‘Esperança de ver o desenvolvimento da minha filha’: entre a sobrecarga e a falta de tempo, mães querem fim da escala 6×1

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Há um ano e meio, Greyce Lages Santos, de 36 anos, trabalha com logística em uma escala de 6×1, na qual sua jornada profissional compreende seis dias de trabalho e apenas um de descanso. Mãe de uma menina de 11 anos, ela precisa estar presencialmente no trabalho de segunda a sábado, dedicando aproximadamente duas horas diárias para chegar ao escritório localizado na zona oeste de São Paulo, na região de Alphaville, partindo da zona sul da capital paulista, onde reside.

Para estar mais presente na vida da filha, a rotina de Greyce é intensa. “Durante a semana, minha rotina começa bem cedo. Eu me levanto com a minha filha às 5h50 da manhã, acordo nesse horário para prepará-la para ir para a escola”, relata a mãe, que faz parte do grupo de cerca de 14 milhões de pessoas que atuam nessa modalidade de trabalho, conforme dados do governo federal.

No total, 37,2 milhões de trabalhadores, majoritariamente de baixa renda, cumprem jornadas superiores a 40 horas semanais. Além do trabalho formal, as mulheres enfrentam uma carga horária de trabalho doméstico não remunerado que atinge 21,3 horas semanais, totalizando uma média de 58,1 horas semanais. Em contraste, os homens dedicam 50,3 horas, segundo estudo do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made/USP), vinculado à FEA-USP.

Nesse cenário, conciliar a escassez de tempo, os afazeres domésticos, os cuidados com a família, a vida pessoal e os sonhos torna-se um desafio muitas vezes insustentável, como aponta Greyce. “Além de trabalhar fora e ser mãe, eu também comecei a estudar logística este ano, pois vi que era necessário. Estudar também é uma esperança de um dia poder ter algo melhor lá na frente. Então, eu aproveito esse pouco tempo para ver matérias e estudar, mas eu mal consigo fazer isso porque são realmente pouquíssimas horas que tenho pela manhã”, lamenta.

Estar presente na vida da filha e aproveitar momentos de lazer muitas vezes é um privilégio no cotidiano. “Dificilmente temos tempo livre juntas para lazer. O pouco tempo que temos juntas é aos domingos, quando quem é mãe, estuda e tem uma rotina extremamente puxada durante a semana, tem que decidir entre levantar cedo, continuar a rotina de dormir pouquíssimas horas e fazer os afazeres domésticos, ou dormir mais um pouquinho e, quando piscar, ver que o dia já acabou. É difícil conseguir sair para passear.”

Mesmo com o tempo limitado, ela busca dedicar o máximo de si para estar ao lado de quem realmente importa. “Dar atenção, carinho e criação é um malabarismo imenso”, relata. Nesse contexto, o fim da escala 6×1 representa o que ela descreve como “um pouco de esperança” de poder ter mais tempo para o que realmente importa.

Greyce Lages Santos, de 36 anos, trabalha com logística em uma escala de 6×1. | Crédito: Arquivo pessoal

“De sair para fazer um passeio sem a tristeza de pensar depois que o dia já acabou. A esperança de ter uma vida que vai além de transporte público lotado, de ver o desenvolvimento da minha filha e não só ouvir falar sobre ela. A esperança de ter uma vida, de fato, que vai além do trabalho apenas. Eu não sei se posso afirmar que isso mudaria totalmente a minha vida, mas a tornaria menos pesada e menos dolorida.”

A expectativa de uma vida menos sobrecarregada pelo trabalho remunerado e não remunerado pode se concretizar com a aprovação de projetos de lei que visam à redução da jornada de trabalho.

De autoria da deputada federal Erika Hilton (Psol-SP), a PEC 8/2025 propõe uma alteração na Constituição para diminuir a jornada para, no máximo, 36 horas semanais, com a adoção da escala 4×3. Essa proposta tem sido debatida no Congresso Nacional desde 2024, com o início das discussões promovidas pelo movimento Vida Além do Trabalho (VAT) nas redes sociais e nas ruas.

A pauta tramita em regime de urgência no Congresso, após a apresentação de um Projeto de Lei (PL) pelo Governo Federal que visa a reduzir a jornada de 44 para 40 horas semanaiscom escala 5×2 e sem redução salarial.

A maioria dos postos de trabalho utiliza a escala de 44 horas, representando 56% do total. As mulheres também predominam nos setores em que a escala 6×1 é amplamente empregada. No estado de São Paulo, por exemplo, a presença feminina nas admissões era de 50% no comércio e 54% nos serviços em 2025 (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), segundo o Observatório do Estado Social Brasileiro (2025).

Na visão da economista do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), Cristina Pereira Vieceli, grande parte das mulheres que trabalham em jornadas extensas atua em setores da indústria e comércio. Nessas categorias, em geral, não há compensações de horas, e muitas dessas trabalhadoras com jornadas longas recebem remunerações menores, o que gera uma tendência de pobreza tanto monetária quanto de tempo.

“Isso desencadeia várias questões relacionadas à saúde mental e à saúde física, porque essas pessoas não vão ter tempo de cuidar da saúde nem de se alimentar de forma saudável, considerando que não têm tempo para essas outras atividades que não são de trabalho”, afirma Vieceli.

“Sabemos que as escolas infantis públicas, primeiro, não têm a cobertura total da população, principalmente para as crianças menores de quatro anos. Segundo, quando são ofertadas pelo Estado, são em tempo parcial e não cobrem todo o tempo necessário.”

‘Perdi o Dia das Mães na escola’

Além das deficiências estruturais dos serviços públicos de cuidado infantil, muitas mulheres enfrentam a ausência de uma rede de apoio familiar. É o caso da gerente operacional Lucia dos Santos, que trabalha desde 2010 na escala 6×1 e é mãe solo. Ela relata que as extensas jornadas de trabalho resultaram em sua ausência em eventos da filha.

“Perdi muitos momentos importantes que, infelizmente, eu não vou conseguir recuperar, como Dia das Mães no colégio e festinhas de aniversário. Em muitas e muitas, eu infelizmente não estive presente, porque a escala seis por um nos escraviza no trabalho. Por trabalhar aos finais de semana, já que eu trabalho na rede de restaurante, isso me custou muitos momentos com minha filha, muitos momentos importantes que jamais conseguirei recuperar”, desabafa.

Atualmente, aos 44 anos, Lucia conta que a relação com o restante da família também está comprometida pela distância e pela falta de tempo, uma vez que ela reside em João Pessoa e seus parentes em Campina Grande.

“Moro em João Pessoa, minha família toda é de Campina Grande e raramente eu consigo ir até lá, porque no meu dia de folga, eu estou em casa resolvendo meus problemas e limpando a minha casa. Eu não tenho tempo suficiente para conciliar e viajar até outra cidade para ver minha família.”

Na rotina, os serviços domésticos consomem grande parte do seu tempo. “Faço o que dá no dia em que eu não estou muito cansada, porque tem dias em que eu estou tão sobrecarregada fisicamente e mentalmente que eu não consigo fazer nada em casa. No trabalho, passo cerca de nove a 10 horas, porque você não tem somente o horário de trabalho, você também tem o seu deslocamento de casa até o seu trabalho.”

Nessa perspectiva, Lucia enfatiza que a redução da jornada de trabalho proporcionaria mais qualidade de vida para ela, mais tempo com a filha e com a família, além de melhorar sua saúde física e mental. “Um dia eu tiraria para organizar minha casa e um eventual problema que eu tivesse que resolver, e o outro eu deixaria para ter momentos de lazer com minha família e, principalmente, com minha filha.”

A gerente operacional Lucia dos Santos trabalha desde 2010 na escala 6×1 e é mãe solo. | Crédito: Arquivo pessoal

‘Esgotadas’

Além do tempo escasso para estar com os entes queridos, as longas jornadas de trabalho causam estresse e ansiedade em metade da população feminina do Brasil, conforme o levantamento “Esgotadas”, publicado pelo Think Olga em 2023.

A pesquisa revela que a insatisfação com a vida financeira atinge 86% do público (apenas 14% estão satisfeitas), enquanto o equilíbrio entre obrigações pessoais e profissionais agrada somente 21%. O quadro de adoecimento psíquico é agravado pela jornada excessiva em casa e pela carência de suporte familiar e afetivo.

Mulheres pretas e pardas ocupam majoritariamente funções com remuneração e prestígio social inferiores, sendo que 80,7% desse grupo recebe até R$ 2.120, conforme levantamento do Observatório do Estado Social Brasileiro.

A dinâmica de inserção e progressão no mercado de trabalho resulta na concentração dessa população em atividades de serviços domésticos e de cuidados, setores em que representam cerca de 70% do contingente laboral, de acordo com dados do Ipea de 2025.

Dentro da categoria das trabalhadoras domésticas, um grupo de 1,4 milhão de mulheres cumpre jornada com apenas um dia de repouso semanal, fator que, somado ao desgaste físico, restringe as oportunidades de busca por novas conquistas acadêmicas ou técnicas.

‘Eu poderia fazer piquenique com ela’

A cobradora de ônibus, Michele Aparecida Silva Andrade, exemplifica esse cenário. Em São Paulo, ela trabalha na escala 6×1 desde à tarde até a madrugada pelas ruas da cidade, o que intensifica a dificuldade de contato com a família. “Eu quase não vejo minha filha. Ela trabalha no período da manhã, que é o horário em que eu estou dormindo. Quando ela chega do trabalho, é o horário em que eu estou terminando de fazer o almoço para a gente poder almoçar juntas e eu poder sair para trabalhar”, diz.

A jornada de 10 horas diárias, por vezes, é dobrada para conseguir uma renda extra. As folgas, segundo ela, variam de um mês para o outro. “Um mês a minha folga é no sábado. Quando dá tempo, a gente faz algo juntas: eu, ela, meu filho e meu esposo. Mas é bem complicado e difícil, porque meu marido também às vezes tem alguns bicos para fazer no dia da minha folga, então a gente acaba não se encontrando a família toda para estar junto.”

Trabalhar nesse ritmo intenso já foi motivo de horas de terapia, segundo Michele. A preocupação com a filha, que voltava da escola sozinha durante o ensino médio, desencadeou crises. “Tudo isso mexeu muito comigo. Fiquei bem chateada como mãe de não poder estar presente.”

O direito ao lazer é um aspecto lembrado por ela, caso a escala 6×1 fosse extinta, o que hoje está completamente fora de sua rotina. “Eu poderia fazer coisas como nossos pais faziam antigamente, como levar para fazer um piquenique, ir a um clube ou a uma praia. Seria melhor, porque um dia de folga não dá para ir à praia, voltar no mesmo dia e descansar para trabalhar no outro.”

Por fim, ela sonha um dia poder dedicar mais tempo a si mesma. “Poder ir a um salão de cabeleireiro, já que não tenho mais tanta vaidade como antes, poder me cuidar, ir a uma clínica relaxar, fazer uma massagem, fazer meu cabelo e minhas unhas. Não tenho feito essas coisas por conta do tempo que não sobra.”

A economista do Dieese destaca os benefícios da redução da escala de trabalho. “Os empregadores teriam o ensejo de empregar maior número de pessoas e isso faria com que se reduzisse tanto o desemprego como também a informalidade, que permanece alta no Brasil, apesar de ter reduzido.”

Por consequência, ela avalia que haveria outras vantagens para a economia brasileira. “O aumento, inclusive, da arrecadação previdenciária com o aumento da formalização e maior número de pessoas inseridas no mercado de trabalho. Assim como o aumento da produtividade gerada pelas novas tecnologias.”

Votação de parecer prevista para dia 26

Após o aval da CCJ, a PEC segue para uma comissão especial, em que o mérito será discutido. Conforme definido pelo presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), as propostas de Erika Hilton e do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), que solicitam a redução gradual da jornada semanal ao longo de dez anos, devem tramitar em conjunto.

Em seguida, a pauta avança para a discussão no plenário, onde são necessários 308 votos em dois turnos para seguir ao Senado. Lá, o processo deve ser repetido, e se não houverem alterações na proposta, ela será encaminhada para a sanção do presidente Lula (PT).

O relator da proposta para reduzir a jornada de trabalho, deputado Léo Prates (Republicanos-BA), apresentou nesta terça-feira (5) um plano de trabalho que prevê a votação do parecer sobre o fim da escala 6×1 na comissão especial da Câmara no dia 26 de maio.

*Colaborou Rodrigo Gomes.

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