O ativista brasileiro Thiago Ávila retornou ao Brasil nesta segunda-feira (11), após ser mantido preso em Israel por dez dias. O defensor da causa palestina foi sequestrado pelas forças armadas israelenses no dia 30 de abril, quando participava de uma nova missão da Global Sumud Flotilha, que tentava levar ajuda humanitária à Faixa de Gaza.
Ávila chegou por volta das 17h30 em Guarulhos, onde fez escala antes de tomar outro voo para Brasília. Está programada uma recepção ao ativista no aeroporto por organizações que defendem a luta pela causa palestina, além de uma coletiva para a imprensa presente no local.
No entanto, o ativista acabou sendo retido pela Polícia Federal (PF) para um interrogatório, segundo informação entregue pelas organizações presentes no aeroporto. O depoimento teria terminado por volta das 18h30, quando chegou a notícia de que ele finalmente teria sido liberado.
Questionamentos ao governo brasileiro
Estavam no aeroporto, esperando a chegada de Thiago Ávila, alguns participantes da mais recente edição da Flotilha, que foram libertados antes por Israel e puderam voltar ao Brasil na semana passada.
Uma dessas pessoas era Mandi Coelho, militante do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU), integrante da Liga Internacional dos Trabalhadores e pré-candidata ao cargo de deputada federal por São Paulo. A Opera Mundi, ela afirmou ter participado de uma reunião no Itamaraty sobre a situação de Thiago.
“Depois disso teve o tuíte do Lula, o próprio apoio dado à esposa do Thiago, todo dia ela recebe aconselhamento consular, atendimento consular”, ressaltou a ativista.
No entanto, a Mandi também relata que perguntou, na mesma reunião, “se é possível a gente começar a caminhar no sentido de romper relações (com Israel), ou seja, ações mais contundentes, inclusive para trazer o Thiago de volta. Não ficar só no âmbito do discurso, mas aplicar sanções, reciprocidade, expulsar embaixadores, que outras medidas nós podemos fazer mais concretas”.
“O governo afirma que está fazendo tudo o que pode, que não é possível implementar essas medidas, não explica exatamente o porquê, mas, no meu entendimento, isso tem a ver com a cumplicidade internacional que a gente vê há 78 anos, não é uma novidade”, questiona.
Mandi mencionou as relações comerciais e acadêmicas, afirmando que “o Brasil envia petróleo, envia aço, exporta armas” e mantém convênios entre universidades brasileiras e israelenses.
Por fim, ao tratar da situação da Flotilha e dos ativistas envolvidos, a ativista afirmou que parte das embarcações teria sido interceptada e os participantes detidos. “A gente foi sequestrado, 22 barcos foram interceptados”, disse, acrescentando que outras embarcações teriam seguido viagem.
“A Flotilha segue hoje. A missão ainda está acontecendo”, afirmou, destacando que os participantes estariam articulando os próximos passos da iniciativa e defendendo a continuidade da mobilização internacional.
Cumplicidade do governo grego
Outro ativista que estava esperando por Thiago em Guarulhos foi Leandro Lanfredi, membro do Sindicato dos Petroleiros do Rio de Janeiro (SindPetro-RJ), entidade por meio da qual participa ativamente da campanha para que o petróleo brasileiro não seja enviado direta ou indiretamente a Israel, “e que não sirva ao genocídio do povo palestino”, segundo o ativista.
Lanfredi conta que foi um dos tripulantes do Lapinha, um dos 22 navios que foram atacados por Israel perto do litoral da Grécia, no dia 30 de abril, dos quais 21 foram sequestrados — incluindo o que ele viajava.
“Um dos navios foi totalmente destruído por Israel. Eu estava no Lapinha, que foi sequestrado. Não sei o que aconteceu com o barco depois que nós desembarcamos em Creta”, relata.
O ativista conta que sua experiência na missão que tentava levar ajuda humanitária à Faixa de Gaza, “foi uma situação desumana, mas, claro, muito inferior à barbaridade que essa entidade racista reserva ao povo palestino, o que nós sofremos foi só uma fração do que as pessoas em Gaza sofrem”.
Segundo o petroleiro, o sequestro do barco e a prisão dos seus tripulantes “só foram possíveis graças à conivência da União Europeia e do governo da Grécia”, e essa cumplicidade também teria acontecido no tratamento diferenciado dado aos casos de Thiago Ávila e Saif Abu Kesher.
“Nada foi feito pelo governo grego a respeito dos abusos ao Thiago e ao Sair e a todos os demais tripulantes. Ao contrário, toda essa tortura a qual eles foram submetidos foi permitida, e somente com as mobilizações, nós conseguimos que isso fosse interrompido, e eles fossem libertados. Mas a nossa luta segue para libertar cada um dos nove mil palestinos que são reféns nesse estado terrorista e também pela ruptura das relações comerciais e diplomáticas que o Brasil tem com essa entidade racista (Israel)”, acrescentou Lanfredi.
O militante do SindPetro-RJ questionou a ajuda dada pela diplomacia brasileira aos ativistas do país que foram sequestrados pelo governo de Israel. “Tivemos zero contato com o Itamaraty. Conseguimos, através do governo turco, ligar para o cônsul, para o embaixador brasileiro e criticar (a situação). Ele prometeu que seríamos melhor atendidos em Istambul e lá o vice-cônsul nos recebeu. Pudemos utilizar o telefone pela primeira vez, mas o apoio do governo brasileiro se limitou a nos receber e saber se estávamos bem de saúde”, recordou.

