Estudantes da Universidade de São Paulo (USP), Universidade Estadual Paulista (Unesp) e Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) realizaram uma mobilização na região central da capital paulista nesta segunda-feira (11). O protesto é parte do movimento de greve que já dura três semanas.
O grupo de cerca de cinco mil estudantes e apoiadores reuniu-se inicialmente na Praça da República para protestar contra medidas do governo estadual e reduções em orçamentos destinados às instituições de ensino superior e a violência policial que aconteceu no último domingo na reitoria da USP.
De acordo com Livia Ventura, diretora de combate ao racismo da União Nacional dos Estudantes (UNE) e aluna da PUC-SP, o cronograma original do movimento previa a realização de uma reunião com a administração da Unesp.
“A ideia era que acontecesse uma reunião no prédio da reitoria da Unesp”, porém a atividade não ocorreu devido a uma decisão institucional de suspensão do encontro. “A reunião foi cancelada, inclusive pela própria reitoria”, contou.
Durante as primeiras horas da mobilização, os participantes permaneceram parados. Segundo Ventura, a organização previa que o evento ocorresse sem deslocamentos e de forma pacífica. “Era um ato pacífico, até o momento era para ser um ato parado também e ser só de saudações, as lideranças fazendo falas e as entidades estudantis”.
Por volta das 14h30, os vereadores Rubinho Nunes e Adrilles Jorge, ambos do União Brasil, deliberadamente agressivos, acessaram a área onde os manifestantes se concentravam, o que acabou provocando empurra-empurra, ameaças de socos e discussões verbais. Nesse momento, a Polícia Militar soltou gás lacrimogênio entre os manifestantes.
Nas redes sociais, a equipe de Adrilles fez imagens dos alunos, enquanto ele questiona a motivação da mobilização. “O povo paga para você estudar. Você acha normal um estudante fazer greve?”, disse. Os estudantes gritavam: “Recua, fascista, recua”.
O vereador Rubinho Nunes também divulgou imagens discutindo com os estudantes. Após o bate-boca, Adrilles alegou que foi até o protesto “explicar a estudantes que estudante não faz greve, que estudante de universidade pública é custeado, pago com dinheiro das pessoas”.
“Uma multidão de estudantes manifestantes tentou me espancar e a toda minha equipe. Esta é a verdadeira face desses estudantes: a face do crime. Manifestantes violentos, agressivos, criminosos, usando máscaras para não ser identificados a apoteose do crime está tentando ocupar as universidades públicas da nação”, disse o vereador no X.
Ruas bloqueadas
Em resposta à dispersão de gases, os manifestantes efetuaram o bloqueio das vias públicas adjacentes, o que causou a interrupção da circulação de veículos de transporte coletivo. A diretora da UNE explicou que a rua foi ocupada. “Os ônibus não passaram e nós ocupamos a rua”, mantendo os discursos das lideranças estudantis durante a ocupação da via.
O grupo iniciou um deslocamento para a Rua da Consolação em direção a outros pontos da região central. No trajeto de subida da via, Livia disse que não teve interferência policial e acrescentou que, embora o efeito dos gases tenha atingido os presentes, não teve violência física ou agressão por parte da polícia naquela etapa específica do movimento.
Ao avaliar a repressão policial e a dificuldade de diálogo com as universidades, Livia Ventura declarou que esses foram motivos de intensificação da mobilização dos alunos. “Esse momento de repressão só deixou o ato ainda mais potente do que já estava. Os estudantes não vão abaixar a cabeça, o movimento estudantil segue firme, segue pulsante, e o Tarcísio vai ter que prestar contas”.
Os estudantes da USP pedem o pagamento imediato do Auxílio Moradia e Auxílio Alimentação, o reajuste dos valores dos auxílios de acordo com o custo de vida local e a ampliação do número de bolsas oferecidas.
Também exigem melhorias na infraestrutura: reforma urgente das salas de aula, laboratórios e banheiros, manutenção dos aparelhos de ar-condicionado, melhoria na iluminação e segurança do campus e construção/finalização do restaurante universitário (RU).
Com relação ao corpo docente e administrativo, os alunos querem a realização de novos concursos públicos para professores e técnicos e a contratação imediata de professores substitutos para suprir a falta de aulas em diversas disciplinas. Bem como a melhoria do acervo das bibliotecas e a garantia de insumos para as aulas práticas e laboratórios.
Solicitam também a adequação de políticas de permanência, com a transparência no uso dos recursos destinados ao campus de Sinop e a participação estudantil efetiva nas decisões orçamentárias da universidade.
A Polícia Militar de São Paulo realizou a reintegração de posse da reitoria da USP na madrugada de domingo (10), ocupada pelos estudantes desde a última quinta-feira (7). Em nota publicada pelo Diretório Central dos Estudantes da universidade, o DCE acusou a PM de agir de forma truculenta, formar um “corredor polonês” para violentar os manifestantes, além do uso de cassetetes e gás lacrimogêneo. Quatro estudantes foram encaminhados à 7ª Delegacia de Polícia, mas já foram liberados na manhã de ontem.
Segundo os estudantes, a decisão de ocupar a reitoria ocorreu após o reitor, Aluísio Segurado, encerrar as negociações de forma unilateral. Em entrevista ao Jornal da USP, o reitor afirmou que sua gestão na USP tem apenas 100 dias e que as demandas dos estudantes foram debatidas exaustivamente pela reitoria e divididas em três grupos. Segundo ele, há demandas acatadas, outras em fase de estudos e um terceiro grupo de demandas recusadas. Entre as medidas em estudo estão melhorias na moradia estudantil.
Ó Brasil de Fato tentou contato com os vereadores Rubinho Nunes e Adrilles Jorge e aguarda retorno.
A Secretaria da Segurança Pública (SSP) informou por meio de nota que “a Polícia Militar foi acionada na tarde desta segunda-feira (11) para atender a uma ocorrência de manifestação na Praça da República, na região central da capital paulista”. De acordo com as informações, “houve uma briga generalizada no local. A confusão foi contida pela PM. Não há informação sobre feridos. Neste momento, a manifestação segue pacífica”, disse a SSP.

