Museu da Língua Portuguesa e Pinacoteca, no centro de São Paulo, fazem da região da Luz ponto de encontro de memórias do Brasil

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Em poucos metros, instituições como a Galeria de arte e o Museu da Língua Portuguesano centro de São Paulo (SP), ajudam a contar diferentes capítulos da formação do país, conectando história, cultura popular e novos olhares sobre o Brasil contemporâneo.

O fluxo constante de trabalhadores, estudantes, turistas, artistas e moradores faz da região um corredor cultural em que a circulação entre os equipamentos se mistura à própria experiência urbana do centro da maior cidade da América Latina. Entre prédios históricos, estação de trem e o movimento cotidiano da cidade, os dois museus atuam de forma complementar ao abordar as raízes culturais brasileiras a partir da língua e das artes visuais.

Desde 2006, o Museu da Língua Portuguesa apresenta o idioma falado no Brasil como reflexo da formação nacional, marcada pelo encontro entre diferentes povos e culturas. Reaberto em 2021 após cinco anos de reconstrução decorrentes do incêndio de 2015, o espaço incorporou novas tecnologias e exposições interativas para ampliar o diálogo com o público.

Para Felipe Arruda, diretor técnico da instituição, a proposta do museu é justamente evidenciar a pluralidade que forma a língua portuguesa no Brasil.

“A língua portuguesa no Brasil é resultado da herança que nós temos da língua que veio com os portugueses, mas muito influenciada pelas línguas africanas, dos povos escravizados que vieram ao longo dos séculos para esse território e também das línguas indígenas, dos povos originários que já existiam aqui”, explica.

Segundo Arruda, quando os portugueses chegaram ao território que hoje corresponde ao Brasil, existiam mais de 1.150 línguas originárias. Atualmente, o país registra entre 170 e 175 línguas remanescentes.

Ao longo de sua trajetória, o museu recebeu mais de 3 milhões de visitantes nos primeiros dez anos de funcionamento. Além da exposição principal, promove mostras temporárias, saraus, shows, pesquisas e atividades educativas que exploram as múltiplas formas de expressão da língua.

“O museu faz exposições, tem a exposição principal e, por meio das suas temporárias, a gente explora esta amplitude da língua. E não só pelas exposições. Quando trazemos shows, fazemos saraus, pesquisas internas e atividades educativas, buscamos várias modalidades e ferramentas para trabalhar essa amplitude”, afirma Arruda.

A presença de grupos escolares é uma das marcas do cotidiano na Luz. Professora de português, Thainá Rangel André visitava o museu com estudantes e destaca a importância de aproximar os jovens da história do idioma em um contexto marcado pela hiperconectividade.

O Museu da Língua Portuguesa foi inaugurado em 2006
O Museu da Língua Portuguesa foi inaugurado em 2006 | Crédito: Vitor Shimomura/Brasil de Fato

“Eu acho que é importante a gente trabalhar com essa geração, principalmente essa geração que é tão conectada, para eles entenderem de onde a nossa língua vem, quais foram as mudanças que a nossa língua sofreu, principalmente por conta do processo de colonização e do processo imigratório que a gente teve no Brasil”, afirma.

Para ela, compreender a língua também é compreender a própria formação social do país.

“Não é só o português que a gente fala, mas é fazer essa geração tão nova entender de onde a nossa língua vem, quais são as nossas raízes e entender que o português não é uma língua que surgiu de repente, mas é uma língua que é 100% mutável”, completa.

Poucos passos adiante, a Pinacoteca de São Paulo amplia essa narrativa a partir das artes visuais. Com um acervo de cerca de 11 mil peças, o museu reúne obras que atravessam do século XIX à produção contemporânea, incluindo nomes como Anita Malfatti, Lygia Clark e Tarsila do Amaral. Atualmente, a instituição realiza cerca de 15 exposições simultâneas e recebe aproximadamente 800 mil visitantes por ano.

Para Yuri Quevedo, curador do acervo da Pinacoteca, o papel da instituição mudou junto com a própria transformação cultural da região central.

“Durante muito tempo, a Pinacoteca foi entendida como um museu de São Paulo para os paulistas. Mas hoje é um dos maiores museus de arte brasileira do mundo. Então não faz sentido a gente não poder contar, porque a gente tem espaço, a gente tem acervo para isso, uma história mais ampla do Brasil”, afirma.

Acervo da Pinacoteca reúne cerca de 11 mil peças
Acervo da Pinacoteca reúne cerca de 11 mil peças | Crédito: Vitor Shimomura/Brasil de Fato

A circulação de grupos vindos das periferias também ajuda a redefinir quem ocupa esses espaços culturais. A arte-educadora Viviane Bezerra dos Santos visitava a Pinacoteca com jovens do projeto Cores da Juventude, iniciativa voltada à saúde mental de adolescentes da zona leste paulistana por meio de oficinas e atividades culturais.

Segundo ela, muitos jovens encontram barreiras históricas de acesso aos equipamentos culturais da cidade.

“A importância de trazer para a Pinacoteca é que eles possam acessar espaços nos quais, geralmente, eles não são incluídos. Eles ficam na margem, na periferia, não acessam a cultura onde a classe média consegue a informação”, afirma.

Viviane explica que o projeto também busca fortalecer a produção artística existente nos próprios territórios periféricos, como em Guaianazes, na zona leste da capital, mas ressalta o impacto que o contato com outros espaços culturais pode provocar.

“A ideia é poder trazer o belo. O belo também, às vezes, é necessário, o de fora, para eles terem outros olhares”, conclui.

Na Luz, a proximidade física entre os equipamentos favorece intercâmbios técnicos, circulação de públicos e aproximação entre diferentes linguagens artísticas. Para Yuri Quevedo, o território consolidou-se como um importante polo cultural da cidade.

“O centro hoje é um polo de produção de diversas atividades e o público pode circular muito livremente entre esses equipamentos”, destaca.

Atualmente, a Pinacoteca apresenta as mostras “Paulo Pedro Leal: trágico subúrbio”, “Alice Yura: um ato fotográfico”, a instalação “Nocaute!”, de Pascale Marthine Tayou, e vídeos de Olinda Tupinambá. Já o Museu da Língua Portuguesa mantém a exposição principal e a mostra temporária “FUNK: Um grito de ousadia e liberdade”.

Serviço

Museu da Língua Portuguesa

Dias: Terça a domingo.

Horário: 9h às 18h.

Última entrada: 16h30.

Gratuidade: Entrada franca às terças-feiras e domingos.

Preço: R$ 25 (inteira).

Localização: Praça da Luz, s/nº – Luz, São Paulo – SP (Estação da Luz).

Pinacoteca de São Paulo

Horário: Quarta a segunda, 10h às 18h (entrada até 17h).

Fechamento: Terças-feiras.

Gratuidade: Aos sábados (para todos) e segundos domingos do mês.

Preço Geral: R$ 40 (inteira) / R$ 20 (meia).

Edifícios: Pina Luz (Pça da Luz, 2), Pina Estação (Lg. General Osório, 66), e Pina Contemporânea (Av. Tiradentes, 273).

Quintas-feiras (Pina Luz): Horário estendido até 20h, com entrada gratuita a partir das 18h.

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