Trump em Pequim: por que os EUA já não conseguem ditar as regras sozinhos

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A visita de Donald Trump a Pequim atraiu atenção mundial porque é um fato que a paz global e a estabilidade econômica só têm a ganhar com um entendimento entre os líderes das duas gigantes potências.

Embora haja uma tentação de comparar esta visita com a viagem de Trump durante seu primeiro mandato, também cabe uma comparação com o encontro entre Joe Biden e Xi Jinping, em novembro de 2023, à margem da Cúpula da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (Apec), em São Francisco (EUA). Embora muito diferente em forma, por não se tratar de uma visita de Estado, aquele encontro também teve o significado de reduzir tensões e retomar o diálogo após um período de deterioração nas relações. Não produziu uma grande reviravolta, mas ajudou a estabilizar a relação por meio de medidas de construção de confiança voltadas a reduzir o risco de erros de cálculo em momentos de crise. Na ocasião, os dois lados concordaram, por exemplo, em restabelecer contatos militares de alto nível, suspensos após a escalada de tensões em 2022.

A recente visita de Trump, com toda sua pompa e circunstância, teve exatamente esse propósito: impedir que a competição e as fortes divergências deslizem para a confrontação. Desta vez, porém, a agenda e os pontos de atrito e divergência são mais complexos, em razão da agressividade e dos erros estratégicos cometidos por Trump.

Os dois países têm visões muito diferentes sobre três conflitos militares que ganharam destaque nos últimos tempos: a guerra na Ucrânia, a guerra de Israel contra o povo palestino e a guerra israelo-americana contra o Irã. Esta última vem gerando impactos econômicos e sociais em escala global. Sobre esses temas, há pouco a fazer além de concordar em discordar.

Da mesma forma, este encontro não foi o fórum para discutir as ações dos Estados Unidos voltadas a conter o avanço da influência chinesa na América Latina, no marco da recentemente declarada “Doutrina Donroe”, com resultados bastante visíveis na Venezuela, no Panamá e agora em Cuba, entre outros países. A única questão geopolítica que estava à mesa, como sempre, diz respeito a Taiwan, justamente para deixar claros os limites diante da imprevisibilidade e da forma agressiva com que Trump desorganiza negociações em múltiplas frentes. Em outras palavras, Trump precisa ser constantemente lembrado de que utilizar a carta de Taiwan para ganhar poder de barganha em negociações comerciais ou tecnológicas não será aceitável.

A agenda negociável concentrou-se nas relações econômicas: tarifas, restrições de acesso e exportação de tecnologia e a presença de capital estadunidense na China.

Por que se pode afirmar que não há condições para esperar um grande avanço? Pela simples razão de que existem conflitos estruturais que persistem ao longo de múltiplas administrações, desde o governo Obama e sua referência ao “momento Sputnik”. Os Estados Unidos simplesmente não conseguem imaginar e, portanto, não conseguem aceitar, deixar de ser a liderança global incontestável nos planos econômico, tecnológico, político e moral.

Em outras palavras, a síndrome do excepcionalismo americano é real e deve ser entendida como uma ideologia. Nessa visão de mundo, não há espaço para uma lógica de ganhos mútuos. Pode haver acordos parciais e temporários para reduzir tensões e retomar interesses comerciais, mas eles sempre serão tréguas, e não acordos capazes de redefinir estruturalmente a relação entre os dois países. E essa ideologia é compartilhada pelos dois blocos políticos dos EUA, que divergem radicalmente em muitas outras questões.

Há, evidentemente, diferenças de tática e de tom. Mas o consenso implícito ou explícito é que a ascensão da China representa a principal ameaça à liderança dos Estados Unidos; isso vale tanto para a essência do Pivô para a Ásia quanto para o Reconstruir melhor ou o Torne a América grande novamente.

Enquanto a China insiste na possibilidade de uma governança compartilhada, aberta a outros países e baseada em uma lógica de soma positiva, os Estados Unidos parecem, por enquanto, presos a uma lógica de soma zero. Em outras palavras, o avanço tecnológico chinês, mesmo quando útil para a humanidade – como pode ocorrer com tecnologias voltadas à descarbonização e à transição energética – é percebido como uma ameaça à liderança tecnológica estadunidense.

Em teoria, Trump poderia parecer um parceiro de negociação mais fácil porque pensa em termos transacionais, ou seja, em acordos econômicos e comerciais capazes de neutralizar tensões a cada rodada. Isso contrasta, por exemplo, com Biden, que enquadrava a relação em termos de uma nova Guerra Fria ideológica, dividindo o mundo entre democracias e autocracias e chegando inclusive a convocar cúpulas de líderes do que definiam como democracias com esse propósito.

Uma guerra comercial é mais fácil de negociar do que uma guerra ideológica. O problema é a imprevisibilidade e a excessiva autoconfiança de Trump, frequentemente desconectadas da real capacidade de pressão que possui, especialmente em relação à China, onde essa capacidade vem diminuindo relativamente. Uma estratégia baseada em blefes pode funcionar e fazer sentido em negociações privadas, mas se mostra altamente desestabilizadora e contraproducente nas relações internacionais. Além disso, há uma tendência de dobrar a aposta sempre que percebe dificuldades para alcançar seus objetivos.

No entanto, diferentemente dos europeus, a China claramente se preparou para uma possível volta de Trump. Quando ele iniciou, no ano passado, uma avalanche de tarifas, a China foi o único país que respondeu sem hesitação, impondo contratarifas. E quando utilizou a arma da suspensão das exportações de determinados elementos de terras raras, Trump rapidamente percebeu que precisava rever suas táticas em relação à China.

Isso também foi algo observado ao longo dos 16 meses do segundo mandato de Trump: a enorme capacidade de mudar radicalmente de tática quando determinados interesses financeiros ou estratégicos são afetados, simplesmente abandonando a abordagem anterior. Para que isso ocorra, é necessária firmeza do outro lado, como se viu em relação às reivindicações territoriais sobre a Groenlândia, quando Trump encontrou uma frente europeia excepcionalmente unida.

É precisamente essa firmeza, combinada com certa paciência estratégica, que a China precisa exercer diante de Trump, algo facilitado pelos esforços chineses para resistir a pressões, ameaças ou medidas concretas de restrição de acesso a determinados ativos, especialmente no campo tecnológico. Chama atenção que, de uma forma ou de outra, os Estados Unidos ainda não tenham percebido que a tática de bloquear o acesso da China a tecnologias – inclusive pressionando terceiros países, como no caso da ASML, na Holanda – produz o efeito contrário: funciona como um poderoso incentivo para que a China acelere suas próprias capacidades e construa cadeias tecnológicas alternativas.

Dito isso, realismo e cautela são necessários. Se é verdade que a China representa uma potência em ascensão e os Estados Unidos um país em declínio relativo, os EUA ainda são a maior potência econômica, financeira, tecnológica e militar do mundo. O acesso ao mercado estadunidense continua sendo importante para os objetivos de desenvolvimento da China. O mesmo vale para a dominância do dólar e o controle sobre os fluxos globais de petróleo. E Trump e seus assessores sabem disso.

Por fim, é importante analisar o encontro à luz das relações que ambos mantêm com outros países do mundo. Trump certamente cometeu um grave erro ao alinhar-se à obsessão do governo Netanyahu em derrubar o governo de Teerã, e isso constituiu mais um elemento de tensão. Foi justamente essa tensão que reforçou o interesse de muitos países, inclusive aliados tradicionais dos Estados Unidos, em fortalecer ou reaproximar-se da China. Foi o caso do Canadá e de vários líderes europeus que antecederam a visita de Trump à China.

Em resumo, a visita de Trump é importante para que os dois países normalizem suas relações em um contexto de divergências estruturais difíceis de resolver. Ao mesmo tempo, ela também envia ao mundo o sinal de que não há necessidade de se curvar a Trump, e de que a melhor maneira de lidar com sua agressividade e imprevisibilidade deliberada é demonstrar firmeza, afirmar claramente seus interesses e exercer certa paciência. Algo que poucos líderes, como Luiz Inácio Lula da Silva, já vêm praticando, mas que muitos outros começam agora a compreender.

*Giorgio Romano Schutte é doutor, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC), em São Paulo, Brasil, e membro do Observatório da Política Externa e da Inserção Internacional do Brasil (OPEB).

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