Violência policial nas universidades é parte das ações da extrema direita: a USP deve interrompê-la

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A extrema direita associada ao governo Trump e os segmentos empresariais que manejam fundos patrimoniais estão atuando violentamente contra as principais universidades estadunidenses. A extrema direita exigiu o uso da violência policial e a punição de estudantes que protestavam contra o genocídio na Palestina, em acampamentos em 2024. Não foram poucas as universidades estadunidenses, por meio de suas reitorias, que cederam à exigência de acionar a força policial, mas, nem assim, a ofensiva neofascista foi interrompida. Naquele contexto, a metade dos reitores da Ivy League se viu forçada a renunciar a seus cargos por pressão da extrema direita e de investidores, confirmando que as concessões às forças que se voltam contra a autonomia universitária nunca serão suficientes. Escritórios de ações afirmativas foram fechados, listas de docentes a serem vigiados foram elaboradas pelas próprias instituições e até o ensino de Platão foi proibido em uma universidade no Texas. Não há limites.

Ver as imagens da polícia no campus da USP na madrugada do dia 10 de maio de 2026, usando da violência contra os estudantes, merece profunda reflexão sobre a opção do uso da violência do Estado em pleno ambiente universitário. A ação policial foi demandada de modo desprovido de legalidade (não havia reintegração de posse determinada), foi realizada de madrugada sem qualquer mediação e, como é próprio da linha política do governador do estado, fez uso brutal da violência e de prisões arbitrárias, como é possível depreender dos vídeos do Diretório Central de Estudantes (DCE). A adoção de práticas que caracterizam o uso do aparato policial pelo governo Tarcísio é um sinal de perigo para o futuro da democratização do país.

É preciso recusar a banalização dos valores anti-universitários que ameaçam as universidades em todo mundo. A reivindicação de melhorias na assistência estudantil é legítima e é um direito constitucional. Uma instituição universitária tão relevante para a ciência, a tecnologia, a arte e a cultura como a USP deveria celebrar (e se emocionar com) a mobilização coletiva de seus estudantes em prol da permanência dos segmentos mais explorados da sociedade e, por isso, deveria ser exemplar no método democrático de resolver conflitos, em um mundo no qual o espectro das guerras e de expressões fascistas recai sobre toda a humanidade. Uma das maiores mazelas do capitalismo de hoje é a produção sistemática do individualismo, da aversão ao estudo sistemático e do irracionalismo. Estudantes lutando para assegurar sua permanência na universidade são um bom sinal!

Sempre é possível debater métodos, pautas e as ásperas realidades orçamentárias. Debate e negociação não se coadunam com o uso da força do aparato policial no espaço universitário. A instituição universitária sempre é política, projeta cenários de futuro que exigem coragem, rigor e compromisso ético-político e, por isso, é um espaço permanente de aprendizados democráticos.

Logo após a revolução alemã, no pós 1ª Guerra, um conselho estudantil da universidade reteve alguns professores e o reitor e promulgou novos regulamentos universitários em Berlim. Einstein, como socialista de renome, foi convidado a negociar com os estudantes para tentar liberar os acadêmicos. Em meio aos duros embates e contra a avaliação de muitos de seus colegas, Einstein recusou o uso da força policial e logrou abertura de diálogo com os estudantes!

Que as mais profundas convicções democráticas da USP interrompam a escalada de violência. Que as ideias de seus grandes mestres e lutadores como Florestan Fernandes, Antônio Candido, Carolina Bori, Milton Santos, Lisete Arelaro, Mário Schenberg, Alexandre Vannucchi Leme, entre tantos que pensaram o porvir da USP com generosidade, possam inspirar a instituição a agir rapidamente em prol do restabelecimento da autonomia e da concepção democrática de comunidade universitária. Que as negociações sejam retomadas em um ambiente de legitimação do autogoverno da instituição e de busca real de soluções para a assistência estudantil, gestos cruciais para que a comunidade logre coesão necessária para que essa preciosa instituição possa seguir engajada na superação dos grandes desafios da humanidade.

*Roberto Leher é biólogo, pedagogo, professor e ex-reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

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