Mães solo no Brasil superam tamanho da população de Portugal

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País ultrapassou marca de 11 milhões de mães que criam filhos sozinhas. Entre 2012 e 2022, cifra passou de 9,6 milhões a 11,3 milhões. Elas sofrem estigmatização, limites financeiros e falta de políticas públicas.

Acordar às 6h, preparar o café da manhã, arrumar a filha, caminhar por cinco quarteirões para deixar a menina na escola e já partir para mais um dia de trabalho. Ao final do expediente, por volta das 16h, passar na escola, pegar a filha e retornar para casa onde a rotina ainda inclui fazer o jantar, lavar a louça, a roupa e os demais afazeres que uma criança de 6 anos demanda. Há 4 anos essa é a rotina da faxineira Lucimara Dias Castro, de 35 anos, moradora de São José do Rio Preto (SP), que cria sozinha a filha.

Lucimara chegou a morar junto com o pai da menina, mas quando o relacionamento acabou ela ficou com a guarda unilateral da filha, assumindo tudo – desde os cuidados diários, educação e até mesmo a questão financeira.

“Quando me separei, o pai dela mudou de cidade, e não tivemos mais contato. Como ele não liga para ela, tento ao máximo não deixar minha filha sentir essa ausência. Independentemente de como eu estou, eu faço de tudo para que ela esteja bem e não falte nada”, diz.

Mais de 11 milhões criam os filhos sozinhas

Mulheres como a Lucimara, que assumem sozinhas os cuidados e gastos dos filhos, são comuns no Brasil. Dados do último levantamento feito pelo Instituto Brasileiro de Economia aponta que o país ultrapassou a marca de 11 milhões de mães que criam os filhos sozinhas. Apenas entre 2012 e 2022, foram 1,7 milhão de novas mães solo, passando de 9,6 milhões para 11,3 milhões.

Além disso, a maior parte das mães solo (72,4%) vive em domicílios monoparentais, sendo compostos apenas por elas e os filhos, ou seja, não moram com familiares que poderiam ajudar nas responsabilidades ou afazeres diários, deixando ainda mais evidente a sobrecarga que essas mulheres carregam.

Dados complementares mostram que 15% dos lares brasileiros são chefiados por mães solo, e a maioria dessas mulheres que criam os filhos sozinhas são negras.

“Filho é responsabilidade 50% do pai e 50% da mãe, quando um não faz, o outro automaticamente precisa fazer e fica sobrecarregado”, diz a especialista comercial Adriane Rodrigues, de 45 anos, e mãe solo de dois meninos: Pedro, de 19 anos e Enzo, de 5.

Com filhos com idades bastante diferentes, ela viveu dois períodos como mãe solo. Primeiro do filho mais velho, quando ela se divorciou e passou a assumir a criação total do menino, incluindo a parte financeira e depois com o filho mais novo, que ela cria sozinha desde quando ele tinha 10 meses.

“Hoje o Pedro, por já ser jovem, me ajuda bastante com os cuidados com o irmão mais novo e também tenho minha mãe que, apesar de não morar muito perto, é alguém com quem eu posso contar. Mas por duas vezes eu precisei me reinventar e ser resiliente. Costumo dizer que mãe solo não tem tempo de chorar, é preciso sempre seguir, porque meus filhos dependem de mim”, acrescenta Adriane.

Sobrecarga

O termo “solo” não se refere apenas a estar sem companheiro, mas abrange a totalidade das responsabilidades que recaem exclusivamente sobre os ombros da mãe. A maternidade por si só já traz consigo uma série de novas obrigações para as mulheres. No caso das mães solo, essas responsabilidades são intensificadas pela falta de compartilhamento, o que gera grande sobrecarga.

E é exatamente essa sobrecarga, que Iara Pereira de Andrade, 46 anos, considera a parte mais desafiadora no cuidado com as filhas. Mãe solo, ela mora com duas das três filhas, sendo uma de 16 anos e outra de 11. Sem o auxílio do genitor, ela se desdobra para conciliar trabalho, casa e educação das filhas.

“Se fica doente é você quem cuida, quem levanta à noite para medicar e leva ao médico quando precisa. É você que acompanha os estudos e se ela está se alimentando direito. Então, a maior dificuldade é essa carga da responsabilidade. Eu sei que mesmo numa família padrão, a mãe acaba ficando com a carga maior de cuidar dos filhos, mas quando você tem com quem dividir, não fica tão pesado. E o dividir não é só a parte do acompanhamento, tem a parte financeira também”, comenta Iara.

Limitações e pressão social

Além da responsabilidade de cuidado e financeira, as mães solo acumulam funções domésticas, o que limita o tempo disponível para o lazer e qualificação profissional.

Outra questão ainda muito enfrentada por essas mulheres é a pressão social, que existe até hoje. Ser mãe solo ainda é estigmatizado e pode levar a julgamentos. Nesse cenário, o apoio emocional muitas vezes é limitado, fazendo com que, além de toda a sobrecarga, essas mães se sintam solitárias e desamparadas.

“Quando me separei, uma amiga, casada, me contou que o marido havia falado que não achava ‘legal’ ela continuar a amizade, uma vez que eu estava solteira. Então, parece que você fica com carimbo. Infelizmente a sociedade traz esse pensamento machista”, completa Iara.

Na busca por emprego, currículo é posto de lado

“Com quem seus filhos vão ficar enquanto você trabalha?” A pergunta costuma ser feita com frequência às mulheres, mães, que buscam recolocação no mercado de trabalho ou disputam um novo cargo. O peso do questionamento fica ainda maior se a mulher é mãe solo. Nesse cenário, outras perguntas costumam surgir por parte dos recrutadores, como “quando a criança fica doente, quem cuida?”, “e o genitor”?

Buscando por recolocação no mercado de trabalho, Iara diz que enfrenta essas perguntas com frequência. Mesmo tendo formação e 15 anos de experiência como secretária executiva, muitas vezes o currículo é deixado de lado e o questionamento sobre os filhos se torna o assunto principal nas entrevistas de emprego.

“Durante um processo seletivo, a pessoa me perguntou quem levaria minha filha ao médico, já que sou divorciada. Na hora eu fiquei impactada, eu não esperava esse tipo de questionamento, até porque eu quero me dedicar ao trabalho, quero ser reconhecida e valorizada pelo que sei fazer. Mas quando você pensa que vai ter que escolher entre o trabalho e o seu filho, é uma questão muito delicada”, diz Iara.

Desigualdade de gênero, raça e renda

E essa questão vai muito além. A pesquisadora Mariene Ramos, que é mãe solo, estudou o mercado de trabalho das mães solo no Brasil em seu mestrado em políticas públicas no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e aponta que essas mulheres enfrentam uma combinação de desigualdades de gênero, raça e renda.

O estudo foi feito a partir de dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua do IBGE, de 2022, e mostrou que mães solo apresentaram o menor rendimento médio entre os arranjos familiares, com salário médio de R$2.322. O valor é cerca de 40% menor do que o de pais com cônjuge (R$3.869) e 11,5% menor que o das mães que vivem com parceiros (R$2.625).

Além disso, 21,9% das mães solo trabalham como empregadas domésticas, número superior ao de mães com cônjuge (11,8%) e quase 27 vezes maior que ao de pais acompanhados (0,8%). Vale lembrar que, diferentemente de mães solo, pessoas com cônjuge contam ainda com o rendimento do parceiro para compor a renda familiar.

A pesquisa também apontou que 60% das mães que cuidam sozinhas dos seus lares são negras. Além disso, quase 15% das famílias brasileiras são lideradas por mães solo, com maior concentração nas regiões Norte e Nordeste.

“Historicamente a profissão de doméstica é desvalorizada, e vemos que as mães solos são a maioria. Essa pesquisa foi justamente para traçar o perfil dessas mulheres e mostrar que grande parte vive em situação de vulnerabilidade, e precisamos quebrar esse ciclo”, diz a pesquisadora.

Falta de políticas públicas específicas

A falta de políticas públicas específicas agrava a situação. A pesquisadora destaca que a ausência de creches acessíveis e de programas de transferência de renda adequados limita a autonomia dessas mulheres.

“São mais de 11 milhões de mães solo no Brasil, esse número é maior do que a da população de Portugal, por exemplo. O Brasil tem um país de mães solo, e precisamos olhar para elas”, diz Mariene. A população de Portugal segundo dados do país é de 10,8 milhões de pessoas.

Para a pesquisadora, faltam projetos voltados à essas mulheres para que elas possam se desenvolver profissionalmente e ter maior autonomia.

“O Estado precisa dar autonomia para essa mãe, como oferecer creches e escolas de qualidade e em tempo integral para que elas consigam trabalhar. E também ter projetos para qualificar essas mulheres, para que elas consigam ter melhores condições de emprego. Assim elas poderão melhorar a própria vida e dar mais qualidade de vida aos filhos, quebrando esse ciclo”, acrescenta a pesquisadora.

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