No próximo domingo (31), a Marcha da Maconha Fortaleza (MFF) chega à sua 18ª edição ocupando as ruas da capital cearense com o tema “Ceará que planta libertação, marcha pela legalização”. Em defesa da regulamentação da cannabis e da revisão da política proibicionista brasileira, o evento, que tem concentração a partir das 15h, na Estátua de Iracema, integra o calendário do Maio Verde – mês dedicado às pautas canábicas – e se consolida como um dos maiores movimentos sociais do Ceará.
Além da marcha, o movimento realizou, no último sábado (23), o 2º Festival de Cultura Cannábica do Ceará, com oficinas interativas, acolhimento médico e veterinário e rodas de conversa especializadas. O festival contou ainda com apresentações culturais e a tradicional feira de economia criativa, reunindo artesãos, tabacarias especializadas, produtos naturais e associações de pacientes.
A cofundadora da Marcha da Maconha Fortaleza e integrante da Rede Nacional de Feministas Antiproibicionistas, Tamára Cesário, destaca que a programação do Maio Verde em Fortaleza, desde o festival até a marcha, busca aproximar a sociedade das pautas defendidas pelo movimento de maneira prática. “O festival leva as nossas pautas de uma maneira concreta para a sociedade. A gente oferece acolhimento, acesso a associações de pacientes, debates, oficinas e informações relacionadas ao preparo da cannabis enquanto medicamento”, explica.
Reunindo pacientes, mães, profissionais da saúde, ativistas e movimentos sociais, a Marcha da Maconha questiona os impactos da política proibicionista, especialmente sobre a população negra e periférica, e, nesta edição, conecta o debate da legalização ao pioneirismo cearense na abolição da escravidão, estabelecendo uma crítica à forma como a chamada “guerra às drogas” segue operando mecanismos de segregação social e racial.

O médico com atuação em Medicina de Família e Comunidade e saúde mental, Ticiano Sampaio, avalia que a Marcha da Maconha também desempenha um papel importante na aproximação entre ciência, saúde pública e sociedade civil. “É onde a ciência encontra a rua. O conhecimento que temos hoje sobre a cannabis permite enxergar com clareza os danos provocados pela guerra às drogas”, diz. Segundo Ticiano, a contradição entre o uso medicinal da cannabis e a criminalização de usuários evidencia as desigualdades produzidas pela política proibicionista. “A mesma maconha que melhora minha prática clínica pode acabar com a vida de um jovem periférico que seja pego com qualquer quantidade. Não é uma questão moral ou criminal, é uma questão de saúde pública”, afirma.
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Entre ciência, cuidado e acesso à saúde
O debate sobre saúde e cannabis medicinal aparece entre os principais temas da edição da marcha deste ano. Sampaio destaca que a cannabis deixou de ser vista apenas como uma “última alternativa” terapêutica e passou a ocupar espaço crescente na medicina baseada em evidências. “Ela saiu do lugar de última esperança e virou uma ferramenta com evidência crescente”, afirma. Segundo o médico, já existem evidências sólidas para o uso da cannabis em tratamentos de epilepsia e dores crônicas, enquanto estudos recentes também apontam benefícios para a saúde mental, distúrbios do sono e neurodivergências.
De acordo com Sampaio, uma meta-análise publicada em 2025 mostrou efeitos positivos do uso da cannabis em pessoas autistas, especialmente na redução da ansiedade, melhora da interação social e diminuição de comportamentos disruptivos. Ainda assim, ele ressalta que os efeitos variam entre pacientes e que não existem soluções milagrosas. “Existem respostas terapêuticas incríveis, mas o registro anedótico não é científico”, pontua.

Por outro lado, a cofundadora da marcha aborda que, embora o debate sobre a cannabis medicinal tenha avançado nos últimos anos, os efeitos da política proibicionista continuam sendo sentidos diariamente nas periferias. “A guerra às drogas impacta diretamente a população negra, as mulheres e as comunidades periféricas. O que a gente vê é muito investimento em repressão e pouco investimento em cuidado, saúde e políticas sociais”, afirma Cesário. Ela aponta ainda que o encarceramento relacionado à Lei de Drogas atinge principalmente mulheres negras e periféricas, muitas vezes responsáveis pelo sustento familiar. “A guerra às drogas não acontece contra substâncias. Ela acontece nos corpos, nos territórios e nas casas das pessoas”, diz.
Apesar do crescimento do debate sobre cannabis medicinal, o acesso ao tratamento ainda é limitado no Brasil. Entre os principais entraves, o médico aponta os altos custos dos produtos e a demora na regulamentação da produção nacional. “O Brasil possui perfeitas condições para cultivo e beneficiamento, mas precisamos ampliar as possibilidades de produção local e facilitar o acesso dos pacientes”, afirma. Sampaio revela ainda o desejo de uma parceria entre o Governo do Ceará e a Prefeitura de Fortaleza para a disponibilização de produtos à base de cannabis no Sistema Único de Saúde (SUS).
Quando o cuidado substitui a punição
Segundo o médico, a política de redução de danos propõe deslocar o debate sobre drogas do campo moral para a esfera da saúde pública. Na avaliação de Sampaio, a discussão deixa de estar centrada na punição ao usuário e passa a priorizar estratégias de cuidado, acolhimento e acompanhamento terapêutico. De acordo com o profissional, alguns de seus pacientes que fazem o chamado “uso adulto” da cannabis apresentaram possíveis benefícios terapêuticos para questões relacionadas ao sofrimento psíquico e à saúde mental. “O papel do profissional de saúde é preservar a integridade do paciente e compreender o contexto em que ocorre o consumo de substâncias”, pontua.
Sampaio também argumenta que o uso desregulado de drogas, álcool, cigarro e até da alimentação pode estar associado a quadros de sofrimento emocional. Nesse cenário, segundo ele, a redução de danos busca transformar padrões de consumo prejudiciais em usos mais seguros e acompanhados clinicamente. Na avaliação do médico, a criminalização de usuários e o encarceramento de pessoas em situação de vulnerabilidade não contribuem para enfrentar o problema e ressalta que “perseguir e encarcerar pessoas que estão lutando contra o próprio sofrimento é desumano”.
A expectativa da organização é reunir centenas de pessoas na Beira-Mar em mais uma edição da marcha. Para Tamára Cesário, ocupar as ruas continua sendo uma forma de pressionar o poder público e manter o debate vivo na cidade. “É importante que a cidade continue olhando para essa pauta. A gente vai para as ruas com alegria, informação, música e reafirmando que também fazemos parte desta cidade”, conclui.
Serviço
18ª Marcha da Maconha Fortaleza (Passeata)
Data: 31 de maio (Domingo)
Concentração: 15h
Local: Estátua de Iracema (Avenida Beira-Mar)
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