Vigilância constante, gritos, ameaças, perseguições e demissões sem explicações. Duas ex-funcionárias da equipe de infraestrutura da Syngenta ouvidas pelo Brasil de Fato acusam a empresa, uma das maiores produtoras de agrotóxicos e sementes transgênicas do mundo, de assédio moral e irregularidades na condução do problema.
“Era uma gestão por ameaça”, diz Juliana*, engenheira civil que está processando a empresa após ser demitida em plena crise de burnout. “Era uma gestão por medo mesmo, sabe? Ele me fez várias ameaças de desligamento”, completa, referindo-se ao seu gestor na Syngenta.
Questionada pela reportagem, a empresa não detalhou o caso de Juliana, mas afirmou que “a saúde mental dos empregados e terceiros é um tema prioritário”. A primeira audiência do caso de Juliana está marcada para julho deste ano. Em julho de 2025, o Brasil de Fato relatou um caso de assédio moral e sexual na mesma empresa.
Em 2023, Juliana foi contratada pela empresa como coordenadora de projetos de infraestrutura para planejar e acompanhar a construção de laboratórios e armazéns na unidade de Paulínia, no interior de São Paulo. No entanto, ela acusa o seu superior, Alex Novaes, de cercear o seu trabalho desde o início.
“Ele não deixava eu exercer o meu cargo de coordenadora. Isso me afetava bastante, porque eu não tinha o que fazer. Ele saiu da mesa dele em outra sala e veio sentar na minha frente no contêiner da obra para saber tudo que eu fazia. Eu não tinha espaço para trabalhar”.
Segundo ela, ele chegou a demitir 12 pessoas que estariam sob a sua coordenação, sem avisá-la, nem dar explicações das razões para tal. A engenheira conta ainda que, para garantir o cronograma da obra, Novaes teria pressionado para pular procedimentos de segurança para a construção. “Ele queria que a gente não seguisse procedimentos de segurança”, afirma Juliana, que registrou os casos por e-mail.
Novaes foi procurado pela reportagem e pediu para que procurasse a assessoria de imprensa da empresa, que enviou uma nota alegando possuir sólida política de compliance.
A informação é confirmada por Sueli*, que trabalhava como terceirizada na equipe. Ela afirma que era comum que Novaes gritasse, pressionasse e ameaçasse também os terceirizados, fazendo com que outros subordinados e os prestadores adotassem práticas semelhantes.
Sobre a burla das normas de segurança, Sueli exemplifica com o caso da fixação de blocos de fundação na construção de uma unidade fabril, na qual era preciso definir o espaço de confinamento e os procedimentos para evitar possíveis acidentes. “É um espaço que, se acontecer qualquer coisa, a pessoa não tem como sair correndo, não tem como se proteger, não tem como ser resgatada”, explicou, acrescentando que, para esse tipo de operação, é preciso ter uma estrutura de apoio com bombeiro e ambulância.
Um mês antes do início do içamento e fixação dos blocos de concreto de cerca de dois metros de altura e largura, um técnico de segurança, também terceirizado, começou a cobrar o plano com procedimentos de segurança. “Chegou o dia de fazer atividade, o técnico de segurança, cumprindo uma norma interna da empresa, falou: ‘Não vou liberar, porque vocês não entregaram o plano’. E aí o que aconteceu? O dono da construtora ligou para o Alex e ele desceu na obra gritando com o técnico, falando que ele tinha que liberar”, detalha.
O profissional insistiu na negativa. O gestor, então, teria chamado o técnico de segurança da própria Syngenta e o teria coagido para liberar a atividade. Logo em seguida, o técnico que havia tentado impedir a operação foi demitido.
Na ocasião, Juliana questionou a demissão, quando o gestor respondeu que “se esse cara continuar na obra, ela não vai andar” e, em seguida, a ameaçou: “se você continuar dessa maneira, vai acontecer com você igual aconteceu com ele”. “Fiquei em choque”, disse a coordenadora.
O assédio, então, foi se ampliando. “Começou a ficar impossível trabalhar dessa maneira. A gente ia para as reuniões, ele falava, no meio da reunião: ‘se isso aqui não acontecer, cabeças vão rolar’”.
As ex-funcionárias destacam que as ameaças e os constrangimentos não se resumiriam aos profissionais de maior escalão, mas também aconteciam com todos os empregados, dos estagiários ao chão de fábrica. Em uma das reuniões, Alex teria zombado do odor corporal de um estagiário.
Burnout e demissão
Com o clima pesado e as ameaças, Juliana começou a sentir os sintomas de burnout.
“Eu estava tendo perda de memória. Quando eu estava fazendo apresentação em reuniões, eu simplesmente tinha um branco. Eu ficava sem saber onde eu estava, o que eu estava fazendo. Tinha dores de cabeça constantes. Não dormia”.
Durante esse período, em 2024, Juliana entrou em férias por 14 dias. Enquanto viajava, recebeu uma mensagem do sistema da carteira digital de trabalho, avisando que estava sendo desligada da empresa. “Você imagina o inferno? Acabou com o resto das minhas férias”.
Ao questionar o departamento de Recursos Humanos, foi informada de que a mensagem teria sido um engano e que ela continuava sendo funcionária. Na volta ao trabalho, o clima piorou e ela foi sendo afastada de todos os projetos e, ao escrever qualquer e-mail ou relatório, era obrigada a apresentar antes para o gestor, mesmo sendo coordenadora.
Com os sintomas de burnout retornando, Juliana procurou ajuda psicológica e foi encaminhada também para uma psiquiatra, que acabou receitando remédios para controle de ansiedade e depressão. Mas, com clima de perseguição mantido, ela continuou com o sentimento de insegurança e o estresse elevado.
“Teve uma vez que eu estava dirigindo para a empresa e bati meu carro, porque eu tive um apagão. Eu ficava tão nervosa, quando eu estava chegando lá, que eu simplesmente apaguei”.
A psiquiatra sugeriu, então, um afastamento temporário de 15 dias da profissional. Em um dos laudos emitidos, foram apontados esgotamento ocupacional (burnout), transtorno misto ansioso e depressivo, e sintomas compatíveis com transtorno de estresse pós-traumático.
Nesse período, ela procurou o médico da própria empresa que acompanhava o caso e foi aconselhada a mudar de emprego.
“O momento em que você perceber que a sua saúde está sendo realmente muito afetada por tudo o que está acontecendo. A partir daí, é preciso avaliar se compensa continuar em um tipo de trabalho que está te exaurindo tanto, que está te levando a esse limite. Esse é um questionamento que talvez você precise fazer mais à frente”, disse o médico na ocasião.
“Eu mesmo já saí de algumas empresas, de alguns empregos, porque não concordava com uma série de coisas e percebia que o problema estava na forma de gestão do local”, completou.
Com as atitudes, Juliana procurou a área de compliance da Syngenta logo após o retorno de uma de suas crises de burnout, mas, para sua surpresa, sua denúncia, que deveria ser mantida em sigilo, foi reportada para o gestor, que foi questioná-la sobre os fatos relatados. Segundo ela, pelo menos oito outras pessoas já haviam procurado o compliance da empresa.
Com o apoio da diretoria, Juliana acabou sendo transferida para uma unidade em Indaiatuba, também no interior de São Paulo, em julho de 2025. Mas, segundo seu depoimento, a perseguição institucional e o isolamento se mantiveram, já que continuou sem projetos, atuando apenas como assistente de outro engenheiro de mesma função, sem tarefas, sem reuniões, sem qualquer atribuição compatível com seu cargo.
Além disso, Juliana reclama que não recebeu um aumento salarial acordado para a transferência de município, cujo custo de vida é maior que o de Paulínia. A compensação financeira só aconteceu cerca de três meses após a engenheira ameaçar procurar o sindicato.
“Eu entendo que tudo isso foi uma forma de pressionar para que eu pedisse o desligamento e, como eu não pedia, eles foram deixando o ambiente insuportável”.
Em outubro de 2025, Juliana estava novamente de férias quando foi convocada para uma reunião logo no dia do retorno. Antes da volta, em uma nova consulta, a psiquiatra de Juliana voltou a pedir um afastamento por burnout. Numa segunda-feira, quando a engenheira iria participar de uma reunião que considerava importante. Para sua surpresa, não houve a reunião e, antes de apresentar o novo laudo, Juliana foi comunicada sobre sua demissão.
“Peguei meu notebook, ela (funcionária do RH) recebeu meu notebook em pé e fez eu assinar a carta de desligamento em pé no meio do pátio. E depois me seguiram, me escoltando até a portaria”.
Alguns dias depois, Juliana foi procurada pela empresa, que afirmou que ela poderia voltar e que a demissão havia sido cancelada. Ao dizer que não voltaria, a funcionária do RH começou a gritar com a engenheira. Desligada em novembro de 2025, Juliana só recebeu sua rescisão em janeiro de 2026.
Para a médica psiquiatra Ivania Maria Ueno, especialista em burnout, que atendeu Juliana, a Syngenta cometeu uma série de “erros crassos” na conduta com a funcionária, que vão desde não resolver as questões que provocaram o burnout, passando pela quebra do sigilo das denúncias, até o desligamento irregular.
“Então você não pode nunca demitir uma pessoa que está de atestado médico. Eu nunca vi isso na minha vida. Foi a primeira vez. Além disso, houve falta de cuidado. A empresa tem que trazer a pessoa de volta para a saúde, para, depois que a pessoa estiver saudável, se quiser, ela pode ser demitida. Eu nunca vi tantos erros feitos por uma empresa, principalmente uma multinacional de renome”.
A psiquiatra destaca ainda que a Syngenta é certificada pelas normas internacionais ISO 45001, que apresenta diversas regras e procedimentos para garantir a saúde mental e evitar o assédio moral nas empresas, como suporte emocional e afastamento dos ambientes de estresse.
Falta de preparo das empresas
Apesar de considerar a história de Juliana emblemática e uma das mais sérias com a qual já teve contato, Ueno aponta que há muitos outros casos semelhantes, que ela vê aumentar “absurdamente” no dia a dia do seu consultório.
“É algo muito sério. Muitas empresas têm slogans dizendo que a saúde mental importa, mas o que eu noto é que, para muitas delas, não passa de um slogan. A saúde mental de um trabalhador tem que ser levada a sério, tem que ser olhada a causa, o que está acontecendo”.
Nesse sentido, entra em vigor em 26 de maio uma atualização, feita pelo Ministério do Trabalho e Emprego, das regras da NR-1, que trata das disposições gerais e gerenciamento de riscos ocupacionais. Nela, torna-se obrigatória a inclusão de riscos psicossociais, como estresse, assédio e burnout, no programa de gerenciamento de riscos, sujeitando empresas a fiscalizações e multas.
“Com a NR1 entrando, vai ter muita gente com cabelo em pé. O Brasil é um país jovem com uma constituição jovem, mas o mundo inteiro já está muito preocupado com a saúde ocupacional. Europa, por exemplo, é extremamente preocupada, só que lá eles levam essas coisas muito a sério, até porque as multas são pesadíssimas. E o Brasil vai começar a pagar por causa disso”.
Um exemplo que a especialista dá sobre o descaso atual no país é que, ao fazer uma pesquisa sobre o tema, ela procurou cientistas e especialistas nacionais e internacionais para entender como o assunto do burnout é tratado. A psiquiatra só recebeu retorno de profissionais estrangeiros. “Nenhum brasileiro me respondeu”.
Ela aponta que são várias as formas de assédio. Entre eles, o freezing, ou a geladeira, quando os gestores deixam de conversar e passar trabalhos para a pessoa. Outra forma é chamar a atenção do funcionário na frente de outras pessoas de forma repetida. E também as políticas de metas, muitas vezes, inatingíveis. “Muitas pessoas chegam a um estágio de esgotamento por causa da questão das metas, que são absurdas”, destaca Ueno, lembrando que esses casos são muito comuns em bancos.
“Eles são os primeiros. Eu tenho um monte de paciente, gerente de banco, em estado de burnout”.
Nesse sentido, ela afirma que muitos líderes de empresas não sabem os conceitos de assédio ou consideram atitudes como as passadas por Juliana normais. A psiquiatra, no entanto, aponta que há exceções, como um caso que ela acompanhou de um trabalhador que estava com burnout por problemas particulares alheios ao trabalho, mas que teve o acompanhamento e assistência da empresa.
Posicionamento da empresa
Em nota, a Syngenta afirma que “a saúde mental dos empregados e terceiros é um tema prioritário”.
Leia a resposta na íntegra:
“A Syngenta possui uma robusta política de Compliance global, que garante que todos os casos reportados sejam, de fato, apurados e que os usuários do canal de denúncias tenham anonimato, recebam proteção contra retaliação e contem com total sigilo do processo. Tal confidencialidade representa uma salvaguarda e uma proteção legal que se aplica aos ambientes interno e externo, o que impede a empresa de entrar no mérito dos relatos.
É importante mencionar que a companhia dispõe de práticas e métricas amplamente reconhecidas pelo mercado, incluindo o Selo Mais Integridade 2025-2026, concedido pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), assim como possui uma forte cultura de combate ao assédio em todas as suas formas.
Por fim, reforça que a saúde mental dos empregados e terceiros é um tema prioritário. Além de cumprir as exigências legais, a Syngenta possui uma política formal de ambiente seguro e saudável, com programas que oferecem apoio psicológico em todos os locais onde opera”.
*Os nomes foram alterados para garantir a privacidade e o sigilo das fontes

