‘Diante de um genocídio, todas as forças políticas e sociais, todas as consciências devem ser mobilizadas para derrotá-lo’ — Brasil de Fato

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Após o cessar fogo, o sequestro e a posterior liberação de ativistas da Flotilha da Liberdade, e em meio a novas notícias de bombardeios em Gaza, a Câmara de Vereadores de São Leopoldo abriu espaço, nesta segunda-feira (20), para um ato de escuta e solidariedade ao povo palestino.

A Audiência Pública Palestina Livre, promovida pelo mandato do vereador Anderson Etter (PT), em parceria com a Federação Árabe Palestina do Brasil (Fepal), reuniu parlamentares, movimentos sociais e imigrantes palestinos para debater a crise humanitária e denunciar o que organizações internacionais já classificam como genocídio.

A atividade contou com a presença de imigrantes palestinos, como Marmot, um dos sobreviventes de Gaza repatriado pelo governo brasileiro em novembro de 2023, além de parlamentares gaúchos, movimentos sociais e sindicais. O ato teve a apresentação cultural do Grupo Folclórico Palestino Terra RS, que no início leu o poema do médico Ezzideen.

Ao Brasil de Fato RS, o vereador destacou a importância de realizar o evento em solidariedade ao povo palestino logo após o anúncio de um acordo de paz, lembrando que os ataques contra a população seguem ocorrendo. “Mesmo com o acordo de paz, os ataques persistem. É necessário refletir sobre tudo o que o povo palestino enfrenta há mais de 70 anos”, afirmou.

Segundo ele, como uma casa democrática, o Legislativo tem o dever de se manifestar diante de violações de direitos humanos. “Esse não é um problema distante. Há uma relação direta com a comunidade palestina que vive na cidade e na região, mas, sobretudo, é preciso recuperar o espírito humanitário e cultivar empatia”, disse.

O parlamentar contou que recebeu questionamentos sobre a realização da audiência, mas reiterou sua convicção de que o gesto tem profundo significado político. “Temos plena convicção de que esta audiência é necessária. Nosso gesto, para além de um ato de solidariedade, representa um compromisso político e ético com todos os povos, e, especialmente neste momento, com o povo palestino, que enfrenta esse genocídio televisionado, o primeiro da história.”

Ato teve a apresentação cultural do Grupo Folclórico Palestino Terra RS – Foto: Katia Marko

“Sionismo, apartheid e genocídio não se debatem, se combatem”

Durante o ato, o presidente da Fepal, Ualid Rabah, destacou a importância da solidariedade do povo brasileiro à causa palestina e denunciou o que classificou como “o maior extermínio humano de todos os tempos”.

Rabah iniciou sua fala agradecendo às entidades e parlamentares que vêm manifestando apoio ao povo palestino. Segundo ele, apesar da “mídia hegemônica”, mais de 60% da população brasileira hoje se posiciona a favor da Palestina. “Cumprimento especialmente a nossa juventude, brasileira e palestina, que herdará de nós o bastão para continuar essa luta”, afirmou.

O dirigente criticou a antiga “visão hipócrita” de que a causa palestina só poderia ser debatida em espaços públicos se houvesse representantes israelenses presentes. “Como se, para debater o nazismo, fosse preciso um nazista ao lado; como se, para discutir a escravidão, fosse necessário algum herdeiro indignado com a Lei Áurea”, ironizou. “Sionismo, apartheid e genocídio não se debatem, se combatem.”

O primeiro genocídio televisionado

Rabah lembrou que, em 7 de outubro de 2023, a Fepal emitiu uma nota pública alertando que o mundo assistia ao “primeiro genocídio televisionado e anunciado”. Segundo ele, a entidade não tinha “bola de cristal”, mas a experiência e a leitura da propaganda de guerra já indicavam “um extermínio jamais visto na história humana”.

O presidente da Fepal afirmou que o alerta feito à época, criticado até por aliados, se confirmou. Citando dados de diversas fontes, entre elas a revista médica The Lancet e pesquisadores internacionais, disse que o número de palestinos mortos em Gaza já ultrapassa 80 mil, podendo chegar a 177 mil, segundo estudos recentes. “Isso representa 3,65% da população do território, o equivalente a 7,8 milhões de brasileiros exterminados”, comparou.

Ele destacou que o número de mortes corresponde a “177 vezes todas as mortes violentas ocorridas no Brasil em 2024”. “Para atingir essa proporção, o Brasil precisaria repetir, durante 170 anos, o número anual de mortes violentas atuais”, disse. “Na Europa, o equivalente seria 27,5 milhões de mortos, mais do que o dobro das vítimas da Segunda Guerra Mundial.”

“É necessário refletir sobre tudo o que o povo palestino enfrenta há mais de 70 anos”, enfatiza vereador – Foto: Chico Júnior/ Assessoria da Câmara

Extermínio de mulheres e crianças

Rabah chamou atenção para o impacto devastador sobre as mulheres e crianças palestinas. “Independentemente do número total, em Gaza são 10.306 crianças mortas por milhão de habitantes, 3,6 vezes mais do que durante toda a Segunda Guerra Mundial”, disse. “Mata-se em Gaza 4.122 vezes mais crianças do que na guerra entre Rússia e Ucrânia.”

Segundo ele, “o genocídio de crianças e mulheres tem um objetivo: colapsar a capacidade reprodutiva de toda uma sociedade”. Rabah citou relatório do Fundo de População das Nações Unidas, segundo o qual os nascimentos em Gaza caíram 41% no primeiro semestre de 2024. “Mais de 60 mil crianças palestinas foram exterminadas do futuro, simplesmente por não terem nascido”, ressaltou.

Ele informou ainda que 14 mil mulheres foram mortas, mil delas grávidas, e que os abortos involuntários aumentaram 300%. “É o assassinato dentro dos ventres”, disse. “O extermínio de mulheres e ventres é parte do plano de destruição total de uma população.”

Ataques a jornalistas, profissionais de saúde e à ONU

O presidente da Fepal afirmou que o número de jornalistas mortos em Gaza, 275, é o maior já registrado na história. “Durante toda a Segunda Guerra Mundial, foram 69. Se comparássemos a escala, seria como se 191 mil jornalistas tivessem sido mortos na Europa daquele período”, destacou. “O objetivo é eliminar as testemunhas privilegiadas do genocídio: jornalistas, profissionais de saúde, socorristas e funcionários da ONU.”

Ele também citou os 203 funcionários da ONU e 1.701 profissionais de saúde mortos, além de 113 trabalhadores da defesa civil. “Israel inaugurou um novo sistema de guerra em Gaza: o duplo ataque. Ataca-se uma localidade e, quando chegam jornalistas e socorristas, ataca-se novamente”, afirmou.

A destruição de Gaza é total

De acordo com Rabah, 192 mil edifícios foram destruídos, o equivalente a “quatro ou cinco vezes a cidade de São Paulo completamente arrasada”. Ele acrescentou que a carga explosiva lançada sobre Gaza, de 85 a 92 mil toneladas, é “de seis a sete vezes superior à da bomba atômica de Hiroshima”.

“A destruição em Gaza está próxima de 80%, e a das residências, de 92%”, disse. “97% dos animais foram exterminados; 100% das plantações, padarias, fábricas de farinha e depósitos de alimentos da ONU foram destruídos. Trata-se de uma solução final continuada, administrada pelos Estados Unidos.”

Rabah ressaltou que o que ocorre em Gaza é “um genocídio televisionado, que pela primeira vez afeta as subjetividades de cada cidadão comum”. “É como se as câmaras de gás tivessem sido televisionadas. Como se as senzalas deste país tivessem sido televisionadas. E tudo isso com os Estados Unidos pagando”, afirmou. “Quando o genocídio completou um ano, os EUA já haviam investido 25 bilhões de dólares em Israel, o equivalente a dois milhões e meio de reais para cada palestino abatido.”

” Precisamos falar sobre tudo isso em todos os espaços, e entender que só as palavras não bastam”, afirma Cláudia dos Santos – Foto: Chico Júnior/ Assessoria da Câmara

“A fome segue sendo usada como arma de guerra”

Representando a Frente Gaúcha de Solidariedade ao Povo Palestino, Cláudia dos Santos iniciou sua fala destacando a importância de levar o debate sobre a Palestina a todas as Câmaras de Vereadores do Brasil. Segundo ela, “esse é o tema central da humanidade no momento”, uma responsabilidade coletiva diante de um genocídio que “já dura mais de oito décadas”.

A militante afirmou que a persistência da opressão contra o povo palestino está ligada à cumplicidade dos Estados e ao lucro das empresas militares e multinacionais que se beneficiam da guerra. “Enquanto o sangue palestino é derramado, empresas lucram com a morte”, denunciou.

Santos lembrou que o movimento de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) foi criado e é protagonizado pelos próprios palestinos, articulando sindicatos, movimentos de mulheres, agricultores, refugiados e exilados. “As violências contra os palestinos não se limitam às fronteiras da Palestina. Elas se estendem inclusive ao Brasil, onde recentemente a Polícia Federal tem barrado a entrada de palestinos e submetido famílias a interrogatórios”, relatou.

Rabah ressaltou que o que ocorre em Gaza é “um genocídio televisionado, que pela primeira vez afeta as subjetividades de cada cidadão comum” – Foto: Katia Marko

Ela criticou duramente os grandes meios de comunicação, que, segundo ela, “reproduzem mentiras ditas pelos sionistas” e ocultam a realidade da ocupação e do apartheid. “Nada que vem dos sionistas é embasado em verdade. Por isso precisamos falar sobre tudo isso em todos os espaços, e entender que só as palavras não bastam”, enfatizou.

Santos reconheceu o posicionamento do presidente Lula, que em janeiro de 2024 reconheceu formalmente o genocídio em Gaza, mas ressaltou que o extermínio do povo palestino “ocorre há mais de 80 anos, em um regime de apartheid ainda mais brutal do que o que existiu na África do Sul”.

“O que decresce a cada minuto, infelizmente, é a esperança. Depois desse acordo, 121 palestinos já haviam sido assassinados nos bombardeios, bombardeios que vieram do mar, de drones e de caças”, afirmou.

Segundo ela, o acordo previa a entrada de 600 caminhões de ajuda humanitária por dia em Gaza, mas até o último domingo, desde o dia 10, haviam entrado apenas 175 veículos, número “totalmente insuficiente para alimentar, entregar medicamentos e suprir tudo o que os palestinos precisam”. “A fome ainda está sendo utilizada como arma de guerra, da pior maneira possível. Inclusive, vimos de nossos próprios celulares colonos israelenses interrompendo os caminhões.”

“‘Palestina livre do rio ao mar’ significa uma Palestina livre do apartheid, do genocídio, do colonialismo e do sionismo”, ressalta Rabah – Foto: Chico Júnior/ Assessoria da Câmara

“Nunca guetizar a causa palestina”

Rabah voltou a ressaltar que mais de 60% da sociedade brasileira está hoje contra Israel, de acordo com pesquisas recentes. “Para cada quatro pessoas que apoiam Israel, há 16 que o rejeitam. Isso mostra que as pessoas que defendem a Palestina não estão em um único campo ideológico, político ou partidário”, observou.

Para ele, a causa palestina deve ser entendida como uma luta contra o genocídio, e não como uma bandeira restrita à esquerda. “Nenhuma pessoa deve ser impedida de ser contra o genocídio por ser de esquerda ou de direita. O povo palestino protagoniza uma luta de libertação nacional, e essa libertação é para todos”, afirmou.

Rabah destacou que a Fepal busca representar toda a diáspora palestina no Brasil “sem perguntar em quem cada pessoa votou ou o que pensa”. “Se lá na Palestina se luta para libertar todos, aqui buscamos reunir todos nessa mesma luta”, disse. “Embora seja natural estarmos com nossos melhores aliados, também precisamos dialogar com os que estão equivocados e, hoje, apoiam o genocídio.”

“Contra o genocídio nazista, ninguém perguntou quem era de esquerda ou de direita. É vergonhoso e pornográfico ver dois governadores brasileiros, de São Paulo e de Goiás, em pleno genocídio, beijando na boca o responsável pelo massacre. É como se, na época de Getúlio Vargas, alguém fosse até Auschwitz beijar na boca de Hitler.”

Ao encerrar, o dirigente reforçou o apelo à unidade: “Diante de um genocídio, todas as forças políticas e sociais, todas as consciências devem ser mobilizadas para derrotá-lo. Se o mundo se levantou contra o nazismo, agora precisa se levantar contra o sionismo, que o superou em degeneração, extermínio e perigo para a humanidade”.

“É um projeto de gerir a limpeza étnica”, diz presidente da Fepal sobre bloqueio a Gaza

Ao Brasil de Fato RS, Ualid Rabah, destacou a importância de eventos públicos que promovem o debate qualificado sobre o genocídio contra o povo palestino. Segundo ele, a cobertura midiática não é suficiente para dimensionar a gravidade da situação. “Esse tipo de evento é fundamental, além do grau de institucionalidade que traz. Para nós, é um tipo de atividade essencial.”

Questionado sobre a situação após o acordo internacional, Rabah afirmou que há uma tentativa, liderada pelos Estados Unidos e seus aliados, de “despalestinizar Gaza. “Há uma tentativa de colocar o território sob tutela estadunidense, como um protetorado algo semelhante ao que a antiga Liga das Nações fez ao entregar a Palestina à Inglaterra, promovendo a despalestinização em favor de eurojudeus estrangeiros.”

Ele afirma que o objetivo é prolongar o bloqueio, dificultar a reconstrução e manter o território inabitável. “Eles geram a fome, a reconstrução hospitalar, o sistema de saúde, mantêm a taxa de natalidade baixa e promovem o êxodo dos palestinos. Ou seja, é um projeto de gerir a limpeza étnica, a solução final.”

Bloqueio, genocídio e reconhecimento

Rabah defendeu que a flotilha humanitária é essencial para “desmascarar Estados Unidos, Israel e o Ocidente”. “Se alguém leva ajuda humanitária, está buscando evitar que essas condições permaneçam. E se você impede esse ator, prolonga o genocídio.” Ele lembrou que o artigo 2º, letra C, da Convenção da ONU para a Prevenção do Genocídio considera genocidário o ato de impor condições de vida que levem à destruição de um grupo.

Além disso, impedir a flotilha também bloqueou a presença de testemunhas que poderiam registrar e relatar o que ocorre em Gaza. “Essas pessoas poderiam fotografar, filmar, conversar com as vítimas e até testemunhar na Corte Internacional de Justiça.”

Sobre o crescente número de países que reconhecem o Estado Palestino, Rabah destacou a importância política e simbólica desse movimento. “É fundamental porque rompe o cerco que os Estados Unidos impõem à Palestina no Conselho de Segurança. Esses países passam a poder formular acordos de cooperação, aumentam as possibilidades de a Palestina atuar como Estado soberano e levam sua bandeira a todos os espaços internacionais.”

Ele lembrou também o valor prático do reconhecimento: “Se o Brasil não reconhecesse a Palestina, eu, como descendente de palestinos, não poderia sequer procurar a Embaixada para reivindicar uma herança. Isso é o mínimo, o fundamental.”

“Campo de concentração e extermínio”

Rabah comparou a vida sob ocupação israelense à de um campo de concentração. “Na Palestina vive-se em condições horríveis. Não temos controle sobre exportações nem importações. A moeda é a do ocupante. Há mais de 900 postos de controle em um território do tamanho da Grande São Paulo. Isso sufoca completamente a vida cotidiana.”

Sobre Gaza, afirmou: “A situação é ainda pior, porque está sob cerco e sob extermínio. É um campo de concentração que é, ao mesmo tempo, um campo de extermínio.”

“Palestina livre do rio ao mar”

Encerrando sua fala, o presidente da Fepal explicou o significado do lema. “‘Palestina livre do rio ao mar’ significa uma Palestina livre do apartheid, do genocídio, do colonialismo e do sionismo, uma ideologia fascista, racista e supremacista, análoga ao nazismo.”

Segundo ele, o lema expressa o desejo de aplicação integral do direito internacional e do retorno dos refugiados, conforme a Resolução 194 da ONU. “O mais relevante não é se isso ocorrerá com um ou dois Estados, mas que a Palestina volte a ser um país normalizado na comunidade internacional, do rio ao mar.”

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