A crise estrutural do capitalismo é atravessada por diferentes dimensões — energética, ambiental, sanitária, geopolítica e civilizatória —, que impactam diretamente os territórios populares, exigindo como resposta a construção de soberanias em cada área. A análise foi apresentada por movimentos sociais populares durante o 4º Encontro Nacional do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), em Brasília.
Nesta segunda-feira (11), o Centro Comunitário Athos Bulcão, da Universidade de Brasília (UnB), recebeu a mesa de conjuntura O Mundo em Disputa: Desafios e Caminhos da Classe Trabalhadora. O debate reuniu lideranças do campo e da cidade para analisar as crises globais, a reorganização da extrema direita e os desafios da classe trabalhadora diante do atual cenário político e econômico.
“O capitalismo vive uma crise e, na nossa leitura, ela está deslocada em cinco crises fundamentais que nos desafiam cotidianamente: energética, ambiental, sanitária, geopolítica e civilizatória”, afirmou o dirigente nacional do MPA, Anderson Amaro.
Segundo Amaro, a corrida internacional por minerais estratégicos intensificou a pressão sobre áreas camponesas, indígenas e quilombolas. O Brasil abriga a segunda maior reserva de terras raras e a sexta maior de lítio do mundo, segundo o Ministério de Minas e Energia.
“Essa disputa se dá através do minério, das terras raras, das riquezas naturais que estão nos territórios camponeses, dos povos indígenas e dos povos quilombolas”, disse.
Para o dirigente, somente a agricultura camponesa e a agroecologia são alternativas concretas diante do modelo de exploração do agronegócio. “A única alternativa frente a isso é a agricultura camponesa e a agroecologia. Contra o sistema alimentar dominante exportador, nós propomos sistemas resilientes”, defendeu.
Amaro também alertou para os impactos da chamada “crise civilizatória” nos territórios populares, marcada pelo aumento da violência, do adoecimento mental e da desinformação digital. Segundo ele, o avanço das fake news e dos ataques cibernéticos aprofunda o isolamento e a fragmentação social nas comunidades.
Geopolítica e avanço da extrema direita
A análise geopolítica foi aprofundada por Jaime Amorim, dirigente histórico do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e representante da Via Campesina Internacional. Para ele, os Estados Unidos vivem um processo de perda de hegemonia global, ainda que mantenham forte influência econômica e militar.
“Quando dizemos que há um império em decadência, não quer dizer que eles estão derrotados. Eles ainda permanecem com muita força, mas há sinais de que chegaram ao máximo na história de disputa hegemônica internacional”, afirmou.
Segundo Amorim, a reorganização mundial após a pandemia consolidou uma nova disputa entre o bloco liderado pelos Estados Unidos e outro formado por China e Rússia. Ele avaliou que momentos de declínio imperial costumam resultar em maior agressividade política e econômica sobre os países periféricos, especialmente na América Latina.
O dirigente também criticou a estrutura burocrática do Estado brasileiro, que, segundo ele, dificulta a chegada de políticas públicas à população. “O Estado brasileiro é um estado conservador. A burocracia impede que as políticas cheguem à maioria da população, e o governo não conseguiu resolver isso”, declarou.
Como proposta para fortalecer a agricultura camponesa, Amorim defendeu a retomada de políticas públicas de abastecimento e estoques de alimentos. “Estoque de alimentos é soberania nacional. Eles não querem que tenhamos um programa público de estoque porque sabem que o Brasil tem que estar submisso a eles”, afirmou.
Amorim também defendeu políticas de crédito, infraestrutura e mecanização para garantir a permanência da juventude no campo. “Cada família camponesa desse país tem que ter uma mecanização para garantir a juventude no campo. Isso não é propaganda, é crédito e financiamento”, disse.
A coordenadora nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), Ana Paula Perles, relacionou o avanço da extrema direita no Brasil às transformações políticas iniciadas em 2013. Segundo ela, setores conservadores conseguiram transformar a insatisfação social em um projeto baseado no individualismo e no enfraquecimento da organização coletiva.
“2013 foi importante para abrir a porta do inferno do surgimento da extrema direita, que conseguiu organizar um roteiro de investimento na sociedade baseado no individualismo”, afirmou.

Ana Paula apontou que o discurso do empreendedorismo foi utilizado para enfraquecer direitos trabalhistas e fragmentar a organização coletiva. “Eles começaram a falar mal da CLT e o que virou a contraposição disso foi o surgimento do empreendedorismo. Isso convence o jovem de que o bom é ser trabalhador por conta própria, mas é um trabalho que você faz sozinho, não é coletivo”, explicou.
A dirigente também criticou a utilização política de espaços religiosos por grupos conservadores. Segundo ela, parte das igrejas passou a atuar como instrumento de disseminação do ódio e de ataques às políticas públicas voltadas à população pobre.
Disputa digital e poder popular
No debate sobre comunicação, as lideranças defenderam a necessidade de ampliação da presença dos movimentos populares nas redes sociais e na disputa da narrativa política no ambiente digital.
“Não adianta mais a gente só ficar no território batendo cabeça. A gente precisa disputar as redes. É o pé no barro e o celular na mão”, afirmou Ana Paula.
A avaliação foi reforçada por Anderson Amaro, que definiu o atual cenário como uma “guerra invisível” marcada por sabotagens, fake news e ataques cibernéticos. “Vivemos uma guerra invisível de sabotagem, de fake news e de ataque cibernético. A tecnologia artificial corrobora para avançar essas crises e chegar aos nossos territórios com mais rapidez”, disse.
Ao longo do debate, os movimentos também defenderam medidas para fortalecer a soberania alimentar e ampliar a participação popular nas decisões políticas.
Ana Paula afirmou que os movimentos populares precisam defender a “radicalização completa da democracia” e adotar propostas mais ousadas de investimento público nas periferias urbanas e comunidades camponesas. “Está na hora de ser mais ousado e colocar o dinheiro das reservas internacionais na favela e nas comunidades camponesas”, argumentou.
Ao encerrar a mesa, Anderson Amaro reafirmou que a saída para a crise passa pela construção de soberanias alimentar, territorial, hídrica, energética, além do fortalecimento das organizações populares de base. “O povo só terá vez e voz se a gente construir isso a partir da nossa comunidade e consolidar esse poder que vai nascer da nossa base”, concluiu.
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