Após mais de três décadas de presença ininterrupta em Cuba, a mineradora canadense Sherritt Internacional anunciou a suspensão imediata de todas as suas atividades na ilha. A empresa, responsável pela exploração de níquel e cobalto — minerais estratégicos para o país caribenho —, representa um dos maiores investimentos estrangeiros na nação.
Segundo explicou a própria companhia, com sede em Toronto, em comunicado oficial, o recente endurecimento das medidas coercitivas unilaterais impostas pelos Estados Unidos contra Havana “altera sustancialmente a capacidade da corporação de operar normalmente, incluindo as atividades relacionadas à empresa mista da Sherritt em Cuba”.
O documento refere-se à ordem executiva emitida pela Casa Branca no último dia 1º de maio, que amplia o alcance extraterritorial das sanções contra qualquer pessoa, empresa ou entidade não estadunidense que mantenha relações comerciais com Cuba, especialmente nos setores de energia, defesa, segurança e finanças.
A saída da companhia canadense ocorre em um momento extremamente crítico para a economia cubana. Por meio da associação econômica Moa Nickel S.A. — na qual a Sherritt detinha 50% das ações e o Estado cubano a outra metade —, a empresa chegava a produzir anualmente cerca de 32 mil toneladas de níquel (Cuba possui uma das maiores reservas do mundo) e 3,5 mil toneladas de cobalto na província de Holguín. Ambos são minerais essenciais para o mercado global de baterias.
A exportação desses minérios é uma das principais fontes de receita da nação; nos últimos anos, a atividade representou entre 25% e 35% do total de moeda estrangeira que entra no país. Além disso, a Sherritt atua no setor energético através da empresa mista Energas S.A., que responde por aproximadamente 10% da geração elétrica total do país, abastecendo principalmente as regiões ocidental e central.
Esse aporte é vital no cenário atual, já que, desde o final de janeiro, os Estados Unidos impuseram um bloqueio energético contra a ilha, ameaçando sancionar qualquer país que “venda ou forneça petróleo” a Cuba. Devido às dificuldades da guerra econômica de Washington, a ilha sofreu uma retração econômica de cerca de 20% desde 2020, segundo dados da CEPAL. Nesse contexto, especialistas consultados pelo Brasil de Fato alertam que a interrupção da exportação de níquel e a possível queda na produção elétrica podem criar um cenário “desastroso” para a já combalida economia cubana.
Para a guerra contra Cuba
Ao comentar as novas sanções dos EUA, o presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, afirmou que as medidas “agravam a situação já difícil” do país. Ao mesmo tempo, destacou que as agressões estadunidenses fortalecem a determinação do povo cubano em “defender a pátria, a revolução e o socialismo”.
“Nosso povo conhece a crueldade por trás das ações do governo dos EUA e a fúria com que são capazes de atacá-lo. Compreende, assim como o resto do mundo, que se trata de uma agressão unilateral contra uma nação e uma população que só deseja viver em paz, dona de seu próprio destino e sem a interferência perniciosa do imperialismo estadunidense”, declarou em suas redes sociais.
Os anúncios recentes de Washington fazem parte de uma escalada de agressões na guerra econômica contra Cuba. Desde o início do governo de Donald Trump, a estratégia da Casa Branca tem focado em asfixiar sistematicamente todas as formas de captação de recursos da ilha, endurecendo um cerco que visa paralisar a capacidade financeira do Estado cubano e limitar sua atuação no mercado internacional.
Desde então, um dos pilares dessa ofensiva tem sido o ataque direto ao turismo, motor vital da economia local. Para isso, os Estados Unidos retiraram o sistema de visto automático para cidadãos europeus que tenham visitado Cuba, visando prejudicar o fluxo de turistas.
Paralelamente, a pressão estadunidense avançou sobre a cooperação internacional, com ameaças de sanções a países que contratem serviços médicos cubanos. Desde que assumiu o cargo, o secretário de Estado, Marco Rubio, tem pressionado nações do Caribe e da América Central para que interrompam a contratação de profissionais de Cuba.
Soma-se a isso a asfixia energética imposta por Washington, que também atinge as capacidades produtivas do país, e a expansão do alcance das sanções a empresas de outros países que negociam com a ilha. É nesse cenário de guerra econômica que a Sherritt International encerra suas atividades em Cuba.

