Capitalismo, corrupção e bolsonarismo: o caso do Banco Master

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A recente publicização das relações políticas e financeiras entre a família Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro expôs contradições centrais da base de sustentação da extrema direita, especialmente de seu núcleo neofascista. Ao mesmo tempo em que mobiliza um discurso moralista e religioso anticorrupção, o bolsonarismo também expressa a expansão de setores econômicos espoliadores ligados ao crime organizado, às finanças, ao varejo e ao agronegócio. Ou seja, enquanto condena a “corrupção”, a extrema direita se sustenta como plataforma de expansão de atividades econômicas corruptoras e criminosas.

Mais do que o financiamento de um filme com orçamento superior ao de diversos vencedores recentes do Oscar, chama atenção o grau de proximidade entre o clã Bolsonaro e o dono do Banco Master. As mensagens trocadas após a divulgação das investigações sobre o banco coincidiram com a tática lavajatista que aproximou, parcialmente, a extrema direita e conglomerados de mídia, como as Organizações Globo, na tentativa de associar o escândalo ao governo Lula e ao PT.

Por outro lado, cabe às forças progressistas superar abordagens moralistas sobre a corrupção. O caso revela, mais uma vez, a putrefação da dominância neoliberal e do sistema político brasileiro, aprofundada após 2016.

Embora amplamente comentada, a corrupção ainda é pouco debatida e estudada em sua complexidade histórica. Frequentemente, ela é reduzida a um problema moral, individual ou até mesmo a um traço supostamente permanente da formação social brasileira, associado ao chamado “jeitinho brasileiro”. Contra essa perspectiva, torna-se fundamental abandonar a ideia de uma corrupção atemporal.

Se, em formações pré-capitalistas, a corrupção era associada à degeneração dos corpos sociais e políticos, no capitalismo ela passa a ser vinculada à constituição do Estado moderno e às práticas que distorcem a igualdade jurídica formal e o espírito público.

Entretanto, práticas legais e ilegais consideradas corruptas integram a própria lógica de acumulação capitalista desde seus primórdios. Pirataria, fraudes, expropriações violentas, cercamentos de terras comuns e tráfico de pessoas escravizadas constituíram dimensões centrais do processo que Marx denominou acumulação primitiva.

Na etapa neoliberal do capitalismo, especialmente a partir da década de 1970, a valorização acelerada de capitais sobreacumulados impulsionou a transnacionalização produtiva e a financeirização. Consolidou-se uma nova arquitetura da acumulação, na qual fundos de investimento, fundos de pensão, instituições financeiras e gestores de ativos passaram a ocupar papel central na direção do sistema financeiro global e de empresas não financeiras.

É nesse cenário que emerge o caso do Banco Master, ainda sob investigação e com desdobramentos jurídicos, políticos e econômicos em curso. Considerado por muitos analistas como a maior fraude bancária da história recente do sistema financeiro brasileiro, com estimativas superiores a R$ 60 bilhões, o episódio oferece uma oportunidade privilegiada para refletir sobre as conexões estruturais entre corrupção e capitalismo contemporâneo.

O caso do Banco Master: escândalo do parasitismo financeiro no Brasil

Temos sustentado que, sobretudo após 2016, sob a influência dos desdobramentos econômicos da Operação Lava Jato e da deposição da presidente eleita Dilma Rousseff, houve uma inflexão nos padrões de dominação, acumulação e reprodução do capitalismo brasileiro.

Longe de representar a inauguração da financeirização da economia brasileira, essa nova etapa expressa mudanças tanto quantitativas quanto qualitativas. Em paralelo à adoção de medidas como o congelamento dos gastos públicos, a contrarreforma trabalhista e previdência, a intensificação das privatizações e a abertura de empresas e ativos públicos estratégicos, verifica-se a expansão significativa de fundos de investimento, do mercado de capitais e da securitização de ativos, bem como o surgimento de novos instrumentos de crédito, plataformas financeiras e fintechs.

Em grande medida, o chamado combate à corrupção operou como elemento legitimador desse conjunto de transformações. Da extrema direita emergente à difusão de abordagens acadêmicas importadas dos Estados Unidos observa-se uma convergência interpretativa que identifica o Estado e as políticas públicas como locus privilegiado da corrupção. A consequência dessa leitura é a defesa da ampliação dos mecanismos de autorregulação de mercado.

O “Caso Master”, portanto, mais do que um desvio individual de seus agentes — sem que se desconsidere tal dimensão —, expressa o predomínio de formas de parasitismo financeiro e evidencia as profundas limitações do modelo de combate à corrupção difundido durante o período lavajatista.

Mais que uma mera “pirâmide financeira” ou uma “infiltração nos poderes da Nova República”, a respectiva fraude bancária articula as seguintes dimensões: fortes suspeitas de associação a capitais e ativos financeiros ligados ao crime organizado; conhecimento e articulação com relação ao funcionamento do sistema financeiro; simbiose com os poderes do Estado mediante a construção de um habitus em comum com seus agentes e tentativa de construção de braços midiáticos e armados para combater concorrentes e inimigos. 

O primeiro ponto remete à própria capitalização de Daniel Vorcaro. Segundo documentos acessados pelo ICL Notícias, a associação entre Vorcaro e o narcotraficante espanhol Oliver Ortiz de Zarate Martin foi fundamental para a compra do antigo Banco Máxima, rebatizado como Master em 2021. Segundo a matéria, a relação entre Martin e Vorcaro foi constituída por meio do operador Benjamim Botelho de Almeida, ligado à corretora Sefer Investimento. Por sua vez, a Sefer administrava fundos do Grupo Aquilla, administrado por Botelho e com investimentos de Martin, o qual participou, em 2017, da compra do Banco Máxima.

Outro elemento que fortalece essa hipótese, também divulgado pela investigação da Polícia Federal, foi a relação entre o Banco Master e a Reag Investimentos. Ambos mantinham uma relação estreita e fraudulenta de “ciranda financeira”, na qual a Reag geria fundos que recebiam aportes suspeitos do Master, envolvendo o uso de empresas de fachada e a valorização artificial de ativos, como precatórios, para inflar balanços. 

Comunicados bancários enviados ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) apontam que o Fundo de Investimento em Direito Creditório (FIDC) Gold Style, administrado pela Reag, recebeu R$ 1 bilhão de empresas apontadas pela Polícia Federal como parte do esquema de lavagem de dinheiro do Primeiro Comando da Capital (PCC) no mercado financeiro.

O conhecimento e a articulação junto aos diversos produtos e agentes do sistema financeiro nos afastam das hipóteses explicativas de “infiltração criminosa” ou de uma mera “laranja podre”. Vorcaro ergueu uma bilionária engrenagem financeira (fictícia), utilizando-se da emissão de Certificados de Depósitos Bancário (CDI) e pagando até 140% do CDI, sob garantia do Fundo Garantidor de Crédito (FGC).

Em um momento posterior, essa engrenagem se retroalimentou por meio da compra de precatórios e sua inflação no balanço financeiro do Banco mediante a atuação das administradoras de fundos de investimentos, principalmente a Reag. Outro ponto é a compra de títulos do banco por uma série de fundos de pensão estaduais e municipais e bancos públicos, como o Banco de Brasília. 

Se as fortes suspeitas de capitalização via lavagem de dinheiro do crime organizado ajudam a explicar a expansão do banco, suas conexões com os poderes da República nos possibilitam compreender as engrenagens de retroalimentação. A constante porta-giratória (ex-altos gestores públicos com informações e conhecimentos estratégicos que passaram a trabalhar para a iniciativa privada), o acesso facilitado aos ciclos de poder em ambientes informais como clubes, festas, viagens, seminários e outros eventos ou o “puro” suborno fazem parte, inspirado em Bourdieu, do habitus, isto é, o compartilhamento de um conjunto de disposições duráveis e transponíveis, como por exemplo modos de pensar, sentir e agir, internalizados pelos indivíduos por meio de sua socialização e trajetória social.

Cabe destacar que, na prática, os principais interlocutores de Vorcaro para acessar e influenciar tais círculos foram políticos vinculados ao “centrão” e à extrema direita. Levantamentos com base em dados divulgados pela grande imprensa indicam que o Partido Liberal (PL) foi a legenda cujos prefeitos e governadores mais destinaram recursos ao Banco Master — mais de R$ 1 bilhão —, sobretudo por meio de fundos de previdência e pensão. Soma-se a isto a proximidade de Vorcaro com a então presidência do Banco Central do Brasil, ocupada por Roberto Campos Neto, atualmente um dos principais executivos do Nubank.

Importa salientar que os principais afetados por essa fraude foram milhares de pequenos investidores, em sua maioria trabalhadores, que aplicam parte de sua renda em produtos de renda fixa, além de aposentados. Trata-se, portanto, de um processo de expropriação da classe trabalhadora, no qual fundos destinados ao consumo e à sobrevivência foram convertidos em base para a acumulação de capitais fictícios.

Se, até aqui, as práticas consideradas corruptas e fraudulentas se situavam no âmbito da acumulação fictícia e parasitária, a tentativa de organização de braços midiáticos e mesmo coercitivos deve ser compreendida como parte dos processos de realização e concorrência próprios à reprodução ampliada capitalista. 

No âmbito das investigações conduzidas pela Polícia Federal e nos autos dos processos que envolvem o Banco Master, é possível identificar a proximidade da instituição com diversos meios de comunicação e influenciadores digitais. Da promoção de eventos com a grande mídia ao pagamento de criadores de conteúdo nas redes sociais, a estratégia visava construir a imagem de um banco sólido, inovador e em expansão, ao mesmo tempo em que buscava neutralizar críticas e descredibilizar denúncias.

Na decisão que fundamenta a prisão preventiva de Vorcaro, chama atenção a menção à formação de uma espécie de “milícia” em torno do controlador do banco. Em mensagens privadas interceptadas no âmbito da investigação, datadas de 7 de abril de 2025, o próprio afirma: “esse negócio de banco é igual máfia”. Esse braço, simultaneamente digital e coercitivo, teria como função intimidar, ameaçar e constranger possíveis opositores, concorrentes ou críticos.

Perceba, caro leitor: o que aqui denominamos corrupção e fraude, a partir dessa breve digressão sobre o caso Master, não constitui um desvio externo, mas sim um conjunto de práticas endógenas ao próprio processo de produção e reprodução capitalista, amplificadas, no caso, por um padrão de dominância financeira característico da financeirização contemporânea.

O dito combate que alimenta o problema: anticorrupção e financeirização

Um dos efeitos mais relevantes do modelo hegemônico de combate à corrupção é o deslocamento seletivo de prioridades. Sob influência de abordagens como o rent-seeking e de agendas internacionais de governança, consolidou-se a ideia de que o principal locus da corrupção reside no Estado, especialmente na execução de políticas públicas. Nesse enquadramento, fraudes em benefícios sociais passam a ocupar posição central no debate público e institucional.

Não se trata de negar a existência dessas irregularidades. O problema está na desproporção entre a atenção dedicada a esse tipo de fraude e aquela dirigida a práticas estruturais como evasão fiscal, elisão agressiva e lavagem de dinheiro.

Enquanto irregularidades em programas sociais tendem a ser rapidamente identificadas, amplamente divulgadas e politicamente instrumentalizadas, esquemas sofisticados de planejamento tributário abusivo, uso de paraísos fiscais e ocultação patrimonial permanecem, apesar de avanços recentes, subnotificados ou tratados como meras questões técnicas. 

Nesse sentido, avaliamos que há uma disputa ideopolítica, jurídica e técnica em curso. O combate à corrupção vem sendo instrumentalizado pela radicalização neoliberal, a partir da internalização acrítica de dispositivos ideológicos, jurídicos e políticos internacionais que aprofundam a dependência e as desigualdades no Brasil — expressões do que denominamos imperialismo legal.

Mais do que uma pauta defensiva, a explosão de casos de corrupção e investigações contra o crime organizado expressa contradições próprias da crise capitalista contemporânea. Para deixar de ocupar um terreno defensivo para a esquerda, o debate sobre corrupção precisa ser deslocado da dimensão estritamente moral e individual, bem como da criminalização do investimento público, para uma discussão sobre democratização do poder econômico, político e social.

Também é necessário revisitar e revitalizar acúmulos históricos já presentes na Constituição de 1988, como o controle social das políticas públicas, a participação popular e a defesa da economia pública.

À luz dessas questões, o “Caso Master” não pode ser reduzido a desvios individuais ou a um episódio isolado. Ele condensa tendências estruturais do capitalismo contemporâneo sob dominância financeira: valorização fictícia, mobilização de redes políticas para captação de recursos e construção de dispositivos midiáticos e coercitivos como suporte à acumulação.

Enfrentar a corrupção, portanto, exige ir além do espetáculo punitivista e do expansionismo do compliance. Implica recolocar no centro a relação entre corrupção, acumulação e poder, o que passa pelo fortalecimento das capacidades estatais de regulação, dos órgãos de controle e da participação social, bem como pela revisão crítica do atual modelo anticorrupção.

Em síntese, em um contexto de acumulação predominantemente financeira, combater a corrupção requer enfrentar as condições que a tornam funcional ao próprio sistema. Caso contrário, o combate seguirá alimentando aquilo que afirma combater.

* Luís Eduardo Fernandes é historiador e assistente social. Professor Adjunto da Escola de Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), pesquisa temas como imperialismo contemporâneo, políticas públicas e movimentos sociais, políticas anticorrupção e antifraude e formação social brasileira. É autor do livro “A Internacional da Lava Jato” (Autonomia Literária, 2024)

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

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