Mães trabalhadoras relatam como o fim da escala 6×1 melhoraria suas vidas

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Neste domingo, comemora-se no Brasil o Dia das Mães, uma data em que muitas famílias se reúnem para celebrar essas mulheres que desempenham um papel tão importante em nossas vidas e sociedade. Mas este ano, assim como nos anteriores, essa não é a realidade de todas as famílias, já que muitas dessas mães estarão trabalhando. 

Em muitos casos, mulheres que por vezes sustentam seus lares sozinhas estão sujeitas a uma escala que impõe seis dias de trabalho e somente uma folga semanal, que nem sempre é no domingo, como explica a representante do Movimento Vida Além do Trabalho (VAT) de Minas Gerais, Pâmela de Faria. 

“Mulheres são as que mais sofrem na escala 6×1, muitas são mães solo, e seu trabalho é a única renda da casa. E ainda têm que lidar com o trabalho invisível: tarefas de casa, cuidado com filhos, compras da casa e muitas ainda cuidam de algum parente enfermo. Muitas passam até mais de 12 horas sem ver seus filhos para poderem manter o sustento de sua casa”, ressalta. 

Um problema de todos nós 

A população brasileira é composta majoritariamente por mulheres e, como aponta Talita Silva, integrante da Marcha Mundial das Mulheres (MMM), de acordo com as pesquisas, cerca de 70% são mães. Embora não existam hoje dados precisos de quantas mulheres estão empregadas nesse formato de trabalho, sabe-se que, dos mais de 14 milhões de trabalhadores da 6×1, 1,4 milhão são mulheres que atuam como empregadas domésticas. 

“A jornada diária de quem tem filho já é maior. E, quando falamos da escala 6×1, falamos da nossa exaustão. Espera-se uma meta desumana para as mães que trabalham na escala 6×1. É o retrato da superexploração das mulheres. É tirar a energia e limitar sua vida unicamente à reprodução social”, aponta a integrante da MMM, que também é mãe, professora e sindicalista. 

Para Silva e Faria, isso reflete diretamente na qualidade do convívio familiar, na condição de saúde física e mental dessas mulheres e na qualidade e produtividade do trabalho desempenhado por elas. Além disso, segundo elas, a culpabilização social por essa falta de tempo com os filhos é presença cotidiana na vida das mulheres. 

“A sociedade depois nos culpa porque os filhos tomaram alguma atitude considerada inadequada. Na escala 6×1, mal dá tempo de estar com os filhotes. Mesmo assim, a responsabilidade é sempre nossa, quando é algo ‘ruim’. Por outro lado, quando tudo flui bem, é sorte”, explica Faria. 

Relatos 

A lacuna nos dados dificulta o acesso coletivo ao que significa esse modelo de trabalho na vivência das famílias. Mas, para uma ampla parcela das mães brasileiras, a esperança é que essa realidade extenuante mude no próximo período. Foi isso o que o Brasil de Fato MG descobriu conversando com oito mulheres que vivem os impactos dessa escala todos os dias. Para que não sofram nenhum tipo de represália, optamos por apresentá-las com nomes fictícios. 

“Essa jornada de 6×1, principalmente para nós mulheres, é muito pesada. Eu fico olhando para minhas netas. Já é a minha quarta geração indo pelo mesmo caminho que eu. Não tem oportunidade para viver, é só trabalho. A família não cria vínculo, porque não tem a oportunidade nem de se conhecer direito. Cada um chega super cansado, tem tantas coisas para fazer”, retrata Gabriela. 

Aos 74 anos e aposentada, ela trabalhou a vida inteira na escala 6×1 e segue hoje em uma jornada como diarista de segunda a sábado. “Não pode parar, se não trabalhar não ganha”. 

Ao retratar como é a realidade de tantas pessoas da sua família trabalhando nesse formato, Gabriela, que tem três filhos, seis netos e seis bisnetos no mercado de trabalho, reforça muitas vezes: “essa luta é minha. Eu faço parte dessa causa”.  

Sobre a possibilidade do fim dessa escala, outra mãe, a Joyce, que é vendedora, diz que é “um sonho que irá se tornar realidade”.

“Será ótimo para termos mais qualidade de vida com nossos filhos. Com certeza essa escala de trabalho impacta a vida deles. Eles reclamam da saudade, que não paramos em casa, que só trabalhamos. Mas alguém tem que sustentá-los”, destaca a mãe, que só vê o filho de 12 anos na parte da manhã, quando faz o almoço para ele ir à escola. “Saio pra trabalhar e vejo ele somente no outro dia de manhã. É muito pouco”.

A jornada das mães vai muito além do trabalho 

Em todos os relatos, a sobreposição do trabalho com as tarefas de casa e o cuidado com os filhos aparece de maneira central. 

“É muito complicado, porque é um corre com filho para a escola e nenhum tempo, porque passamos a maior parte dentro do ônibus. A casa é só dormitório. Acordamos cedo e chegamos de noite e nem tem como acompanhar os filhos direito na escola. Não tenho tempo nenhum para o lazer, porque o único dia de folga é para lavar roupa e arrumar casa. O descanso é esperar 12 meses para tirar férias”, conta Nina, monitora escolar e mãe de um menino de seis anos.

O cotidiano narrado por Flávia é bem similar. Como repositora de loja e mãe de uma menina de quatro anos, ela afirma não ter tempo sobrando para nada, já que, ao chegar em casa nos dias de folga, é preciso colocar a casa em ordem, lavar roupa e dar atenção a filha, o que torna um dia de lazer algo quase impossível. “Para nós que somos mulheres, o serviço nunca acaba”. 

Lúcia expõe que está sempre deixando alguma coisa para depois e que o cotidiano é corrido e pesado. O trabalho afeta negativamente todas as áreas de sua vida. “É sempre um cansaço extremo, tempo curto, saúde física e mental ruim”. 

Já para Eduarda, na prática, a escolha entre descansar, arrumar a casa e resolver as questões burocráticas da vida não existe, quando se tem uma realidade como a dela, com quatro crianças pequenas para cuidar. 

Por isso, Gabriela sente que foi muito prejudicada ao longo da vida, sem ter tempo para ela mesma ou para os seus filhos. “Se preciso resolver algum problema no banco, por exemplo, tenho que sair mais cedo. Essas horas são descontadas. No fim do mês, faz falta esse dinheiro para a gente”, lamenta.

“Simplesmente não sobra tempo. Ao chegar do trabalho, eu faço janta para minha filha e meu marido, janto, tomo banho e durmo para o outro dia começar tudo denovo. Essa escala afeta completamente a minha vida. Trabalho de segunda a sábado com folga apenas no domingo. Não tenho tempo durante a semana pra marcar uma consulta, fazer um curso, e o mais importante, passar com minha filha”, concorda Laura, que trabalha em um supermercado e é mãe de uma criança de 13 anos.

Pais e mães são afetados de maneiras diferentes

É também consenso entre elas que as tarefas domésticas e de cuidado são desempenhadas de maneira desigual por homens e mulheres dentro de casa. Aquelas que são mães solo, ainda mais na falta de uma rede de apoio, têm esse cenário agravado, sendo as únicas responsáveis pelos filhos.  Essa mesma análise é partilhada por Faria e Silva.

“A preocupação com os cuidados básicos é nossa. É o trabalho doméstico, o trabalho fora e todos os detalhes para garantir que as crianças estejam limpas, alimentadas, felizes, com os materiais escolares em dia, conferir a agenda ao final do dia, não esquecer do acompanhamento médico, não esquecer nada. O cansaço ao final de cada dia se acumula.” aponta a integrante do MMM.

De acordo com Joyce, isso se deve ao fato de que o homem não tem o “hábito” de ajudar nas tarefas domésticas, deixando as mulheres ainda mais sobrecarregadas. Nina, Eduarda, Rosa, Gabriela, Laura, Lúcia e Flávia concordam com essa avaliação, mas entendem que o cenário seria abrandado se os companheiros colaborarem na dinâmica doméstica. 

Por outro lado, para Gabriela, na maior parte dos casos, os homens seguem se posicionando da mesma forma. “O homem continua sendo e se sentindo a mesma coisa e dizendo ‘não, eu trabalho, eu compro essencial, ponho dentro de casa e tá bom demais’”.

“Chega em casa, ele toma banho, ele vai assistir o que aconteceu durante o dia na TV, logo em seguida ele vai dormir. Mas a mãe não tem esse direito. A mulher tem que lavar em casa, passar, manter a higiene da casa. E quantas e quantas vezes para eu assistir um pouquinho de TV, eu punha a tábua de passar roupa na frente da TV e ia assistindo e passando a roupa, porque eu sempre gostei dos meus meninos limpinhos e ‘passadinhos’.  A mulher sofre mais” complementa. 

Prejuízos para a saúde 

Toda essa sobrecarga acaba por gerar prejuízos à saúde dessas mulheres que, como relatam de forma unânime, se sentem esgotadas física e mentalmente. Para Nina, o stress é constante e o agravante é que não há sequer tempo para fazer um acompanhamento adequado de saúde, uma vez que, as empresas nem sempre aceitam o atestado. 

“Afeta muito, fico exausta, não consigo fazer um estudo. Eu queria me dedicar para fazer um concurso público. Não lembro quando fui à igreja pela última vez. Eu sempre prometo para o meu filho que vamos sair, mas é tanta coisa que faço de conta que nem lembrei. Não consigo fazer uma atividade física, fazer a prevenção e só vou ao médico quando não estou conseguindo trabalhar mais”, relata Rosa.

Laura, assim como muitas das outras mães consultadas pela matéria, confessa se sentir cada vez mais cansada e ansiosa, não tendo uma boa qualidade de sono e sentindo dores frequentes, por trabalhar o dia todo em pé.

Gabriela explica que a saúde fica fragilizada, porque você não tem tempo para ir ao médico. “Você já deita e morre de cansada. Levanta cansada, porque não descansou o suficiente e tem que levantar de madrugada no dia seguinte”. Ela explica que hoje sente consequências de não ter conseguido se cuidar ao longo da vida. 

Outra coisa para a qual ela chama a atenção é o impedimento de levar os filhos ao médico. “Como uma mãe leva um filho ao médico no meio da semana?A gente tem que esperar ficar muito ruim para, de noite, levá-los à UPA, porque durante o dia você está no trabalho”. 

Sem tempo não há como fortalecer os vínculos 

“Mães exaustas e doentes não serão produtivas no trabalho. Muitas mães adoecem pela sobrecarga, outras entram em depressão profunda, e nunca têm tempo para se cuidar, dormir bem e se alimentar corretamente.  A falta de tempo também pode acarretar outros tipos de doenças”, destaca a integrante do movimento VAT.  

Se não sobra tempo para as emergências médicas, também não sobra para o fortalecimento dos vínculos cotidianos. Como explica Faria, os filhos também são bastante impactados pela ausência da mãe, que muitas vezes não pode ir a uma festinha de família na escola, uma reunião para pegar o boletim, além de não ter tempo para brincar, ter diálogos e levar para passear.

É exatamente isso o que aparece também nos relatos de todas as mulheres interpeladas por nós. É impossível para elas fazer um acompanhamento de perto dos filhos em casa, na escola ou na saúde. Nesse contexto, os filhos ficam a maior parte do tempo fora de casa, na creche ou com algum parente, amigo ou babá. “Nosso sonho, como mães, é ficar mais perto dos filhos e acompanhar nos deveres de escola e lazer”, afirma Nina. 

“Não consigo ter um tempo de qualidade para sair ou até mesmo ficar em casa assistindo um filme, desenho ou fazendo brincadeiras”, complementa Eduarda.

“Mexe no emocional e na estrutura da pessoa, porque a gente não cria vínculo. As nossas crianças crescem sem organização, porque não têm uma mãe para orientar a fazer tudo na hora certa. Não estamos pedindo muito, a gente não quer luxo, a gente quer o necessário. Queremos poder falar para os nossos filhos: agora é hora de tomar banho, agora é hora de escovar o dente, é hora de fazer o dever, agora você pode assistir um pouquinho de TV”, defende, na mesma linha, Gabriela. 

Um sonho possível 

A luta pela redução da jornada de trabalho, sem redução de salários, vem ganhando notoriedade e protagonismo nas ruas do país e no Congresso Nacional, desde o ano passado. A proposta de redução mais avançada na Câmara dos Deputados, agora em avaliação por uma comissão especial, pode ser votada no dia 26 de maio e segue para o plenário da Câmara Federal no dia seguinte.

No último dia 22 de abril, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados aprovou a constitucionalidade de duas Propostas de Emenda à Constituição (PECs) que tratam do tema. Quando perguntadas sobre o que fariam com um dia a mais de folga, todas as mulheres consultadas pela nossa matéria citaram o tempo de qualidade com os filhos e o descanso como prioridades. 

Para Gabriela, esse tempo a mais seria tirado para “poder sentar, conversar e conhecer mais a neta”.

“Eu iria ter tempo para me profissionalizar em outras áreas e ter a chance de ter um tempo de qualidade com quem importa, que é minha família”, afirma Laura. 

Diversas das entrevistadas por esta matéria não poderão passar o Dia das Mães com suas famílias, uma vez que estarão trabalhando. E é justamente por isso que, como defende Silva, o fim da escala 6×1 é uma necessidade. 

“O fim da escala 6×1 garantiria o mínimo de dignidade a nós, que queremos mais tempo. Para cuidar da gente mesmo, além do trabalho, casa e crianças”.

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