Em tempos de emergência climática, defender a natureza deixou de ser apenas uma pauta ambiental. A crise civilizatória que atravessa nosso século não é um fenômeno isolado da sociedade contemporânea e não é resultante apenas de eventos climáticos extremos. O cenário de crises que vivemos é a expressão de um modelo econômico predatório que transforma a natureza em mercadoria e os territórios de vida, em espaços de exploração e expropriação permanente. Suga-se até a última seiva, a última gota, até a morte.
O Rio de Janeiro ocupa um lugar singular neste contexto. Nosso estado acolhe alguns dos mais importantes remanescentes da Mata Atlântica, um dos biomas mais ricos em biodiversidade do planeta e, infelizmente, um dos mais ameaçados. A partir do discurso de desenvolvimento, processos desenfreados de expropriação territorial e degradação ambiental corroboram para o aprofundamento das desigualdades sociais. Como por exemplo sobre o avanço das áreas de pastagens, a monocultura do eucalipto e a expansão das áreas portuárias para exportação de minérios, como o complexo do Açu, no município de São João da Barra, no norte do estado.
Entretanto, os impactos da degradação ambiental não atingem a todos da mesma forma. São os povos indígenas, quilombolas, pescadores artesanais, assentados da reforma agrária, agricultores familiares e moradores das periferias urbanas que sofrem primeiro e com maior intensidade as consequências da destruição ambiental causada pelos proprietários da terra e empresas privadas do agro-hidro-minero-negócio. Essa realidade revela que a questão ambiental é também uma questão de classe, de território e de poder.
Não por acaso, cresce no mundo o debate sobre justiça ambiental. Esse conceito parte do princípio de que os benefícios e os prejuízos decorrentes do uso dos recursos naturais não podem ser distribuídos de forma desigual. Henri Acselrad, no livro Conflitos Ambientais no Brasil (Ediouro, 2004)nos alerta sobre os fins da natureza, em sua essência, no combate à fome ou na compensação sobre os rejeitos da exploração da natureza. Por exemplo, quando uma comunidade perde o acesso à água porque um empreendimento econômico se apropria dos recursos hídricos; quando uma população tradicional vê seu território ameaçado pelo avanço do monocultivo da celulose; ou quando famílias são expostas à contaminação pela pulverização de agrotóxicos, estamos diante de situações que evidenciam a profunda relação entre injustiça social e injustiça ambiental.
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A experiência dos povos do campo demonstra que existem alternativas. A articulação de agroecologia, a agricultura familiar, a economia solidária e as práticas comunitárias apontam caminhos possíveis para uma relação mais equilibrada entre sociedade e natureza. Esses sujeitos produzem muito além de alimentos saudáveis, são guardiões das sementes, protegem nascentes e mantêm conhecimentos ancestrais fundamentais para a sustentabilidade da vida.
Nesse sentido, esse ano o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) lançou a Jornada Nacional em Defesa da Natureza e seus povos: Combater o agronegócio é cuidar da natureza, convocando toda sua militância e parceiros para preparar e organizar ações em seus territórios. A Jornada nos convida a ampliar nosso olhar, reconhecer que a natureza está presente nos territórios periféricos, nas áreas rurais, nos quintais produtivos, nos sistemas agroflorestais, nos manguezais, nas restingas e nas experiências de agricultura urbana e articula esses diversos sujeitos para se juntar a esse momento de solidariedade e cuidado com a natureza, promovendo ações variadas de mobilização e conscientização.
A Jornada da Natureza incentiva a promoção de atividades nos territórios em prol da defesa ambiental e combate à crise climática através de ações articuladas e combinadas de semeadura de espécies florestais. Reafirmando o compromisso: cuidar da terra como quem cuida da própria casa, fortalecer a soberania alimentar e enfrentar a crise climática com organização popular. É reconhecer que o Rio de Janeiro é cidade mas também é floresta que se mistura em uma paisagem única, que precisamos valorizar e conservar.

