A história da reunião da CIA em Havana: negociações, pressão e ameaça contra Cuba

Publicada em

Em um fato sem precedentes na história, na última quinta-feira (15), uma delegação do Governo dos Estados Unidos, liderada pelo diretor da Agência Central de Inteligência (CIA), John Ratcliffe, chegou a Havana para se reunir com representantes do Ministério do Interior de Cuba.

É a primeira vez que há registro da visita de um chefe da agência de inteligência dos Estados Unidos à ilha desde o triunfo da Revolução. Além disso, Ratcliffe tornou-se o funcionário de mais alto escalão a viajar para Cuba desde que Washington intensificou sua campanha de pressão contra o país caribenho.

A visita foi solicitada pela administração Trump e aprovada pela “Direção da Revolução”, como parte dos esforços da ilha para contribuir com o diálogo político entre ambas as nações e enfrentar o cenário atual, segundo explicou Havana por meio de um comunicado.

A delegação dos Estados Unidos teria insistido para que Cuba deixe de oferecer refúgio ou permitir operações de “adversários do hemisfério ocidental”. Sem apresentar qualquer prova, Washington acusa Havana de permitir uma suposta presença militar da China e da Rússia na ilha – o que incluiria uma base de espionagem chinesa –, além de abrigar membros de organizações que a Casa Branca classifica como “terroristas”.

Trata-se de acusações que Havana vem negando reiteradamente, classificando-as como “mentiras” cujo objetivo é justificar o bloqueio econômico e as agressões dos Estados Unidos.

Durante as conversas, a parte cubana reiterou que a ilha “não representa uma ameaça à segurança nacional dos EUA”, segundo informaram as próprias autoridades cubanas, ao mesmo tempo em que o país caribenho reafirmou sua posição histórica de rejeição ao terrorismo “em todas as suas formas e manifestações”.

“Mais uma vez, ficou evidenciado que a ilha não abriga, não apoia, não financia nem permite organizações terroristas ou extremistas; tampouco existem bases militares ou de inteligência estrangeira em seu território, e Cuba jamais apoiou qualquer atividade hostil contra os EUA nem permitirá que, a partir de seu território, sejam realizadas ações contra outra nação”, afirmou Havana em comunicado oficial.

Nesse mesmo dia, um drone de vigilância da Marinha dos Estados Unidos – um MQ-4C Triton, utilizado em missões de inteligência, vigilância e reconhecimento – entrou no espaço aéreo cubano, segundo dados públicos de rastreamento aéreo. A aeronave voava com o transponder ligado, permitindo deliberadamente que sua presença fosse identificada.

Propaganda, diplomacia e guerra

A viagem de John Ratcliffe a Havana acontece em um dos momentos mais dramáticos para a ilha. O bloqueio petrolífero deixou o país “sem nenhuma reserva” de combustível, segundo informou recentemente o ministro da Energia, Vicente de la O Levy, que classificou a situação como “extremamente tensa”.

As recentes agressões provocaram a retirada de um dos maiores investimentos estrangeiros no país: a mineradora canadense Sherritt, peça-chave para as exportações cubanas. Ao mesmo tempo, as transportadoras marítimas internacionais Hapag-Lloyd e CMA CGM, dedicadas ao transporte de mercadorias, decidiram suspender suas operações na ilha.

Sem energia para o funcionamento básico, com o comércio exterior paralisado e sem a chegada de insumos essenciais, os Estados Unidos mantêm o país sob um cerco total: a aplicação prática da tão propagandeada “paz pela força”.

No entanto, a pressão de Washington caminha sobre uma linha tênue: busca desmontar o sistema político e econômico cubano sem provocar um caos absoluto na ilha, enquanto setores da direita cubano-americana na Flórida, com seu poder de lobby, pressionam para que a Casa Branca adote uma postura ainda mais confrontadora.

Diferentemente dos encontros anteriores, essa comitiva dos Estados Unidos não pertencia ao Departamento de Estado chefiado por Marco Rubio. Sem vazamentos nem operações midiáticas prévias, a intenção foi deixar um registro institucional do encontro. De fato, a própria agência de inteligência divulgou publicamente as fotografias do encontro, como se fosse uma reunião diplomática tradicional.

Ao mesmo tempo em que a reunião se tornava pública, surgiu também a notícia de que o Departamento de Justiça dos EUA, por meio de uma promotoria sediada em Miami, estaria impulsionando uma ação judicial contra o líder histórico da Revolução, Raúl Castro.

A acusação apontaria para a suposta responsabilidade do general Raúl Castro em um incidente ocorrido em fevereiro de 1996, quando aviões MiG-29 cubanos derrubaram duas aeronaves da organização “Hermanos al Rescate”, grupo de exilados em Miami.

Entre agressões e mesas de negociação

Não é o primeiro encontro que os dois países mantêm desde que a Casa Branca impôs o cerco energético e o bloqueio petrolífero contra Cuba.

No fim de fevereiro, funcionários do governo dos Estados Unidos vazaram a informação de que os dois países estavam mantendo conversas. Segundo o que foi divulgado, o secretário de Estado, Marco Rubio, teria mantido “conversas secretas” com Raúl Guillermo Rodríguez Castro, conhecido como “El Cangrejo” (neto de Raúl Castro e chefe de sua segurança pessoal).

Durante várias semanas, Havana evitou falar sobre o tema e limitou-se a afirmar que existiam “contatos” entre ambas as administrações. No entanto, diante das operações e especulações midiáticas – nas quais se afirmava que as “negociações” estavam sendo realizadas pelas costas do presidente Miguel Díaz-Canel –, o governo cubano divulgou um vídeo no qual o mandatário, durante uma reunião do Conselho de Ministros, afirmava que haviam sido iniciadas conversas e que estas se encontravam em “fases iniciais” e “distantes” de um acordo.

Ao mesmo tempo, o presidente ressaltava que as negociações estavam sendo conduzidas pessoalmente por ele junto a Raúl Castro. “É preciso lembrar que não foi nem é prática da liderança da Revolução Cubana responder a campanhas especulativas sobre esse tipo de tema”, afirmava no vídeo Díaz-Canel, em referência aos rumores e operações que circulavam, acrescentando que o processo estava sendo conduzido com “seriedade e responsabilidade”, por se tratar de uma questão muito sensível.

Longe de se tratar de um simples diálogo – algo ao qual Cuba jamais se negou –, a situação se assemelha mais a uma negociação em um contexto de guerra. Washington busca fazer com que o desespero econômico, assim como o sofrimento provocado na população da ilha, obriguem Cuba a realizar transformações ou concessões que, em outras circunstâncias, não faria.

Em 11 de abril, funcionários do Departamento de Estado dos Estados Unidos viajaram para Havana, onde mantiveram reuniões com representantes do governo cubano. Foi a primeira vez que uma aeronave do governo dos Estados Unidos chegou a Cuba em dez anos, desde a visita do ex-presidente Barack Obama à ilha.

Novamente, a informação veio a público a partir do vazamento de um funcionário dos Estados Unidos. Segundo o que foi divulgado, durante esse encontro, a delegação dos Estados Unidos teria advertido o governo cubano sobre o curto prazo disponível para evitar um agravamento da crise humanitária na ilha. Além disso, teria solicitado autorização para instalar internet em Cuba por meio dos satélites Starlink, propriedade do magnata Elon Musk.

Embora, desde o início do bloqueio energético, o governo Trump tenha assegurado que “todas as opções estavam sobre a mesa”, a partir de meados de abril as ameaças de uma possível incursão militar começaram a se tornar cada vez mais frequentes. A data coincide com o agravamento do envolvimento militar de Washington na guerra contra o Irã.

A ideia de que, “uma vez terminada a guerra contra o Irã”, Cuba “seria a próxima” começou a ocupar um lugar central no discurso de Donald Trump. Isso acendeu o alerta em Washington.

No Senado dos Estados Unidos, um setor do Partido Democrata tentou limitar a capacidade de Trump de empreender ações militares sem a aprovação do Congresso, mas a iniciativa acabou sendo bloqueada pelos republicanos.

Ao mesmo tempo, Washington intensificou os voos de reconhecimento militar e de inteligência ao redor da ilha, enquanto a Casa Branca voltou a ampliar a asfixia contra Havana, expandindo o caráter extraterritorial do bloqueio.

Source link