A Copa de 2026 ocorre no Canadá, México e Estados Unidos. Esse último está totalmente envolvido em conflitos militares internacionais há décadas. Ou seja, o principal palco do maior evento de futebol é, simultaneamente, um dos principais protagonistas de conflitos armados na atualidade.
Os critérios são iguais em outros casos semelhantes? Aqui entra uma comparação inevitável. Por causa da invasão à Ucrânia, a seleção da Rússia e os clubes do país estão suspensos de competições oficiais internacionais desde fevereiro de 2022. A punição foi aplicada por tempo indeterminado e permanece ativa, sem data exata para terminar.
Quem decide quando uma guerra deve ter consequências esportivas? Já aconteceu de o Conselho de Segurança da ONU impor sanções devido ao processo de desintegração e à guerra civil da Iugoslávia, que acabou banida das eliminatórias para a Copa de 1994, dos Jogos Olímpicos de 1992 e da Eurocopa de 1992 — nesta última, foi substituída pela Dinamarca restando menos de duas semanas para o torneio, que foi conquistado pelo time nórdico.
A Fifa já afirmou que o futebol deve ser um instrumento para unir povos, mas a história mostra uma realidade mais complexa. Alguns países envolvidos em conflitos continuaram sediando eventos, participando de competições e mantendo sua presença internacional.
Em 1978, tivemos um exemplo sombrio na Argentina. Ignorou-se os protestos internacionais que denunciavam a ditadura militar no país, que sediou a Copa em meio a torturas e desaparecimentos forçados, ocorridos em centros de detenção que funcionavam clandestinamente a poucos metros dos estádios. Antes disso, em 1934, uma Copa foi sediada na Itália fascista de Benito Mussolini. A Fifa não apenas evitou se opor, como legitimou o evento.
Mesmo não sendo a Copa, é preciso lembrar das Olimpíadas de 1936, numa Berlim sob o regime nazista de Adolf Hitler, legitimando o genocídio que já estava ocorrendo.
Outro exemplo é em 1973, quando o Estádio Nacional de Santiago, no Chile, foi transformado pelo regime de Pinochet em um centro de tortura e execuções. A União Soviética se recusou a disputar a repescagem da Copa de 1974 naquele local, mas a Fifa ignorou os apelos humanitários e manteve a partida. O episódio culminou no chamado “jogo fantasma”, em que o Chile entrou em campo sozinho, enquanto a decisão de não pisar no estádio rendeu à URSS a eliminação.
Então, é possível separar completamente o esporte da política? Ou essas escolhas refletem relações de poder que existem para além da competição? A Fifa sempre afirmou atuar com neutralidade, mas sua postura é marcada por muita ambiguidade.
É evidente que não é normal a situação com o Irã, cuja delegação enfrentou dificuldades com vistos, não poderá se hospedar no país e cujo presidente Donald Trump afirmou que não poderia garantir a segurança dos atletas iranianos.
Sabemos que, com toda a logística envolvida, os patrocinadores, as emissoras e tudo o que envolve a Copa, fica muito difícil alterar o país-sede. Mas a Fifa é bastante permissiva com os Estados Unidos (aqui estou sendo muito cuidadoso com o termo). E muito disso se explica pela sintonia política entre instituição e governo.
Na sua opinião, a Fifa é neutra ou é uma peça-chave na geopolítica global?
A Copa do Mundo é um dos maiores espetáculos esportivos do planeta. Mas, por trás de cada time em campo, há um conjunto de histórias que não cabem nos 90 minutos de jogo. Migração, desigualdade, conflitos políticos, disputas por identidade, memória coletiva e formas diferentes de existir no mundo. Futebol e a política se discutem e também se misturam. É com esse olhar que nasce esta série de textos (veja aqui) em que não falo apenas de futebol e nem só de política.
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