‘Bolsonaro prefere perder com o filho a apoiar outro candidato’, diz cientista política após queda de Flávio na Quaest

Publicada em

A queda do senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) nas pesquisas eleitorais traz a tona uma característica histórica do bolsonarismo: a dificuldade do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) em abrir espaço para lideranças fora do núcleo familiar. A avaliação é da cientista política Rosimary Segurado, diretora do Coletivo Digital, em entrevista ao Conexão BdFsim Rádio Brasil de Fato.

Comentando os resultados da pesquisa Genial/Quaest divulgada nesta quarta-feira (10), Segurado afirmou que a liderança do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) representa a consolidação de uma tendência observada nas últimas semanas, impulsionada pelo desgaste enfrentado por Flávio Bolsonaro após os desdobramentos do caso Banco Master.

“Bolsonaro prefere perder com seu filho do que apoiar um outro candidato”, afirmou a pesquisadora ao analisar a resistência do ex-presidente em abrir mão da candidatura do senador mesmo diante da perda de apoio registrada nas pesquisas.

“A candidatura de Flávio Bolsonaro não é apenas a expressão da direita ou da extrema direita. Ela é o desejo de Bolsonaro. Ele quer alguém que seja seu, não quer alguém que represente a direita”, completou Segurado.

O levantamento mostra Lula com 44% das intenções de voto em um eventual segundo turno contra Flávio Bolsonaro, que aparece com 38%. No primeiro turno, o presidente registra 39%, enquanto o senador caiu de 33% para 29% desde maio. A pesquisa também apontou crescimento da rejeição de Flávio, que chegou a 56%, acima dos 53% registrados por Lula.

Para Segurado, o principal significado político dos números não está apenas na vantagem aberta pelo presidente, mas no fato de que a queda do senador ocorre além da margem de erro.

“É uma queda para além da margem de erro. Se até então nós trabalhávamos um pouco em empate técnico, agora temos esse dado, essa pesquisa que desloca isso. Não é um empate técnico, é um declínio, e é um declínio muito importante dos apoiadores”, avaliou.

Segundo a cientista política, a pesquisa confirma um movimento que já vinha sendo identificado por outros institutos desde a divulgação de informações sobre a relação entre Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master.

“O que a pesquisa da Quaest nos traz é uma confirmação de uma tendência que já vinha sendo apresentada por pesquisas de outros institutos, principalmente depois que começaram a sair informações importantes sobre o envolvimento do senador Flávio Bolsonaro com os escândalos do Banco Master”, afirmou.

Na avaliação da pesquisadora, o enfraquecimento do senador está relacionado principalmente ao comportamento dos eleitores independentes, grupo menos identificado com o núcleo duro do bolsonarismo e mais suscetível aos efeitos da conjuntura política. “Não são aquele grupo fiel, fixo, que vai votar no candidato de qualquer forma. É aquele que nós chamamos de eleitor independente. A pesquisa vai mostrando algumas questões que me parecem muito importantes”, disse.

Enquanto o principal nome do bolsonarismo enfrenta desgaste, Lula tem apresentado melhora gradual nos indicadores de aprovação do governo. A Genial/Quaest mostrou que 47% dos entrevistados aprovam a gestão petista, enquanto 48% desaprovam. A diferença já chegou a nove pontos percentuais em levantamentos anteriores.

Para Segurado, algumas iniciativas recentes do governo começam a produzir efeitos na percepção do eleitorado. “Essa melhoria vem lenta, ela não é expressiva de uma pesquisa para outra, mas ela se consolida. Não há uma retração. Quando trabalhamos com pesquisa, analisamos essa tendência de crescimento”, avaliou.

A cientista política citou medidas como o Desenrola 2.0, a proposta de mudança na tributação do Imposto de Renda e o debate sobre o fim da escala 6×1 como fatores que podem contribuir para a recuperação gradual da popularidade do governo.

Além da disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro, a pesquisadora também comentou o desempenho de outros nomes testados pela Quaest. Para ela, governadores como Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD) enfrentam dificuldades para se diferenciar do bolsonarismo e disputar o mesmo espaço político ocupado pelo senador.

Segurado chamou atenção ainda para o crescimento de Renan Santos, da Missão, que aparece à frente dos dois governadores em alguns cenários testados. “Talvez ele tenha até um pouco mais de condições de aparecer como essa terceira via”, afirmou.

Congresso transforma pautas em disputa eleitoral

Na parte final da entrevista, Segurado avaliou que a disputa eleitoral já influencia o comportamento do Congresso Nacional, mesmo antes do início oficial da campanha presidencial.

Para a pesquisadora, propostas como o fim da escala 6×1 e a redução da maioridade penal, aprovada na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) da Câmara dos Deputados nesta quarta, passaram a ser utilizadas como instrumentos de mobilização política pelos diferentes campos ideológicos.

Ela argumenta que setores da oposição evitam confrontar diretamente pautas com forte apoio popular, como a redução da jornada de trabalho, mas buscam impor desgaste ao governo em outras frentes.

“Votar contra os trabalhadores é um suicídio político. Eles sabem disso, têm essa análise, têm esse cálculo. No entanto, também sabem que é possível criar constrangimentos para a base parlamentar de apoio ao presidente Lula”, afirmou.

Source link