Por Surya Aaronovich Pombo de Barros*
Que imagens, expectativas e visões temos sobre nossos vizinhos latino-americanos? Uma forma de aproximação com outra cultura é conhecer personalidades interessantes, que se destacam em suas áreas de atuação. Quando essas trajetórias podem ser comparadas às de personalidades brasileiras, esse contato pode ser ainda mais frutífero. É o que pretendo trazer neste texto: refletir sobre a vida e as contribuições da colombiana Delia Zapata Olivella (1926-2001) com as da brasileira Raquel Trindade (1936-2018) para a cultura latino-americana.
Brasil e Colômbia se aproximam em diversos aspectos. Grandiosidade territorial, diversidade natural, história de colonização e violência estrutural, como no restante da América Latina, são aspectos que nos aproximam. Língua, culinária, costumes, manifestações culturais, há muitas diferenças e muitas semelhanças. Algo que vale a pena destacar é a formação da população brasileira e colombiana. A forte presença dos povos originários, os colonizadores europeus e a existência de pessoas negras que vieram no processo de diáspora africana é a base desses países. A isso, acrescentamos outros imigrantes (no caso colombiano, com menos peso que o Brasil, mas ainda assim presentes): asiáticos, árabes, europeus de outras regiões além de Portugal e Espanha formaram as populações desses dois países.
Lembrando das colocações de Lélia González sobre as experiências de mulheres negras na “Améfrica Ladina”, quero falar dessas duas intelectuais negras que merecem ser cada vez mais conhecidas e reverenciadas por suas contribuições no universo da dança, da educação e da cultura de modo geral.
Delia Zapata Olivella nasceu em 1926, em Santa Cruz de Lorica, a 188 quilômetros de Cartagena, na Costa Caribe colombiana, uma das regiões com maior concentração de população negra do país. Delia nasceu numa família incomum, que se destacou no cenário intelectual de sua época. Seu pai, Antonio Maria Zapata (1890-1968), era um homem negro letrado, defensor dos ideais liberais e membro da intelectualidade local. Ele fundou e administrou uma escola, o Colégio La Fraternidad (em Lorica, depois transferido para Cartagena). Antonio Maria escrevia para a imprensa, era dramaturgo, fundou sua própria Companhia de Teatro, onde também atuava. Foi professor no Bachillerato da Universidade de Cartagena, uma escola de prestígio que preparava estudantes para o ingresso em universidades e também para a docência e o jornalismo. Ele e Edelmira Olivella Veras tiveram sete filhos, entre os quais Juan e Manuel Zapata Olivella. Os dois estudaram medicina, publicaram na imprensa, escreveram peças de teatro e, como Manuel, livros que fazem parte do cânone literário do país.
Foi nesse ambiente que Delia passou seus primeiros anos. Ela iniciou os estudos no colégio do pai, em seguida estudou na Escuela Normal Superior, em Santa Marta e, posteriormente, fez o Bachillerato (equivalente ao ensino médio no Brasil) na Universidade de Cartagena, tendo sido a primeira mulher a frequentar essa instituição. Dizem as biografias que ela pretendia seguir os passos dos irmãos Juan e Manuel e estudar medicina, mas que o último, de quem foi muito próxima a vida inteira, a teria convencido a seguir seus pendores artísticos e entrar em Belas Artes. Ela se mudou junto com Manuel para Bogotá, se formando em escultura na Universidade Nacional de Colômbia, a instituição universitária de maior prestígio no país.
Raquel Trindade de Souza nasceu em Recife, em 1936. Como Delia, sua origem também é marcada pela importância de seus pais no cenário artístico e cultural brasileiro. Sua mãe, a paraibana Maria Margarida da Trindade (1917-?), era coreógrafa e terapeuta ocupacional. Solano Trindade (1908-19710), seu pai, foi um importante poeta pernambucano, dramaturgo, ator, artista plástico, comunista e ativista negro, reconhecido como uma das principais vozes da literatura afro-brasileira. Autor de versos como “se tem gente com fome/dá de comer”, ele foi um dos criadores da Frente Negra Pernambucana e do Centro de Cultura Afro-Brasileiro em Recife. Na década de 1930, migrou para o “sul”, e em 1943, quando Raquel tinha sete anos, sua família se juntou a ele no Rio de Janeiro, onde Maria Margarida atuou por 25 anos junto à psiquiatra Nise da Silveira e onde o casal, junto ao sociólogo Edison Carneiro (1912 – 1972) fundou o Teatro Popular Brasileiro em 1950.

Raquel foi criada e se desenvolveu nesse ambiente intelectual, artístico, militante, herdeira de uma tradição afro-brasileira combativa e vinculada ao mundo das artes. Ela contou, em entrevistas, sobre sua relação com o pai: “Ele queria que eu ouvisse música popular, música negra e música erudita, e ele me levava no Municipal para ouvir ópera, porque sempre tinha à tarde, na hora do almoço, né? Me levava pra Biblioteca Nacional, me levava pra Pinacoteca, tudo ali pertinho, no centro do Rio” (entrevista). Ele também a levava aos ensaios de Mercedes Batista, considerada a primeira bailarina negra do Brasil.
Raquel fez o ensino primário em instituições de Duque de Caxias, na baixada fluminense, e o secundário em um colégio particular em uma escola da zona sul carioca, financiado por um professor negro que viu seu potencial enquanto era sua aluna no ginásio. Raquel conta que queria ser artista desde criança, aprendeu em casa sobre danças populares como o maracatu, o jongo, o maculelê, entre outras expressões, passando a fazer parte da companhia do pai ao sair da infância. Nos anos 1960, mudou para São Paulo, para a cidade de Embu das Artes, onde se radicou como Raquel Kambinda.
Delia também criou grupos de balé e institutos culturais. Pintora, dançarina, folclorista, intelectual, a costenha foi viver em Bogotá para estudar e participou ativamente do grupo de estudantes e intelectuais negros que agitavam a capital do país. Em 1943, por exemplo, ela marchou ao lado do irmão Manuel e de outros estudantes negros pelas ruas do centro da cidade, defendendo a igualdade e denunciando o racismo, no que seria chamado de Dia do Negro. O grupo discursou, bailou cumbia, escutou músicas de origem afro e, além de tudo, fundou o Clube Negro de Colombia, um marco para as discussões sobre relações raciais no país.
Em 1951, a bailarina negra estadunidense, coreógrafa e pioneira na antropologia da dança Katherine Dunham (1909-2006) realizava uma turnê pela América Latina. Delia e Manuel, depois de assistir à apresentação Ballet Negro, em Bogotá, se sentiram impelidos a formar um grupo de dança que celebrasse suas raízes negras e indígenas. Em 1954, Delia, chamada desde então de “a primeira bailarina negra da Colômbia” se apresentou com o grupo em Cartagena e, em seguida, no Teatro Colón, de Bogotá, causando furor com seu espetáculo composto por campesinos, pescadores e bailarinos dos litorais (Colômbia é banhada pelo Atlântico e Pacífico, sendo ambas as regiões com predomínio de população negra) em um ambiente dominado pelas formas europeias, um espaço que até então só havia recebido concertos, dança e teatro clássicos.
Durante esse período, Delia realizou viagens de campo junto ao irmão Manuel. Ela já tinha uma filha, Edelmira (mesmo nome da mãe), que nascera em 1953, a quem levava nessas inscursões. Nesse período, eles percorreram selvas, povoados e regiões ribeirinhas, recolhendo músicas, danças, mitos, vestuários e formas de vida de regiões remotas do país. Eles passavam cerca de dois meses em cada cidade. Para financiar a viagem, ela conta que penduravam uma placa de “médico” e, abaixo, “modista”. Manuel atendia os pacientes e ela passava o dia costurando. À noite, quando os campesinos chegavam da lida, lhes ensinavam a dançar os cantos e outras manifestações. Como havia feito escultura, desenhava tudo para não se esquecer, registrando em seus cadernos os ensinamentos que colhia do povo.

Em 1957, a companhia de Delia realizou uma turnê internacional, passando por França, União Soviética, China, Tchecoslováquia, as duas Alemanhas e Espanha. Ficaram na Europa por dois anos, voltaram de navio, deportados por falta de recursos para as passagens. Muitas histórias sobre essa viagem aparecem nos registros sobre Delia: as dificuldades, o frio sofrido por dançarinos que eram de regiões quentes da Colômbia, episódios como o sumiço do figurino na China, com Delia trabalhando com costureiras chinesas para refazer as roupas tradicionais das costas colombianas… E, também, o deslumbre causado em plateias tão distintas.
Em 1960, Delia fundou o Balé Folclórico da Colômbia. Em 1963, foi convidada a dirigir o corpo de baile do Instituto Popular de Cultura de Cali, possibilitando sua aproximação com a região do Pacífico e suas tradições afro-pacífico-colombianas.
Delia foi vigiada pelos poderes oficiais, acusada de aproximação com o comunismo, mas isso não impediu seu desenvolvimento. Em 1965, ganhou uma bolsa de intercâmbio cultural da OEA nos EUA. Quando voltou, tinha consolidado seu papel como pedagoga, teórica e pesquisadora da dança. Foi convidada a lecionar na Universidade Nacional da Colômbia, onde formou gerações de bailarinos.
Em 1976, ela criou o Instituto Folclórico Colombiano Delia Zapata de Olivella – El palenque de Delia, que influencia a cultura colombiana até os dias atuais. Delia escreveu artigos, textos de divulgação e livros que são referências obrigatórias para quem se interesse por dança, música, cultura popular e contribuições negras: La Cumbia: síntesis de la nación colombiana (1962), Manual de Danzas de la Costa Pacífica de Colombia (1998) e Manual de Danzas de la Costa Atlántica de Colombia (2003, obra póstuma).
Uma frase de Delia nos ajuda a entender como encarava sua atuação: “Yo no bailo por bailar, yo bailo para contar quiénes somos”.

Delia morreu em 2001 em decorrência da malária que pegou na Costa do Marfim, quando participava de um encontro de folcloristas. Este ano de 2026, centenário de seu nascimento, foi decretado pelo Ministério das Culturas colombiano como “Ano Delia”, com a realização de diversas atividades artísticas e culturais, publicações e eventos acadêmicos em sua homenagem.
Raquel Trindade é considerada uma multiartista, se destacando não apenas por sua contribuição para o teatro e a dança no Brasil, mas também como pintora, figurinista, coreógrafa, professora e autora. Seu primeiro filho foi gerado numa viagem do Teatro Popular Brasileiro à Europa, quando Raquel cursava o segundo ano do ensino secundário. O grupo foi convidado em 1955 a se apresentar na União Soviética, passando também por França, Alemanha, Polônia e Tchecoslováquia. Por uma diferença de apenas dois anos, o grupo brasileiro não se encontrou com o colombiano, que viajaria para a Europa em 1957.

Ao voltar da turnê, o pai de Raquel resolveu se radicar em São Paulo e, em 1961, se mudaram para a cidade de Embu das Artes, a 45 quilômetros da capital. Ali, Raquel Trindade foi desenvolvendo sua pesquisa e reflexões sobre a cultura popular brasileira, organizando festas e eventos com jongo, samba, maracatu, lundu, coco, entre outras manifestações de matriz africana. Raquel foi criada entre o marxismo do pai e o cristianismo da mãe, que era da Igreja Presbiteriana, mas nesse período se iniciou no Candomblé, tornando-se mais tarde ialorixá. Em suas palavras: “É a coisa de preservar e passar o que a gente sabe às pessoas. Não é um trabalho só de Carnaval, é da vida inteira”.

A partir do legado familiar, Raquel fundou o Teatro Popular Solano Trindade, em 1975, depois da morte do pai. Desde ali, disseminava seus conhecimentos, os ritmos, danças populares, e a dança dos orixás. Criou a Nação Kambinda de Maracatu e o Bloco Carnavalesco da Kambinda, além de atuar no Carnaval do Rio de Janeiro e de São Paulo.
Na década de 1980, foi convidada, por seu notório saber, a lecionar na Unicamp. Lá, ela ensinou danças afro-brasileiras nos cursos de dança e artes cênicas e o tema “Cultura negra e teatro negro no Brasil” no curso de extensão Problemas Brasileiros. Sofreu racismo no ambiente universitário e, depois de alguns anos lecionando e atuando na extensão universitária, resolveu se dedicar exclusivamente aos projetos em Embu das Artes. Mas seu legado na Unicamp permanece. Ela havia criado o grupo de extensão Urucungos, Puítas e Quijengues, que depois foi transformado em um ponto de cultura. Raquel também ministrou aulas na Universidade Federal de São Carlos, Anhembi Morumbi, USP e Unifesp.
Raquel é autora do livro Embu: de Aldeia de M’Boy a Terra das Artes (2004 e reeditado em 2011), além de Urucungos, Puítas e Quijengues (Dança de Origem Banto) (2016) e coautora de Os Orixás e a Natureza (2012). Em 2012, foi condecorada como Comendadora da Ordem do Mérito Cultural, sob a presidência de Dilma Rousseff. A Rainha Kambinda morreu em 2018, causando comoção. Em sua homenagem foram realizadas exposições, eventos, textos e produções na mídia.

Delia Zapata Olivella e Raquel Trindade nasceram em países diferentes e possuem trajetórias diversas. Ainda assim, ambas compartilham experiências comuns: foram professoras, artistas e lideranças. Acima de tudo, foram intelectuais negras, que advogaram a herança afro-diaspórica, mostrando que o corpo pensa e carrega memória, que o corpo e as manifestações culturais populares são arquivo vivo de histórias coletivas. Seu legado permanece no trabalho de filhas, netos e bisnetos, e também das pessoas que reconhecem sua importância e contribuições. Ambas fizeram arte olhando para seus próprios países e culturas, mas ensinam sobre memória, história, beleza, luta e resistência.
Sugestões sobre Raquel Trindade
Sugestões sobre Delia Zapata Olivella
*Surya Aaronovich Pombo de Barros é historiadora, professora de Política Educacional, Educação e Relações Raciais e História da Educação na UFPB.
**A opinião contida neste texto não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

