Na comunidade Argola e Tambor, zona rural de São Luís (MA), a prática da permacultura ganha os quintais produtivos de mulheres que garantem autonomia econômica e sustentabilidade por meio do beneficiamento de frutos da Amazônia.
A Casa de Elena, empreendimento da economia solidária, surge a partir da organização coletiva da Marcha Mundial das Mulheres no território e desenvolve um trabalho que coloca a vida no centro das relações sociais.
O projeto busca reorganizar a economia a partir das relações interpessoais e das mulheres com a natureza; por isso, as produtoras da Casa de Elena reorganizam a economia para que ela esteja centrada na vida e no bem-estar das pessoas, garantindo a sustentabilidade da vida humana e do meio ambiente.
O protagonismo das mulheres da Amazônia na economia solidária é uma ferramenta estratégica para que a autonomia econômica, o acesso à terra, às sementes, à água e a outros recursos necessários para a produção e comercialização de seus trabalhos sejam assegurados.

No quintal produtivo de Elena Viégas, as frutas nativas dão origem a uma variedade de produtos artesanais, tais como pães, bolos, doces e geleias, carro-chefe do empreendimento com marca registrada “Casa de Elena”.
“A gente queria que o sítio sobrevivesse do que ele produz, e juntando as técnicas da permacultura foi sensacional, porque a gente conseguiu trazer uma coisa gostosa, trazer as pessoas para a nossa mesa, levar nossos produtos para a mesa das pessoas e, com isso, gerar renda, não só para a Casa de Elena, mas também para os produtores rurais, para as pessoas que nos ajudam, a comunidade começa a participar”, explica a idealizadora do projeto, Elena Viégas.
De mãe para filhas, o cuidado ao tocar cada erva e o orgulho ao apresentar cada fruto são passados também para o restante da família e vizinhos, que cultivam e trocam produtos entre si, garantindo que a remessa de produtos seja oferecida a partir do ciclo natural de cada fruto.
“Na monocultura você tem só um produto. Se planto mandioca, vai ter mandioca o ano inteiro, mas, quando uso as técnicas de permacultura, tenho vários produtos. Então, se um morre, se dá uma doença, se não gosta de chuva ou de sol, ainda assim vou ter algo sempre. Por isso, permacultura quer dizer que vou ter alimentos permanentemente”, destaca Elena.

Aos 76 anos, a mãe de Elena, dona Margarida Alves, também tem um quintal produtivo e é uma das principais ajudantes no processo.
“Eu tiro muita polpa de manga, polpa de acerola, eu ensaco tudo bonitinho, congelando, para não faltar. Tudo natural. É tudo natural o que fazemos aqui. Eu pego pimenta, pego goiaba, faço as polpas. É muito gratificante porque a gente consegue fazer isso e a gente não coloca nada com veneno para as pessoas; a gente sabe que as pessoas estão comendo o que é bom, o que é natural”, garante a aposentada Margarida Alves.
No espaço, as mulheres da família também oferecem oficinas e cursos que vão desde o ato de plantar até o beneficiamento.
“Encontramos a sobrevivência no próprio solo. Quando a pessoa tem amor à terra, onde você pode plantar uma vinagreira, um quiabo, um chuchu, uma pimenta de cheiro, coisas que dá para ter uma rentabilidade para você ou, se não quiser rentabilidade, mas tem o sustento”, explica a irmã de Elena, Eliane Alves, que também aderiu ao quintal produtivo e garante renda a partir do projeto.
O projeto Casa de Elena já tem ganhado o Brasil e a marca foi um dos destaques dos produtos do “Espaço da Biodiversidade – Produtos Sustentáveis do Brasil”, localizado na Zona Verde (Green Zone), durante a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), em Belém (PA).

Elena garante que o projeto pretende ir muito além da produção de geleias: o objetivo é garantir autonomia às mulheres e sustentabilidade na Amazônia por meio do paladar e sem uso de agrotóxicos.
“Nossas geleias não têm corante artificial, não têm veneno, é tudo feito da própria fruta. Quando as pessoas sabem que você tem um produto que é feito de verdade, com coisas de verdade, que hoje você não encontra mais comida de verdade, elas se apaixonam, porque sabem que estão comendo não só algo gostoso, mas também saudável”, declara com orgulho a empreendedora familiar Elena.

