Após a justiça determinar despejo, Samba do Cruz faz vigílias diárias e mantém as rodas do fim de semana

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A sede do Grêmio Esportivo Recreativo Cruz da Esperança, na zona norte de São Paulo, vive dias de vigília permanente desde que a Justiça determinou o cumprimento da ordem de reintegração de posse da área ocupada pelo clube.

A ordem judicial, expedida na última terça-feira (9), autoriza a retirada forçada dos ocupantes, o uso de força policial e a demolição das construções existentes no local. Desde então, a comunidade ligada ao tradicional Samba do Cruz passou a manter presença constante na sede do clube.

“Já estamos lá fazendo vigília todos esses dias”, afirmou ao Brasil de Fato o dirigente conhecido como Tio Toninho. Segundo ele, a mobilização começou ainda no início da semana e segue sem interrupções.

Apesar da insegurança provocada pela decisão, a programação cultural prevista para os próximos dias está mantida, assegura Toninho. Nas redes sociais, o Samba do Cruz segue divulgando as atividades do fim de semana, com roda de samba na sexta-feira (13), Arraial do Quilombo no sábado (14) e a Domingueira do Cruz no domingo (15).

A manutenção da agenda tornou-se também uma forma de afirmar a permanência do espaço diante da ameaça de retirada. Desde a publicação da decisão judicial, os perfis ligados ao Samba do Cruz continuaram convocando o público para as atividades culturais normalmente.

Enquanto acompanha os próximos desdobramentos do processo, o clube também tenta ampliar a articulação institucional em defesa da permanência no local. Segundo Tio Toninho, representantes da entidade buscam reconhecimento do espaço como patrimônio cultural e mantêm contatos com diferentes órgãos públicos. “Estamos tentando”, resumiu.

O dirigente afirma ainda que a defesa do clube apresentou novos pedidos à Justiça para tentar ganhar tempo antes de uma eventual execução da ordem de despejo.

Prefeitura tenta despejo desde março

Fundado em 12 de outubro de 1958 por um grupo de taxistas negros, o Cruz da Esperança se tornou uma referência do futebol de várzea e do samba de raiz na capital paulista. Ao longo das décadas, o espaço se consolidou como ponto de encontro comunitário e de preservação da cultura negra na região da Casa Verde.

A atual disputa teve início em março, quando a Prefeitura de São Paulo ingressou com uma ação de reintegração de posse contra o clube. O município sustenta que a área integra o projeto do futuro Parque Municipal Campo de Marte e precisa ser entregue livre para cumprimento do contrato de concessão firmado para implantação do equipamento.

Em 25 de março, a Justiça concedeu liminar favorável à prefeitura, autorizando a desocupação da área, o uso de força policial e a demolição das estruturas existentes. No dia seguinte, porém, a decisão foi parcialmente revista, com suspensão das demolições e concessão de prazo de 60 dias para saída voluntária do clube.

Ao pedir a revisão da medida, o Cruz argumentou que ocupa o local desde 1958 e destacou a relevância cultural, comunitária e afro-brasileira do espaço. Já a Prefeitura sustentou que a ocupação possui caráter precário e que a permanência do clube compromete o cronograma de implantação do parque.

Após recurso do município, o Tribunal de Justiça de São Paulo derrubou o prazo concedido ao clube e voltou a autorizar as demolições. Na última terça-feira (9), a primeira instância determinou o cumprimento dessa decisão, abrindo caminho para uma eventual reintegração de posse com uso de força policial.

Em nota enviada ao Brasil de Fatoa Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente (SVMA) disse que o Cruz deverá realizar a desocupação voluntária e que, caso a decisão não seja cumprida, a administração poderá adotar “as medidas cabíveis” para dar continuidade à reintegração.

A pasta também afirmou que o clube participou inicialmente das tratativas para um acordo de gestão compartilhada dos futuros campos de várzea, mas optou por não seguir no processo. A SVMA disse ainda que o Samba do Cruz nunca solicitou autorização municipal para realizar suas atividades e alegou comercialização irregular de bebidas alcoólicas no local.

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