O Brasil saiu do mapa da fome em julho do ano passado, mas nem todo o brasileiro tem a segurança alimentar garantida. A população negra é a que mais sofre com a falta de acesso à alimentação e nutrição adequada, segundo estudo realizado pela Fian Brasilque agora virou um livro, “As faces da desigualdade”, de autoria de Veruska Prado e Rute Costa, com trabalho estatístico de Arthur Welle. A pesquisa mostra também que, de 2021 a 2023, o avanço da segurança alimentar foi maior nos lares chefiados por pessoas negras e mulheres, mas que o racismo e o sexismo continuam como determinantes para os piores índices.
A pesquisadora Veruska Prado, uma das autoras do estudo, explicou em entrevista ao Conexão BdFsim Rádio Brasil de Fatoque a análise completa leva em conta o período pré-pandemia, a pandemia e os anos do governo Jair Bolsonaro, e também mostra que, com o retorno dos programas sociais de Lula, houve melhoria nos índices de forma geral. “‘É importante analisar esses dados nessa trajetória histórica porque a gente vê que a segurança alimentar, o acesso aos alimentos dentro dos domicílios no Brasil está até melhor do que em 2017 e 2018”, explica.
Prado pondera, no entanto, que sob a ótica de um recorte racial e de gênero, os números não são tão positivos assim. “Quando a gente coloca uma lente por sexo ou por raça, ou esses elementos sobrepostos, nesse conjunto de dados, a gente observa que a gente tem domicílios chefiados por homens brancos com 84% de segurança alimentar e domicílios chefiados por mulheres negras com 61,4% (de segurança alimentar). Nós estamos falando aqui de uma diferença de 20%. Isso é uma diferença gritante e que a gente precisa entender por que ainda acontece. Isso não é de agora”, afirma.
Outro importante aspecto refere-se à lacuna de informações sobre o consumo de produtos ultraprocessados e sua relação com a chamada sindemia global de obesidade, desnutrição e mudança climática. Sobre isso, Veruska Prado explica que existe um debate atual dentro da área da nutrição sobre não chamar os ultraprocessados de alimentos. “Eles são produtos porque é uma composição muito mista, você tem ali algumas coisas que um dia foram alimentos mas com muitos produtos químicos associados”, pontua.
“Quando a gente fala em insegurança alimentar ou uma percepção da família de uma insegurança alimentar, a gente está querendo dizer sobre diferentes aspectos. Um que é sobre uma percepção daquele chefe daquela família de que o dinheiro não vai dar para comprar a comida até o final do mês e você começa a fazer algumas escolhas de compras que muitas vezes vão favorecer mais a saciedade do que a qualidade daquele alimento”, aponta a pesquisadora.
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