A crise do financiamento rural e a necessidade de novas alternativas

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A democratização do crédito é um dos grandes desafios, e também uma das maiores oportunidades, para transformar a economia brasileira. Historicamente, o acesso a financiamento ficou concentrado em grandes instituições financeiras, que operam com critérios muitas vezes incompatíveis com a realidade da agricultura familiar e das pequenas cooperativas. Mas as notícias recentes sobre o endividamento do agronegócio brasileiro revelam um problema ainda mais profundo: talvez não estejamos diante apenas de uma desigualdade no acesso ao crédito, mas de sinais claros de esgotamento do próprio modelo de financiamento rural dominante no país.

Nesta semana, uma reportagem da Folha de São Paulo trouxe novos detalhes sobre as articulações em curso para uma ampla renegociação de dívidas do agronegócio em tramitação no Senado, estimadas em cerca de R$ 180 bilhões. A proposta envolve recursos públicos, fundos garantidores e mecanismos de alavancagem financeira. O pacote prevê a utilização de sobras do Plano Safra, recursos do Fundo Social do pré-sal e um aporte do governo federal de até R$ 20 bilhões no Fundo Garantidor para Investimentos (FGI), que seria incluído como lastro para as renegociações.

Esta articulação amplia medidas já aprovadas pela Câmara dos Deputados no ano passado, que previam o uso de recursos do Fundo Social do pré-sal para a renegociação das dívidas do setor, alongamento dos prazos de pagamentos para até 10 anos, sendo 3 anos de carência, e taxas de juros de 3,5 a 7,5%. Os dados apresentados pela senadora Tereza Cristina (PP-MS), ex-ministra da agricultura e uma das principais vozes do agronegócio brasileiro, estimam que cerca de R$ 170 bilhões da carteira de crédito rural encontram-se em situação considerada “estressada”, envolvendo operações vencidas ou próximas do vencimento.

Vale lembrar que o Plano Safra vem batendo recordes no volume de recursos a cada safra desde o início do atual governo. O Ministério da Agricultura já anunciou que o próximo Plano Safra, que deverá ser anunciado em junho, irá superar os R$ 516 bilhões do orçamento atual, se tornando o maior volume de subsídio público para o setor em uma safra.

Mais do que um problema conjuntural, isso expõe as fragilidades de um modelo cada vez mais financeirizado. A lógica do crédito deixa de servir prioritariamente à produção e passa a alimentar ciclos contínuos de endividamento, rolagem de dívidas e dependência de mecanismos públicos de sustentação financeira.
Enquanto bilhões são mobilizados para renegociar dívidas de grandes cadeias produtivas, cooperativas da agricultura familiar seguem enfrentando enormes dificuldades para acessar crédito básico de custeio e investimentos, muitas vezes por não possuírem as garantias exigidas pelos bancos.

No Brasil, a agricultura familiar representa cerca de 77% das unidades de produção do país e emprega mais de 10 milhões de pessoas, segundo dados do Censo Agropecuário do IBGE. Ainda assim, recebe uma parcela muito menor do crédito disponível quando comparada ao agronegócio tradicional e enfrenta condições muito mais restritivas de financiamento.

Nesse cenário, a desintermediação financeira surge como uma alternativa concreta para, além de ampliar o acesso ao crédito, reconstruir a relação entre capital, produção e território, aproximando investidores da economia real e reduzindo a dependência de estruturas financeiras concentradas.

Isso não significa que iniciativas privadas ou mecanismos alternativos de financiamento possam substituir o papel das políticas públicas. Pelo contrário. A experiência brasileira mostra que o crédito rural continua profundamente dependente da atuação do Estado, especialmente no caso do agronegócio. O desafio é justamente enfrentar a enorme assimetria na distribuição desses recursos. Enquanto bilhões são direcionados para sustentar grandes cadeias produtivas de commodities, a agricultura familiar e a reforma agrária seguem historicamente subfinanciadas. Experiências como o Finapop não pretendem resolver sozinhas esse desequilíbrio estrutural, mas podem ajudar a apontar caminhos e aprendizados para a construção de políticas públicas mais democráticas, territorializadas e adequadas à realidade da agricultura familiar.

Ao conectar diretamente investidores a cooperativas da agricultura familiar e da reforma agrária, o Finapop busca construir um modelo de financiamento mais transparente, acessível e alinhado às dinâmicas produtivas locais e à economia real. A lógica muda: o dinheiro deixa de circular apenas entre bancos e fundos tradicionais e passa a fortalecer cadeias produtivas que geram alimentos saudáveis, trabalho, renda e desenvolvimento local.

Para as cooperativas, esse modelo significa mais autonomia e acesso a crédito adequado às suas necessidades produtivas, seja para capital de giro, agroindustrialização ou ampliação da produção. Já para quem investe, a experiência deixa de ser abstrata: é possível saber exatamente para onde o recurso está indo e quais impactos sociais, ambientais e econômicos ele ajuda a gerar.

Os números mostram que esse caminho já está em curso. Neste mês de maio, o Finapop atingiu a marca de R$ 1001 milhões em crédito que foram utilizados para financiar 170 projetos espalhados por todo o território nacional, beneficiando cerca de 25 mil famílias agricultoras organizadas em cooperativas e associações.

Apenas em 2025, a plataforma eletrônica de investimento coletivo do Finapop reuniu mais de mil investidores de diferentes regiões do país em operações voltadas ao fortalecimento de cooperativas da reforma agrária.

Mais do que uma inovação financeira, a desintermediação do crédito representa uma mudança de lógica econômica e política. Ela permite que o investimento deixe de ser apenas uma ferramenta de acumulação e passe também a cumprir um papel social: fortalecer cooperativas, impulsionar a agroecologia, democratizar oportunidades e aproximar o capital das necessidades concretas da sociedade.

Se até o agronegócio altamente integrado ao sistema financeiro depende de renegociações bilionárias e garantias públicas para sobreviver, talvez seja hora de discutir não apenas quem recebe crédito no Brasil, mas também quais formas de financiamento estamos decidindo sustentar.

* Luis Costa é diretor-executivo do Finapop; Maura Silva é integrante da equipe de comunicação.

***Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

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