Saberes da Caatinga: há uma década encontro apoia da cura ancestral ao patrimônio ambiental da Chapada do Araripe

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Na Chapada do Araripe, território de nascentes, fósseis e uma das maiores biodiversidades do semiárido, mestres e mestras de saberes tradicionais se reúnem há dez anos para afirmar conhecimentos ancestrais e fortalecer práticas coletivas de cuidado com a vida. Realizado anualmente em Exu, no sertão pernambucano, o Encontro de Saberes da Caatinga reúne raizeiros, parteiras, benzedeiras, rezadores, terapeutas populares e mestres da cultura popular em uma programação marcada por rodas, oficinas, tratamentos e trocas de experiências.

Ao longo de uma década, o espaço se consolidou também no fortalecimento de identidades historicamente perseguidas e da defesa ambiental da Chapada do Araripe — região conhecida como “caixa d’água do Sertão” e hoje ameaçada pelo avanço de monoculturas e grandes empreendimentos agrícolas. Preservando uma natureza autônoma, o Encontro segue se expandindo ano a ano, com a participação de até mil pessoas inscritas por edição, em uma programação de uma semana, na área rural do município.

Ao Brasil de Fato, o raizeiro Antonio Alencar relembra a origem histórica do Encontro, inspirada nas articulações de raizeiros, curandeiros e parteiras realizadas no Recife nos anos 1980. Ao longo da conversa, ele reflete sobre a marginalização dos conhecimentos tradicionais, a necessidade de diálogo entre medicina popular e ciência moderna e os desafios para preservar os patrimônios culturais e biológicos da Chapada do Araripe diante das transformações ambientais e sociais do presente.

Leia a entrevista completa

Brasil de Fato: Como surgiu o Encontro de Saberes da Caatinga?

Antônio Alencar: Na verdade, o Encontro não começou no bioma Caatinga. Ele nasceu em 1984, no Recife, no Encontro Nordestino de Raizeiros, Curandeiros e Parteiras, organizado pelo médico raizeiro Celerino Carriconde. Eu trabalhava nas comunidades do Recife e de Olinda com plantas medicinais, e ele fazia esse trabalho na área rural. Depois desse encontro, vários lugares do Brasil passaram a realizar experiências parecidas.

Há trinta anos utilizamos a essência desse encontro no Recife nas comunidades tradicionais indígenas, quilombolas e ribeirinhas. Nesse caso, são encontros fechados e com todo o conhecimento restrito aos próprios locais, porque são de questões sensíveis, principalmente de comunidades indígenas e quilombolas.

Com o passar do tempo, o Encontro chegou aqui (em Exu) e ficou. Fizemos uma consulta às organizações sociais, ambientais, culturais e outras instituições da região para saber se gostariam de assumir esse Encontro (de forma aberta). Então, há 10 anos foi organizada a primeira edição do Encontro de Raizeiros, Curandeiros e Parteiras (Saberes da Caatinga), com o apoio de toda a comunidade do entorno da Chapada do Araripe. 

Seu Antônio é mestre raizeiro e um dos idealizadores do Encontro | Crédito: Nívia Uchoa/Saberes da Caatinga

Seu Antônio, o Encontro de Saberes da Caatinga é feito pelo protagonismo de quem domina os dons e ofícios das raízes, reza, cura, parto e cultura popular. Ao mesmo tempo, esse público sofre uma marginalização histórica no país. Como analisar a preservação dessas práticas e saberes vivos, mas diante de tantas perseguições?  

Esses conhecimentos permaneceram vivos, mas sem se manifestar demais. Porque, de certa forma, enfrentam a marginalização social, religiosa e comercial. É um público que sofreu muita propaganda negativa, na intenção de categorizar o raizeiro, o curandeiro e a parteira como “pessoas que não são de Deus”, trambiqueiros e enganadores. Uma maneira de tentar derrubar tradições milenares. Vale lembrar que nem sempre o médico cuidou da nossa humanidade, eles apareceram “um dia desses” na nossa história. 

E esse foi o motivo do Encontro no Recife, em 1984. Na época, o público dessas práticas e saberes se escondeu porque não queria se expor a julgamento. Ao mesmo tempo, não queria deixar de servir. Hoje, o Encontro de Saberes da Caatinga está empoderando raizeiros(as), parteiras, mestres (as) de cultura popular e rezadores e rezadeiras. Antes deles chegarem, o local é preparado com várias curas tradicionais de outros países, como a medicina chinesa, indiana e nepalesa, por exemplo. Esses são países que não pararam esse processo milenar de cura. Curiosamente, são países que estão mais avançados nesse setor que o Brasil. 

Para exemplificar, certa vez presenciei uma consulta de uma madre francesa a um médico tibetano, que chamo de raizeiro tibetano. Ela sofria há 13 anos de pressão alta e recebeu um comprimido feito à mão em uma embalagem de papel. Ela  perguntou: “Quando acabar, o que é que eu faço?” Ele disse: “Quando acabar, não tem que cumprir mais nada. Só tem que estar boa”. É um tratamento holístico, vendo todas as partes do organismo. Por isso que eles estão mais avançados do que nós. 

Com o Encontro de Saberes da Caatinga, a proposta é juntar e trocar os conhecimentos. Não seria só a passagem de um conhecimento tradicional, antigo, mas também aproximar com outros milenares de outros lugares, por um avanço na forma de tratamento e diagnóstico. É importante destacar que hoje esse público do Encontro não se vê como coitadinho e nem vive mais escondido e reprimido. Eles expressam suas identidades de raizeiros e curandeiros com orgulho. Esse é o propósito que está valendo do Encontro. 

Seu Antônio, eu gostaria de voltar a falar sobre países que aliaram a ciência tradicional com a ciência moderna, e que estão sendo vistos como mais avançados que o Brasil por esse motivo. Então como podemos comparar essa situação no nosso país? 

Nesses outros países, não houve repressão contra os conhecimentos tradicionais, ao contrário, houve estímulo. Não se trata de desconsiderar o saber científico. Apenas de andar junto e com respeito. É isso que defendemos desde o Encontro em 1984, e nesse tempo vemos, por exemplo, várias plantas entrarem na ação do SUS (Sistema Único de Saúde). Depois tivemos a criação de um Hospital de Plantas Medicinais em Goiás. A partir disso alguns médicos, mesmo que minoria, passaram a optar pelo parto natural. Esses profissionais estão dando uma contribuição muito grande, mas ainda hoje, por optarem pela medicina tradicional brasileira, ficam à margem do sistema convencional. 

Então a proposta é caminhar junto, pareado e não tem como voltar mais atrás. Até porque, por outro lado, temos que levar em conta a artificialização da vida e as inclinações da medicina nesse sentido. Vivemos um momento de alimentação e comunicação muito artificial, por exemplo. Como pensar as relações pessoais, amorosidade e amizade nesse mundo artificial? Você não toca a pessoa, recebe o som filtrado em uma conversa e um alimento que não é comida. 

Hoje temos uma guerra dentro da alimentação, de conglomerados do setor médico e alimentar como verdadeiros “vaqueiros da morte”, com produtos específicos para prejudicar o coração, os ossos, os ligamentos, causar doenças no pâncreas, rins. Tudo para manter a mesma clientela, como, de fato, se tem. Os alimentos que antes eram medicamentos saíram das prateleiras. Hoje, além das prateleiras sem alimento de verdade, são oferecidos “remédios para adoecer”.

O Encontro de Saberes da Caatinga completou dez anos e mantém alguns princípios desde o início. Como funciona na prática essa organização?  

O Saberes da Caatinga é uma atividade independente, e, nesse sentido, não recebe dinheiro de ninguém. Algumas pessoas até já se ofereceram, mas não aceitamos. Quem procura eu digo: “Eu quero que você financie. Mas comprando a camisa, uma caneca, e se alimentando pela organização do Encontro”. Até porque esse recurso de quem se inscreve ajuda a pagar a alimentação de um protagonista (de práticas e saberes tradicionais). 

Então, são as pessoas que se inscrevem que financiam a organização, e só vale se for com envolvimento sustentável. Por exemplo, todo ano são oferecidas cerca de 80 oficinas de terapias holísticas para colaborar com o Encontro. Também contamos com as organizações parceiras. O que o Encontro arrecada vai para os protagonistas. 

Expressão cultural em diálogo com parteiras tradicionais | Crédito: Eduardo Froes/Saberes da Caatinga

O que se falar sobre a importância do Encontro no sentido de renovação dessas práticas e saberes entre gerações? Nesse sentido, vale destacar o que se fala da dificuldade de renovação do ofício de parteira tradicional.

As parteiras sumiram das comunidades e o próprio Sistema de Saúde deixou elas de fora. Apesar de muitos médicos serem acompanhados hoje em dia pelas parteiras tradicionais, ainda há muitas dificuldades. Por exemplo, muitas delas não conseguem comprovar oficialmente um parto natural domiciliar para garantir o devido salário-família a uma mãe. Outras já conseguem criar seus mecanismos de prova, com atestados.

Há situações em que se argumenta que o parto “precisa ser feito com segurança”, como se essa condição não fosse possível com uma parteira tradicional. Então ainda há muita coisa em disputa e não deve ser fácil retomar o parto tradicional de uma forma mais ampla. Até porque esse movimento faz parte do sistema global.

Apesar da insegurança da sociedade com o parto natural e tradicional, muita gente ainda busca tratar esse filho com uma raizeira ou curandeira. Há um público muito grande que está na fila do posto de saúde ao mesmo tempo da fila do curandeiro e do raizeiro. No caso da parteira, a procura realmente diminuiu, mas essa cultura também não morre assim. A medicina tradicional pode ter menos expressão e empoderamento, mas as pessoas estão procurando, inclusive quando a medicina convencional diz que não tem mais jeito, muita gente corre para a tradicional.  

Ao mesmo tempo, particularmente, determinadas situações que aparecem eu digo “vá ao médico”. Se é algo consolidado no tratamento médico e não é consolidado comigo, essa é a recomendação. Até porque muitos problemas de saúde podem aumentar e, se demorar, nenhum conhecimento pode ser capaz de curar. Por exemplo, câncer de pele, se chega pedindo um remédio para câncer de pele, eu digo: “Olha, eu posso ajudar. Mas você vai ao médico, ele faz esse procedimento rápido e acabou”. Eu posso ajudar a usar um óleo de castanha depois para ajudar que o câncer não volte e manter a região tratada mais forte. O raizeiro precisa ter a auto-responsabilidade e jamais se apegar ao ego. 

É preciso atenção ao processo de cura como algo dinâmico, até porque o nosso organismo não é o mesmo de tempos atrás e o conhecimento precisa acompanhar. A própria natureza tem mudado, a exemplo de muitas pessoas que hoje não conseguem mais fazer a experiência de adivinhação das chuvas. Antes tinha a observação do movimento das formigas, a insistência em um canto do Sabiá, a presença de outras aves. Então temos que levar em consideração que trabalhamos também com corpos corrompidos. 

Há uma mobilização permanente em defesa da biodiversidade da Chapada do Araripe | Crédito: Brunoo Kawagoe/Saberes da Caatinga

Nesse sentido, eu gostaria de perguntar sobre a situação da Chapada do Araripe e o avanço das fronteiras agrícolas. Com o Saberes da Caatinga, temos uma defesa de memórias culturais e biológicas que não se separam. Como analisar esse cenário de ameaças?  

Eu vou tentar resumir um pouco de uma questão importante da Chapada do Araripe. É que vale destacar que podemos estar falando da região que abriga o início da biodiversidade da Terra. O que já foi descoberto nesta região está sendo descrito pelos fósseis, o meio que utilizamos para entender a história do nosso planeta. Aqui foram encontrados fósseis de árvores que dão fruto, indicando que o pólen das primeiras flores do planeta estiveram aqui. Na Serra da Capivara, próxima daqui, foram encontrados fósseis de árvores que não dão fruto, que comprova também que os primeiros seres na Terra foram dessa região.

Os fósseis contam a história da Terra e se fizermos essa leitura do caminho desde a biosfera, com as cianobactérias até a liberação do ozônio e oxigênio, até o nascimento de plantas, encontramos aqui. Aqui era a África. A África era aqui. Quando a África mudou, ela ainda passou mais de 8 milhões de anos com vegetação daqui. E o que aconteceu? Esse pedaço de Cerrado ficou escondido durante esse tempo todo, até uns 5 anos atrás. Ficou escondido. Ninguém identificava isso aqui como local de exploração.

A Chapada do Araripe é responsável por toda a água doce da Caatinga dessa região e ninguém identificou essas características até pouco tempo atrás. Porque Cerrado em qualquer lugar é o mesmo, é só colocar o que quiser na terra que você vai tirar o que quiser plantar. Então recentemente o local está sendo detonado, e não podemos nem dizer que é ilegalmente. A detonação é dentro da lei, porque o Cerrado tem proteção de 20% da área. Então, quem compra uma propriedade de 20 mil hectares, só tem que guardar 4 mil hectares. No restante é permitido detonar dentro da lei, desde que tenha licença. Quem licencia aqui são os governos estaduais (de Pernambuco, Ceará e Piauí) e os municípios. Nem o Ibama e nem o ICMBio licenciam mais, apesar de se tratar de uma unidade de conservação que não é de proteção integral. Eu não vou julgar, mas posso dizer que não é correta a forma que estão liberando. Até porque há árvores imunes de cortes, em um desmatamento de mil hectares não deixam uma nem para sombra. 

Ao mesmo tempo, há uma organização contrária muito grande na região, o movimento em defesa da Chapada do Araripe conta com moradores e instituições como o Ministério Público, Ibama, ICMBio, Polícia Federal e Abin. Há um investimento que conta também com políticos, independente de partidos. Essa luta é para evitar o maior crime ambiental que já existiu no Nordeste, que é o de ceifar a água para a geração futura. Não se trata nem de ficar sem água, mas de envenenar a água. Essas pessoas não estão na ilegalidade, mas não estão tendo moralidade. Se tivessem moral ao saber da desgraça que estão fazendo para a humanidade, paravam no mesmo dia.

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