O tempo é uma das dimensões fundamentais da vida humana e com ele temos uma relação muito especial ao longo de toda a nossa existência. Muitas vezes, enlaçados pela ideologia capitalista, em que tempo é dinheiro ou trabalho para garantir a sustentação da vida, nos esquecemos que o fundamental do tempo é o seu uso de forma digna e prazerosa. O tempo não volta, no tempo não se recupera, o tempo não apita na curva, como diz um ditado antigo.
Tempo é, acima de tudo, tempo para a vida, e vida em abundância!
Nos últimos séculos, imbuídas do espírito capitalista e convencidos pelos patrões, muitas pessoas da classe trabalhadora também começaram a achar que tempo é dinheiro e que o trabalho, mesmo em situações degradantes, é mais digno do que o descanso, o cuidado com a família, o cuidado com o quintal, a ação política.
É por isto que a luta pelo fim da escala 6×1, com a redução da jornada de trabalho sem redução salarial tem o papel formativo de chamar a atenção para o conflito entre capital e trabalho em relação ao tempo, à ocupação do tempo, aspectos sempre presentes, apesar de estarem na maioria das vezes ocultos, em nossa sociedade.
A classe empresarial vê claramente que, no curto prazo, atender essa reivindicação histórica da classe trabalhadora significa a redução de suas taxas de lucro porque o aumento do tempo livre para a trabalhadora e para o trabalhador significa diminuir a diferença entre o tempo socialmente necessário para produzir bens e serviços e o tempo efetivamente trabalhado. O segundo precisa ser sempre muito maior que o primeiro para garantir alto lucro.
É bom que fique entendido também que os pequenos empreendedores que lutam para sobreviver nesse sistema concentrador de riquezas, ainda que não saibam disso, não pertencem à classe empresarial a qual me refiro e que nesse momento da nossa história pode ser obrigada, por lei, a reduzir suas taxas de lucro.
Consciência de classe
Tempo livre, tempo de não trabalho, sem perda salarial, é uma forma de distribuir a riqueza produzida com quem é responsável pela sua produção, a trabalhadora e o trabalhador. No sistema capitalista, isso acirra o conflito distributivo entre a classe empresarial e a classe trabalhadora. O conflito distributivo significa que a classe empresarial precisa reduzir suas taxas de lucro para que a trabalhadora e o trabalhador possam ter vida além do trabalho.
A compreensão desse conflito distributivo, de seu acirramento pela redução da jornada de trabalho sem redução salarial, ajuda a fazer o povo trabalhador se ver como classe.
Abre-se uma oportunidade para que a trabalhadora e o trabalhador parem de pensar com a cabeça do patrão e reivindiquem o tempo livre como direito fundamental: para o descanso, para o lazer, para o convívio com os amigos e a família, para uma divisão mais justa do trabalho doméstico e de cuidados entre homens e mulheres, para o estudo e a qualificação profissional.
A propósito, os argumentos apresentados ao conjunto da sociedade para a resolução desse conflito distributivo a favor da classe trabalhadora também devem atingir a classe empresarial. Afinal, além dos ganhos evidentes para a trabalhadora e o trabalhador, a redução na jornada de trabalho implica ainda ganho de produtividade. Uma vez que esse ganho de produtividade seja bem gerenciado, com a abertura de novos postos de trabalho, pode-se manter as taxas de lucro e ainda dinamizar toda a economia.
São argumentos verdadeiros e convincentes, mas de pouco efeito sobre a classe empresarial brasileira, constituída a partir de uma transição do escravismo colonial para um capitalismo dependente, fundado na exploração predatória e na exportação de gêneros agrícolas e de recursos minerais, em que pouco se modificaram as relações de exploração configuradas pela escravidão.
Por isso, a resistência, o discurso alarmista dos representantes dos grandes empresários de que o fim da escala 6×1, com a redução da jornada de trabalho, sem redução salarial, causará a quebra da economia, com diminuição na produção, aumento da inflação, do desemprego e da informalidade.
Valendo-se da desigualdade resultante da diferença de poder entre quem tem os meios para produzir bens e serviços (classe empresarial) e quem tem apenas a força de trabalho para vender e sobreviver (classe trabalhadora), os representantes da classe empresarial fazem discursos que intimidam e escondem o objetivo de ampliar e intensificar ao máximo a jornada de trabalho com a mínima remuneração para manter as taxas de lucro.
Não importa que a trabalhadora e o trabalhador adoeçam ou mesmo que morram após anos de exaustão no trabalho. Há um exército de pessoas sem emprego ou subempregadas para contratar, substituir e continuar explorando.
Por isso, é preciso insistir:
● O tempo livre para ter vida além do trabalho é um direito da classe trabalhadora!
● A riqueza produzida pelo(a) trabalhador(a) precisa ser distribuída de forma mais justa!
● A redução da jornada de trabalho sem redução de salário é uma forma de realizar essa distribuição!
● Em benefício de toda a sociedade é preciso que a classe empresarial seja obrigada a promover essa ainda pequena redução em suas taxas de lucro!
Portanto, trata-se de direito a ser conquistado na luta social, na pressão feita nas redes e nas ruas! Os parlamentares no Congresso Nacional precisam saber que vamos acompanhar de perto e mandar de volta pra casa os que impedirem essa importante conquista. E ela tem que vir sem compensações aos grandes empresários, como seriam os casos de ampliar as horas extras e de desviar a conta a pagar para os impostos recolhidos pelo governo e que, ao final, é o povo trabalhador que paga!
É preciso, nesse momento de resgate da luta histórica pela redução da jornada de trabalho sem redução salarial, mobilizar o povo trabalhador e avançar na consciência de que ele é o único responsável pelo trabalho que gera a riqueza, mas que fica concentrada nas mãos de poucos exploradores!
Com essa compreensão, vamos continuar a ocupar as ruas e as redes, assim como fizemos no 1º de maio, para pressionar o Congresso Nacional a aprovar o fim da escala 6×1, com a redução da jornada de trabalho sem redução salarial, sem compensação por meio de ampliação das horas extras, sem desviar a conta para o governo.
A riqueza produzida pela trabalhadora e pelo trabalhador precisa ser distribuída com mais justiça!
Adelson Fernandes Moreira é professor de Física aposentado do CEFET-MG e assessor de comunicação interinstitucional do APUBHUFMG+
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