Filho de Benito de Paula, o cantor, pianista e ator Rodrigo Vellozo compartilha sua visão sobre música popular brasileira, a importância da transmissão oral em contraste com as métricas digitais e os limites entre o popular e o erudito. Além disso, fala da regravação do disco de 1976 de seu pai, álbum que completa 50 anos de carreira, e da importância de Benito em sua trajetória, como legado e inspiração para suas escolhas.
Vellozo é o convidado do podcast Sabe Som?apresentado por Thiago França. Durante a conversa, o artista revelou que a ideia de regravar o álbum partiu do próprio pai, após um show na Virada Cultural.
“Na verdade, eu estava já com a ideia. Meu pai me pediu pra fazer esse disco. Eu já regravei mil vezes a obra do meu pai. Meu segundo disco, meu pai estava fazendo 40 anos de carreira e eu recebi o convite para fazer o disco com a obra dele, “Como é bonito o Benito”, que tem as participações do Xande de Pilares, Diogo, Péricles”, conta. “Depois eu fiz um disco com o Marcus Preto que chama “Cada lugar na sua coisa” e aí os discos que a gente fez (diz, se referindo ao apresentador Thiago França) com muitas participações”, recorda.
Rodrigo Vellozo lembra do processo nos estudos de piano e as referências que teve com seu pai e faz uma análise entre os limites entre o popular e o erudito. “Acho curioso, não sei como está hoje. Quando eu entrei na faculdade de piano, era erudito. Se você quisesse fazer piano popular tinha que dizer ‘popular’. E piano já implica um negócio eurocêntrico. Acho que isso já está em desconstrução. Ao menos na época que eu estava pesquisando para escrever alguns artigos, a minha própria faculdade, na descrição do curso, já fazia o mea culpa”, afirma. “Eu me lembro que eu fiz a faculdade de piano erudito e eu via a mão do meu pai e falava: ‘Caraca, tá errado’. Eu olhava, não sei o que, aquela coisa bem colonizada da época que eu aprendi o instrumento. É uma maneira que, na verdade, é legal de você saber, mas é só uma maneira de fazer. Há outras. E aí eu fui desconstruindo depois aquilo nos meus próprios dedos e na minha cabeça, principalmente. Desconstruindo esse entendimento da música dessa forma. Tanto que agora, por exemplo, eu tô fazendo um show também com o repertório do Chico Buarque”, diz.
Vellozo conta que foi estudar teatro e isso ajudou na construção da sua persona artista e que, apesar da formação clássica erudita, sempre soube que iria transitar por outros caminhos. “Eu sempre soube que nunca ia ser concertista. Eu lembro que meu professor falou: ‘Poxa, você é tão talentoso, mas isso não é um elogio’. Porque na realidade muito cara bom acaba não ficando ali, eles vão fazer a cabeça em outro lugar. Para mim foi importante ter contato com essa cultura, poder incluir no meu trabalho.”
E se recorda de uma passagem curiosa de sua vida envolvendo o pai. “Fui tocar em bingo para pagar a Berkley. Era um negócio assim que você entrava, eram dois ou três dias, pagava bem na época. E era assim, 20 minutos em cada bingo, você passava a madrugada. Saía sete da noite e voltava às sete da manhã”, lembra. “E aí meu pai falou assim: ‘Filho, ninguém vai te ouvir cantar. As pessoas estão lá para jogar. Então, antes de começar você deseje boa sorte no jogo’. E aí foi uma super dica, todo mundo passou a me aplaudir e tal”, diverte-se.
Ó podcast Sabe Som? vai ao ar toda sexta-feira às 15h e está disponível nas principais plataformas de áudio, como Spotify e YouTube Music.
Ouça o episódio do podcast abaixo:

