado é o lobby organizado que se aproveita de uma pauta justa para impulsionar seus próprios negócios e dar cobertura científica e política a um projeto de cidade excludente. O PL 123/2026 é o atestado de legitimidade a esta articulação obscura que representa uma oportunidade de mercado bilionária. Uma legislação mais rígida criaria uma demanda massiva, tanto pública como particular, por produtos e projetos de acústica, beneficiando diretamente as associadas da ProAcústica.

Marcelo Sando e a Frente Cidadã, com uma retórica impecável sobre saúde e bem-estar e o apoio técnico da ProAcústica, fornecem a impressão de preocupação e autoridade perante a sociedade que abre caminho para o lobby visando a concretização desse negócio multimilionário.

Os argumentos trazidos, ainda que apoiados em uma realidade relativa de poluição sonora e dados técnicos, carecem de um debate mais amplo sobre o assunto. O problema estrutural do barulho na cidade de São Paulo reside, conforme argumentos dos próprios parlamentares, em três frentes: especulação imobiliária, mobilidade e opção política da atual prefeitura em relação ao bem-estar dos seus cidadãos.

Uma lei que no final das contas vai se voltar à fiscalização e maior controle tecnológico não pode ser a base da política pública. Os interesses das organizações que conseguiram avançar tanto neste debate em pouco menos de um ano são muito claros e assistir vereadores de partidos como Psol, PT e PSB encampar tal discurso levanta muitos questionamentos.

Vemos Nabil Bonduki, em uma grande luta contra o escândalo das habitações de interesse social, se aliar a empresas ligadas ao mercado imobiliário.

Renata Falzoni e sua histórica bandeira por mobilidade endossa um modelo de cidade baseado na fiscalização e não na diminuição de veículos nas ruas.

Toninho Vespoli já vem imerso há algum tempo nesta batalha contra o barulho, em especial no Vale do Anhangabaú, mas ignora a seletividade e as incoerências das fiscalizações aos pequenos comércios.

Marina Bragante e sua pauta pelo desenvolvimento sustentável talvez devesse questionar os poucos lugares de convivência na cidade, em vez de apoiar o discurso de uma pessoa que critica o Paulista Aberta.

Eliseu Gabriel, autor do livro “Brasil Soberano: Um Plano Nacional Pós-Neoliberalismo”, estende a mão para que mais um aspecto de nossas vidas seja controlado pelos neoliberais.

Olhando a biografia dos signatários do projeto, fica uma questão incômoda: todos acreditaram na boa intenção do defesa de Sando e a mera assessoria técnica de Holtz e sua turma bilionária?

Porque está dito explicitamente no site da Frente Cidadã que a intenção é criar regras para que toda empresa que seja aberta na cidade tenha um estudo de impacto sonoro, que seja criado um órgão com poderes de fiscalização de ruído e cassação imediata de alvarás e instalação de sensores de ruídos nas ruas. Parece um discurso de avanço civilizatório, mas o objetivo é criar um novo mercado para que a ProAcústica venda estudos, equipamentos e produtos antirruído.

Imagina só entregar uma estrutura dessas nas mãos de uma prefeitura como a de Ricardo Nunes, o estrago ainda maior que seria feito na cena cultural paulistana. Depois vai nos restar fazer vídeos nas redes sociais dizendo que não teve ciclovia entregue, que o prefeito favorece a especulação imobiliária, que o festival de Pinheiros foi proibido de ser realizado, que teatro foi despejado e casa de samba foi demolida. Eles estão entregando o direito à cidade de bandeja para a indústria do silêncio.

*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato

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