A região da Campanha gaúcha deu mais um passo na construção de uma proposta regional para a implantação de uma Zona de Processamento de Exportação (ZPE). Na sexta-feira (12), Candiota sediou o 2º Seminário Regional da ZPE da Região da Campanha, reunindo prefeitos, vereadores, representantes dos governos federal e estadual, setor produtivo, instituições financeiras, movimentos sociais, escolas, universidades e moradores em torno de uma agenda considerada estratégica para o futuro do território.
A proposta busca transformar a região em um polo voltado à industrialização e à exportação, com foco na agregação de valor à produção local, atração de investimentos e geração de empregos. O debate ocorre em um momento em que o território, cuja principal matriz econômica é o carvão mineral, enfrenta os desafios impostos pela transição energética e pela necessidade de diversificar a base econômica.
O encontro também foi marcado por homenagens a Frei Sérgio Görgen, lembrado por diferentes falas como um dos principais incentivadores da proposta. “Vivemos dois sentimentos: a tristeza pela perda do frei e a alegria de ver um de seus sonhos ganhar forma concreta”, resumiu Marcelo Bernal, do Instituto Cultural Padre Josimo, na abertura do seminário. A fala ecoou ao longo do dia e deu o tom político e simbólico do encontro.
ZPE como resposta regional à desigualdade histórica
A mesa de abertura reuniu lideranças de diferentes municípios e consolidou uma leitura comum: a Campanha precisa enfrentar o histórico desequilíbrio de desenvolvimento com instrumentos capazes de gerar dinamismo econômico e garantir a permanência da população jovem no território.
O prefeito de Bagé, Luís Fernando Mainardi (PT), afirmou que a ZPE pode representar uma alternativa concreta para a metade sul do estado. “Nenhum município cresce sozinho. Precisamos transformar as dificuldades em oportunidade e disputar investimentos em igualdade com outras regiões”, defendeu.
Na mesma linha, o prefeito de Hulha Negra e coordenador do grupo de trabalho da ZPE Campanha, Fernando Campani (PT), apresentou a proposta como um projeto estruturante. Segundo ele, a região precisa deixar de exportar apenas matéria-prima e passar a agregar valor dentro do próprio território.
Entre os exemplos citados estão cadeias como leite em pó, batata processada e outros segmentos já presentes na economia regional, que poderiam ganhar escala industrial e capacidade exportadora. “A região precisa gerar renda aqui dentro e transformar o que produz em riqueza para seu povo”, afirmou.
Experiências compartilhadas apontam caminhos
O principal painel do seminário contou com a participação de Rafael Sá, presidente da ZPE Ceará, instalada no Complexo do Pecém, uma das experiências mais consolidadas do país. Ele apresentou o caso cearense como demonstração concreta de que o modelo pode sair do papel e gerar resultados duradouros. “A ZPE é aquilo que se planta hoje para a população colher no futuro”, destacou.
Sá chamou atenção para três fatores considerados decisivos: visão de longo prazo, continuidade institucional e unidade política entre as lideranças locais. Ao elogiar a mobilização regional em Candiota, afirmou que a Campanha já reúne um elemento essencial para avançar: a convergência política em torno de uma pauta comum.

Na segunda mesa do seminário, mediada por Raiane Soares, o debate avançou para a etapa técnica. O secretário-executivo do Conselho Nacional das ZPEs, Fábio Pucci, explicou os critérios exigidos pelo governo federal. Entre eles estão viabilidade econômica comprovada, delimitação territorial clara, vocação exportadora compatível, governança institucional organizada e capacidade de atração de empreendimentos.
Segundo Pucci, a Campanha reúne elementos relevantes pela posição geográfica, força agropecuária e articulação política. Agora, precisa consolidar esses fatores em uma proposta técnica estruturada. A avaliação do conselho, afirmou, é rigorosa, mas voltada justamente a iniciativas com potencial de reduzir desigualdades regionais e ampliar a capacidade exportadora do país.
Transição energética e novos investimentos
A relação entre ZPE e transição energética apareceu como eixo importante do seminário. Representando a Casa dos Ventos, Pedro Dietrich afirmou que a região ocupa posição estratégica para novos investimentos por reunir disponibilidade territorial, capacidade energética e conexão logística com a fronteira. Para ele, a ZPE pode transformar esse cenário em vantagem competitiva.
Já o diretor da Secretaria de Desenvolvimento Econômico do estado, Rafael de Abreu, reforçou que a região é considerada estratégica dentro da política estadual de desconcentração econômica. A avaliação foi acompanhada pela Invest RS e pelo BRDE, que destacaram possibilidades de apoio institucional e financiamento para a futura implantação.
Outro tema forte foi a permanência da juventude na região. O reitor da Urcamp, Guilherme Cassão, defendeu que desenvolvimento e educação caminham juntos. Segundo ele, discutir exportação e indústria exige pensar também em formação técnica e universitária.
“Desenvolvimento significa oportunidade de permanecer no território, estudar aqui e construir futuro aqui”, afirmou. A fala dialogou com a percepção de que a ZPE pode contribuir não apenas com indicadores econômicos, mas também com uma nova perspectiva de pertencimento e permanência regional.
Próximos passos
Ao fim do encontro, o sentimento predominante foi de que a proposta da ZPE da Campanha deixou de ser apenas uma reivindicação política e entrou em uma fase concreta de estruturação institucional. Entre os consensos construídos ao longo do seminário estão a viabilidade econômica do projeto, a vocação regional para novas cadeias produtivas, a possibilidade de aprender com experiências já implantadas, a existência de instrumentos estaduais e financeiros de apoio e a necessidade de manter a unidade política regional.
Na despedida, Campani retomou a homenagem que atravessou todo o seminário: “Frei Sérgio presente. E boa luta para nós.” A frase sintetizou o espírito de um encontro que combinou memória, articulação política e planejamento de futuro para a Campanha gaúcha.

