Camponeses de vários estados do país ocuparam a Esplanada dos Ministérios nesta quinta-feira (14), em Brasília, durante o encerramento do 4º Encontro Nacional do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA). A marcha, que saiu da Torre de TV em direção ao Congresso Nacional, transformou o centro político do país em um corredor de bandeiras vermelhas, palavras de ordem e denúncias contra o avanço do agronegócio e a demora do governo federal em fazer com que políticas públicas cheguem aos territórios rurais.
O ato também marcou os 30 anos do movimento e homenageou o legado de Frei Sérgio Görgen, referência histórica da luta camponesa no Brasil. Entre falas emocionadas e críticas diretas ao Congresso Nacional, o encontro reforçou um sentimento comum entre as delegações vindas de 22 estados: o de que o campesinato continua sustentando a alimentação do país enquanto enfrenta abandono, violência e ausência de investimentos estruturais.
Ao longo da caminhada, lideranças classificaram o atual Congresso como aliado do agronegócio e do capital financeiro. A crítica central foi direcionada ao controle do orçamento público por emendas parlamentares e à dificuldade de avançar em pautas ligadas à soberania alimentar, agroecologia e reforma agrária.
Tião Erculino, do Espírito Santo, afirmou que o Parlamento “virou as costas” para quem produz alimento no país. “Nós viemos aqui denunciar esse Congresso que é inimigo do povo. Eles dão as costas para o campesinato. Lá no campo, onde a gente produz alimento, estão fechando as nossas escolas e tirando o conhecimento dos nossos filhos”, afirmou.
A crítica foi reforçada por Gilberto Afonso, de Santa Catarina, que denunciou a captura do orçamento federal por interesses privados. “Denunciamos esse Congresso Nacional que captura o orçamento do Estado com emendas parlamentares e não deixa as políticas públicas de apoio à produção de alimentos avançarem. Eles só aprovam legislações de interesse do capital e do agronegócio.”
A marcha também carregou críticas ao modelo de produção agrícola baseado em monoculturas e exportação. Para o movimento, enquanto o agronegócio amplia lucros em dólar, a agricultura familiar segue sem acesso suficiente a crédito, assistência técnica e habitação rural.

Abandono
As delegações da região Norte levaram à marcha denúncias sobre mineração, destruição ambiental e falta de infraestrutura nas comunidades rurais e ribeirinhas. Nubia Gonzaga, do Amazonas, relatou dificuldades enfrentadas por comunidades tradicionais para acessar políticas públicas e escoar produção.
A militante do MPA denunciou o abandono das comunidades ribeirinhas e extrativistas, além do avanço de mineradoras sobre os territórios da região. “As nossas estradas estão precárias, os ramais estão precários e as comunidades agrícolas não conseguem escoar sua produção por falta de políticas públicas. A burocracia é tão grande que muitas comunidades e associações não conseguem acessar os programas”, relatou.
Ela também criticou a atuação do Congresso Nacional e o avanço de empresas estrangeiras sobre os recursos naturais da Amazônia. “Nossa população está à mercê de um Congresso completamente contra o povo. Precisamos de soberania alimentar e agroecologia, e não que sejamos invadidos por mineradoras e empresas estrangeiras que levam nossas riquezas.”
Já Joseli Furtado de Araújo, do Pará, denunciou o avanço da soja e da pecuária sobre os territórios da região amazônica. “Estamos perdendo nossos rios, nossas matas e nossos igarapés para o agronegócio. Precisamos de reforma agrária e dignidade para permanecer em nosso território.”
A militante também relacionou a ausência de políticas públicas ao adoecimento das comunidades rurais e à dificuldade de produzir alimentos com dignidade. “Nossas matas estão morrendo, nossas crianças estão adoecendo, porque não temos o respeito de produzir alimento com dignidade”, completou.
As mulheres tiveram protagonismo durante toda a caminhada. Em meio aos cantos e bandeiras, denunciaram o feminicídio, a violência no campo e defenderam a participação feminina como elemento central da soberania alimentar.
Do Piauí, Líria Aquino destacou a ancestralidade e a resistência camponesa como parte da luta política construída pelo movimento. “Mesmo que queimem os nossos símbolos, não queimarão os nossos significados. Estamos lutando por políticas públicas, pela defesa da natureza e pela dignidade de quem produz comida de verdade”, afirmou.

Governo tenta diálogo
Em frente ao Congresso, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, participou do ato ao lado das delegações do MPA e afirmou que o governo federal precisa manter diálogo permanente com os movimentos populares. Ao saudar os mais de 22 estados e as delegações internacionais presentes no encontro, Boulos destacou a trajetória histórica do movimento e a importância da agricultura familiar para o país.
“O MPA é um movimento que, muito antes de eu ser ministro, eu aprendi a respeitar e valorizar pela luta legítima, pé no barro, que vocês fazem Brasil afora”, declarou.
Durante o discurso, o ministro também afirmou que os movimentos sociais precisam ser recebidos pelo Estado com o mesmo espaço historicamente dado ao agronegócio e ao sistema financeiro e defendeu que o Plano Safra contemple a produção agroecológica. “Quem alimenta esse país é a agricultura familiar. O agro pode ter força porque vende em dólar, porque exporta, mas quem bota comida na mesa do povo brasileiro são vocês.”
Ao final, o ministro afirmou que o governo pretende ampliar o orçamento do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e anunciou que o MPA participará de uma reunião com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no próximo sábado (16), junto a outros movimentos sociais.
Apesar do gesto político, parte da militância demonstrou insatisfação com a ausência do presidente no encontro nacional do MPA. Para Marli Souza Fagundes, da Bahia, as políticas anunciadas ainda não alcançam os territórios mais pobres do país. “Não estamos satisfeitos por ele (Lula) não ter estado em nosso encontro. Queremos acesso à habitação, saúde e lazer, e não vamos abaixar a cabeça para o que é nosso direito.”
Após o encerramento da marcha em frente ao Congresso Nacional, as delegações do MPA seguiram para a Câmara dos Deputados, onde participaram de uma sessão solene.
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