Sem explicar para moradores, Guarda Civil Metropolitana destrói mais de 600 moradias em ocupação na zona sul de SP

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Uma operação da Guarda Civil Metropolitana (GCM), com apoio da Polícia Militar, destruiu as moradias de mais de 600 famílias que ocupavam um terreno no Jardim São Judas Tadeu, no Grajaú, zona sul de São Paulo. A ação, iniciada na manhã do dia 29 de abril, atingiu moradores que estavam no local desde dezembro do ano passado.

O despejo forçado ocorreu sob protestos dos moradores, que denunciam a truculência e a falta de amparo legal. Durante a ação, um morador foi atingido com tiros de bala de borracha. Segundo os relatos colhidos pela reportagem, não houve a apresentação de qualquer mandado judicial de reintegração de posse para embasar a destruição das casas.

Morador de ocupação na zona sul de SP ferido pela GCM
Morador de ocupação na zona sul de SP ferido pela GCM. | Crédito: Reprodução

O episódio central da retirada ocorreu por volta das 6h da manhã, quando as máquinas chegaram ao terreno. No dia anterior, 28 de abril, agentes da GCM já haviam comparecido ao local para ordenar a saída voluntária, mas recuaram diante da resistência e da quantidade de famílias presentes.

A ausência de uma ordem judicial foi o principal ponto de questionamento dos moradores durante o confronto. Sem um papel que formalizasse a decisão, as famílias viram suas estruturas, tanto de madeira quanto as poucas já erguidas em alvenaria, virem abaixo.

A auxiliar de enfermagem Maria Gomes, de 32 anos, é uma das pessoas que perdeu o investimento de meses de trabalho. “Eles vieram sem nenhum mandado e derrubaram todas as casas. Quando a gente perguntava onde estava o papel da ordem judicial, eles falavam que a ordem era a farda”, relata a moradora.

A fala da agente pública resume uma tendência crescente na gestão municipal: a militarização das remoções. Especialistas apontam que a prefeitura tem substituído os processos judiciais, que garantem o direito à defesa e o contraditório, por atos administrativos imediatos executados pelas forças de segurança.

Esse modelo de “limpeza urbana” via Guarda Civil ignora a necessidade de comprovação de posse e transforma o conflito por moradia em uma questão puramente policial. No Grajaú, essa lógica resultou no desabrigo de centenas de pessoas sem que houvesse tempo para a justiça avaliar a função social daquela propriedade.

A história do terreno, localizado entre as ruas Tirinto dos Pássaros e Antônio Burlini, é marcada por décadas de abandono e degradação. Registros do Google Earth entre 2004 e 2025 indicam que, há mais de duas décadas, o local era um terreno que contava inclusive com uma piscina. Veja abaixo as imagens capturadas que mostram as mudanças no território:

16.07.2025 | Crédito: Reprodução/Google Earth

A situação mudou drasticamente nos últimos anos. Conforme os registros do satélite do Google, o espaço se transformou em um depósito de carcaças de automóveis. Os primeiros sinais de latarias acumuladas em campo surgiram em maio de 2022, se intensificando nos meses seguintes.

Em julho de 2025, as imagens de satélite mostram que o local já estava completamente tomado por ferros enferrujados e lixo. Para os moradores da região, o pátio abandonado era um foco de doenças, especialmente a dengue, além de atrair insegurança e o descarte irregular de outros resíduos.

Foi nesse cenário de abandono que as famílias decidiram ocupar a área em dezembro do ano passado. Organizados, os moradores realizaram mutirões para limpar o terreno, retirando entulhos e carcaças para viabilizar a construção de moradias populares.

Para Maria Gomes, a ocupação representava a chance real de sair do aluguel. Como auxiliar de enfermagem, ela aplicava suas economias na construção da casa própria, com a expectativa de que os pagamentos mensais de moradia estivessem chegando ao fim em sua vida.

A esperança da auxiliar de enfermagem e de outras 600 famílias colidiu com a política de “desfazimento” da prefeitura. O argumento ambiental foi utilizado como justificativa para a demolição administrativa, sem considerar o histórico de uso do terreno como depósito de ferro-velho a céu aberto. Veja o vídeo mostra o cemitério de automóveis:

A área em questão possui um histórico jurídico complexo. Um processo que tramita sobre a Rua Antônio Burlini, vizinha à ocupação, já havia resultado em um acórdão do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) em 2020. Na época, a justiça condenou o município e o estado a fiscalizarem o local.

No entanto, aquela decisão judicial não se limitava apenas à fiscalização ambiental. O TJ-SP determinou que, em caso de remoções, os entes públicos deveriam obrigatoriamente incluir as famílias desalojadas em programas habitacionais de aquisição de moradias.

O acórdão ressaltava que a fiscalização e a prevenção de novas ocupações em Áreas de Proteção aos Mananciais devem caminhar junto com o direito à moradia. No entanto, os moradores do Jardim São Judas Tadeu afirmam que não houve oferta de auxílio-aluguel ou cadastramento em programas de habitação após o despejo no final de abril.

O que diz a prefeitura

Em nota enviada ao Brasil de Fatoa Secretaria Executiva de Mudanças Climáticas (Seclima) informou que a ação fez parte da Operação Integrada em Defesa das Águas (Oida). Segundo a pasta, a finalidade era evitar a expansão de uma ocupação clandestina em Área de Proteção e Recuperação dos Mananciais (APRM-G).

A prefeitura sustenta que a demolição administrativa está prevista na legislação estadual para áreas de proteção de mananciais. A nota afirma que foram desfeitas construções “comprovadamente não habitadas e inacabadas”, embora moradores como Maria Gomes contestem a informação, afirmando que já viviam no local.

A Seclima também relatou que, durante a operação, um grupo arremessou objetos contra os agentes, o que teria motivado a intervenção da GCM com “equipamentos de menor potencial ofensivo”. De acordo com a secretaria, a situação foi controlada sem necessidade de prisões.

Complementando a posição oficial, a Secretaria Executiva do Programa Mananciais validou as informações, alegando que o terreno é uma área particular que anteriormente funcionava como pátio de depósito de veículos apreendidos. O zoneamento municipal classifica o local como Zepam (Zona Especial de Proteção Ambiental).

A prefeitura justificou a urgência da remoção citando incêndios ocorridos ao longo de 2025 na área, que teriam causado doenças respiratórias em crianças da vizinhança. Além disso, a gestão municipal apontou o furto de peças de veículos na região como um dos problemas recorrentes do pátio.

Segundo a Secretaria, as ocupações irregulares estavam causando preocupação aos moradores do Jardim da União, bairro vizinho que já passou por processos de urbanização e regularização. A prefeitura afirma que sua atuação visa proteger o meio ambiente e a ordem pública na bacia hidrográfica do Guarapiranga.

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