A expansão internacional das empresas chinesas de inteligência artificial e a construção de alternativas tecnológicas ao domínio do Vale do Silício foram a tônica de um evento realizado nesta terça-feira (19), em São Paulo (SP), que reuniu empresários, acadêmicos e representantes institucionais da China e do Brasil.
Chamado de Convergência de Energia dos Brics – IA Sem Limites, o encontro celebrou os dois anos do Centro de Desenvolvimento e Cooperação em Inteligência Artificial China-Brics e marcou o lançamento da Rede Brasileira de Serviços do distrito de Xuhui, em Xangai, um dos principais polos chineses de tecnologia e inovação.
Ao longo do evento, representantes chineses expressaram a ideia de que a inteligência artificial desenvolvida no país asiático pode se consolidar como uma alternativa ao modelo liderado pelas grandes empresas estadunidenses, sobretudo por meio de tecnologias abertas, transferência tecnológica e aplicações industriais.
“Esperamos ajudar os países do Sul Global a construir suas próprias capacidades, incluindo capacidade tecnológica, industrial e formação de talentos”, afirmou Jeff Xiong, secretário-geral do Fórum Acadêmico do Sul Global.
Em uma das falas mais políticas do encontro, Xiong afirmou que empresas chinesas precisam compreender que o setor de inteligência artificial opera em um ambiente de disputa geopolítica e influência econômica dos Estados Unidos.
“Os Estados Unidos não têm esse interesse”, disse, ao comparar o modelo chinês de cooperação tecnológica com a atuação das empresas estadunidenses.
O representante também defendeu o fortalecimento da soberania digital dos países do Sul Global e citou a possibilidade de desenvolvimento de aplicações locais de IA no Brasil sem dependência de plataformas como Google. Segundo ele, a tecnologia chinesa de código aberto poderia permitir que agricultores brasileiros desenvolvam soluções próprias “sem preocupação de deixar os dados para os EUA”.
Segundo representantes do governo local, o distrito de Xuhui concentra mais de 1,7 mil empresas de inteligência artificial, além de universidades e centros de pesquisa voltados ao setor. O vice-secretário do comitê distrital de Xuhui, Wang Hua, ressaltou as aplicações industriais da IA e afirmou que a cooperação entre China e Brasil pode abrir uma nova etapa de integração tecnológica.
“Esperamos que ambos os lados aproveitem plenamente suas vantagens e recursos para criar uma plataforma de cooperação entre empresas chinesas e brasileiras e explorar conjuntamente caminhos pioneiros para o uso da inteligência artificial”, disse.
Já Bai Chinhui, conselheiro comercial do Consulado-Geral da China em São Paulo, afirmou que o Brasil é “a maior economia da América Latina” e que os dois países devem “abrir um novo capítulo de cooperação” em áreas como inovação tecnológica, manufatura inteligente e economia digital.
“As atividades realizadas hoje irão construir uma plataforma de intercâmbio mais prática e eficiente entre empresas dos dois países e injetar novo impulso para futuras cooperações”, afirmou.
O Centro de Desenvolvimento e Cooperação em Inteligência Artificial China-Brics foi lançado em julho de 2024 com participação de 44 especialistas de oito países do bloco e quatro organizações internacionais. A rede hoje reúne instituições de dez países. O centro também mantém parcerias com universidades e empresas brasileiras, incluindo iniciativas de inovação desenvolvidas junto à Universidade de São Paulo (USP).
Infraestrutura e economia real
Além das plataformas de IA, o encontro teve presença de empresas ligadas à infraestrutura digital, automação industrial e data centers.
José Miguel Vilela, representante da V.tal, destacou que o Brasil possui vantagens competitivas para receber investimentos em data centers, como disponibilidade energética, matriz renovável e infraestrutura de fibra óptica. “Brasil é muito receptivo à China”, afirmou.
Executivos chineses também defenderam aplicações de inteligência artificial voltadas à produção industrial, ao agronegócio e à gestão energética. Wang Taoyuan, da Shanghai Infrawaves Technology, apresentou soluções de integração entre hardware e software para conectar máquinas industriais em larga escala.
O deputado estadual Paulo Fiorilo (PT-SP), presidente da Comissão de Relações Internacionais da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), afirmou que a inteligência artificial deve ser integrada às políticas públicas “com uso consciente e respeito a princípios éticos e sociais”.
Segundo ele, os Brics podem desempenhar um papel estratégico na construção de mecanismos multilaterais de governança tecnológica.

