Para José Martí, independência de Cuba era parte de um projeto maior para a América Latina

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Três balas o atravessaram. José Martí cavalgava a galope, com o sol na testa, quando a morte finalmente o encontrou naquele 19 de maio de 1895, no campo de batalha.

Jornalista, pedagogo, poeta e um dos líderes mais destacados na luta pela independência, Martí é considerado o Apóstolo de Cuba. Toda a sua vida foi dedicada ao sonho da emancipação social e política, não apenas de seu país, mas de toda a América Latina e do Caribe.

Apenas um dia antes de sua queda em combate, e em meio aos preparativos para o enfrentamento com o exército espanhol, Martí escreveu em seu caderno de anotações uma carta — que ficaria incompleta — ao seu amigo Manuel Mercado, documento que passaria para a história como seu testamento.

Naquelas anotações, ele escreve: “Já estou todos os dias em perigo de dar minha vida pelo meu país e pelo meu dever — pois o compreendo e tenho forças para realizá-lo — de impedir, a tempo, com a independência de Cuba, que os Estados Unidos se estendam pelas Antilhas e caiam, com essa força a mais, sobre nossas terras da América.”

As entranhas do monstro

Suas palavras revelam a visão de futuro que Martí tinha, na qual a guerra de independência de Cuba fazia parte de uma longa luta pela emancipação da Nossa América, afirma Lil María Pichs Hernández, subdiretora de coordenação do Escritório do Programa Martiano de Cuba, em conversa com o Brasil de Fato.

“Este homem, que vê a morte em seu horizonte, que vê a morte à sua frente, está recapitulando sua vida e as ações que tomou. E, naquele momento, diz que tudo o que fez e que o levou àquele ponto foi para impedir o avanço e a expansão dos Estados Unidos da América sobre o continente e sobre o mundo. Isso nos dá a medida da visão de futuro que Martí tinha”, destaca Hernández.

No final do século 19, Cuba ainda era uma das últimas colônias do Reino da Espanha. Apesar das tentativas de independência, incluindo a Guerra dos Dez Anos (1868-1878) e a Guerra Chiquita (1879-1880), a ilha ainda não havia conseguido se libertar do domínio colonial.

Naqueles anos, os Estados Unidos começavam a projetar sua influência neocolonial sobre o continente. Após seu segundo exílio forçado na Espanha, depois de ser expulso de Cuba por sua participação na Guerra Chiquita, Martí conseguiu escapar para os Estados Unidos em 1880, onde viveria quase 15 anos.

Esses seriam anos frenéticos na carreira de Martí: ele fundou e deu aulas em uma escola para trabalhadores migrantes, cubanos e porto-riquenhos; trabalhou como correspondente para alguns dos jornais em espanhol mais importantes da época, como A Nação (Buenos Aires), O Partido Liberal (México) e A opinião nacional (Caracas).

Seu prestígio chegou a tal ponto que vários governos latino-americanos o nomearam seu representante oficial em Nova York. Foi cônsul do Uruguai (1884-1891), cônsul da Argentina (1890-1891) e cônsul do Paraguai (1890-1891), cargos aos quais renunciou para dedicar todos os seus esforços à causa da independência de Cuba.

Durante esses anos, Martí conheceu de perto o auge do capitalismo e o surgimento do imperialismo estadunidense. Dono de uma impressionante capacidade de ler seu tempo, aquela experiência lhe permitiu desenvolver uma compreensão aguda da dinâmica que se formava dentro dos próprios Estados Unidos.

“Vivi no monstro e conheço suas entranhas — e minha onda é a de Davi”, escreveria em sua carta incompleta.

Segunda e definitiva independência

Lil María Pichs Hernández aponta que Martí concebia a guerra de independência “como um elo na longa cadeia de libertação e emancipação de Nossa América”.

A busca de Martí não pode ser entendida apenas como uma luta pela independência formal, mas como parte de “uma emancipação da humanidade” contra todos os impérios e “todos os sistemas opressores que desequilibram o mundo em prol dos interesses das classes abastadas”, ressalta.

Tanto é assim que, em abril de 1892, Martí foi um dos principais organizadores e fundadores do Partido Revolucionário Cubano (PRC), uma espécie de frente única que reunia diferentes setores independentistas com o objetivo de romper com a ordem colonial e lutar contra toda dominação estrangeira.

No entanto, para realizar esse projeto, Martí entendia que a luta tinha uma dimensão continental. Por isso, o estatuto da organização estabelecia: “O Partido Revolucionário Cubano se constitui para alcançar, com os esforços reunidos de todos os homens de boa vontade, a independência absoluta da Ilha de Cuba, e fomentar e auxiliar a de Porto Rico”.

Hernández explica que, com a independência de Porto Rico, o plano era construir uma integração antillana que, por sua vez, funcionasse como uma integração mais ampla de Nossa América: uma unidade que permitisse enfrentar os grandes poderes, como os Estados Unidos ou a velha Europa, para que se pudessem construir repúblicas americanas verdadeiramente livres.

“Martí entendia que a agenda internacional de expansão, dominação e intervenção dos Estados Unidos não era — apenas — parte de uma agressividade discursiva para simpatizar com certos setores da sociedade, mas sim uma necessidade, como continua sendo hoje”, aponta.

Além disso, Hernández explica que o imperialismo estadunidense é um sistema que só pode se sustentar por meio da exploração dos recursos de outros países, ao mesmo tempo em que transforma os demais povos em meros mercados para seus próprios produtos.

“Martí percebe que, embora a maioria dos países da América Latina tivesse rompido com suas metrópoles, o que existia era uma independência formal. Foram fundadas repúblicas com hinos, bandeiras e outros atributos, mas com elites locais profundamente antinacionalistas. Repúblicas com setores dirigentes entreguistas, enquanto as antigas metrópoles continuavam controlando as economias das repúblicas americanas”, observa.

Explica que, para Martí, era necessária “uma segunda independência”, na qual Cuba mostrasse o caminho, “construindo uma república nova, uma república diferente, com todos e para o bem de todos aqueles dispostos a se sacrificar por ela”.

No entanto, com a intervenção dos Estados Unidos na guerra de independência de Cuba — o que mais tarde Lenin chamaria de primeira guerra imperialista dos Estados Unidos — e a posterior ocupação militar da ilha, o projeto martiano foi interrompido.

Porto Rico passou a ser anexado pelos Estados Unidos, enquanto Cuba, embora contasse com uma independência formal, transformou-se em uma neocolônia estadunidense. Só seria com a Revolução de 1959 que o projeto de Martí começou a se materializar e a construção da república de Cuba teve início.

Desde então, os Estados Unidos nunca perdoaram a Revolução Cubana por ter decidido construir sua independência. A 131 anos da morte do Apóstolo, e em um contexto de crescente agressividade estadunidense contra Cuba, mais uma vez o que está em jogo é a possibilidade da segunda e definitiva independência de Nossa América.

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