O que a Venezuela tem a ver com o Grande Bom Jardim?

Publicada em

As reflexões a seguir são fruto da contribuição feita por mim na mesa de análise de conjuntura no Planejamento Anual da Rede de Desenvolvimento Local, Integrado e Sustentável do Grande Bom Jardim (Rede Dlis) no dia 27 de março de 2026 no auditório do Centro de Defesa à Vida Herbert de Souza (CDVHS) em Fortaleza.

Em tempos de conjuntura difícil, dolorosa e cheia de disputas, analisar a realidade exige mais do que informação. Exige também afeto. Foi por isso que, antes de iniciar a fala, o convite foi para as pessoas ficarem de pé, tirassem os calçados, colocassem os pés no chão e se abraçassem. Porque falar de território, soberania, violência, criminalização e luta popular não é algo simples. É preciso raiva para transformar a indignação em movimento, mas também é preciso afeto para permanecer nas lutas que atravessam a vida do povo.

A pergunta que orienta essa reflexão é direta: o que a Venezuela tem a ver com o Grande Bom Jardim?

À primeira vista, pode parecer uma comparação distante. A Venezuela é um país latino-americano, marcado por disputas geopolíticas, riquezas naturais e conflitos em torno de sua soberania. O Grande Bom Jardim, por sua vez, é um território periférico de Fortaleza, formado por comunidades que carregam histórias de luta, organização popular, estigmas e resistência. No entanto, quando olhamos com mais atenção, percebemos que existem muitos pontos de encontro entre essas duas realidades.

Podemos começar contando a história de um território rico, bonito, cheio de gente trabalhadora, diversa e potente. Um lugar onde as riquezas sempre despertaram interesse de grupos poderosos. Um lugar onde, durante muito tempo, aquilo que era produzido pelo povo não ficava plenamente com o povo. Parte da riqueza era retirada, controlada por outros interesses e direcionada para fora. Até que esse povo começou a se organizar, a lutar e a compreender o sentido da soberania.

Soberania é a autonomia dos povos sobre o seu próprio território. É o direito de decidir sobre seus caminhos, suas riquezas, sua cultura, seus equipamentos públicos e sua forma de viver. Quando um povo reivindica soberania, ele afirma que não aceita ser governado por interesses externos que não conhecem sua realidade e não respeitam sua história.

Nesse ponto, a Venezuela e o Grande Bom Jardim se aproximam.

A Venezuela é constantemente disputada devido a suas riquezas naturais, especialmente o petróleo. O Grande Bom Jardim, por sua vez, também é um território disputado: pela gestão de políticas públicas, por equipamentos, por narrativas, por projetos de cidade e por formas de controle. Em ambos os casos, quando o povo se organiza e reivindica o direito de conduzir o próprio destino, os poderosos reagem.

Uma das formas dessa reação é o estigma.

Quando um território popular decide lutar por autonomia, logo aparecem discursos dizendo que aquele lugar é perigoso, desorganizado, incapaz ou violento. Na Venezuela, o discurso da criminalização aparece para justificar pressões externas e sequestro do presidente Nicolás Maduro. No Grande Bom Jardim, a lógica é parecida: muitas vezes o território é lembrado apenas pela violência ou pela pobreza, na tentativa de apagar sua história de organização, cultura, solidariedade e resistência.

Esse estigma não é inocente. Ele serve para enfraquecer a imagem do território e deslegitimar as pessoas que lutam por ele. Quando dizem que um povo não sabe cuidar de si, abre-se caminho para que outros venham decidir em seu lugar. Quando afirmam que uma comunidade é apenas um problema, escondem sua potência política. Quando criminalizam corpos e territórios negros, constroem justificativas para a vigilância, a repressão e a retirada de direitos.

Por exemplo, a chamada “guerra às drogas” precisa ser questionada. Essa guerra, muitas vezes apresentada como solução para a violência, atinge principalmente territórios negros, pobres e periféricos. Ela não resolve as desigualdades; ao contrário, aprofunda a criminalização e transforma comunidades inteiras em alvo. O mesmo discurso usado ultimamente para atacar países, lideranças e povos em nome do combate ao crime, também aparece nas periferias brasileiras para justificar violações, medo e controle social.

No Grande Bom Jardim, essa realidade é conhecida. O território já foi muitas vezes reduzido a rótulos negativos. Mas quem vive e luta nesse chão sabe que ele é muito mais do que isso. É lugar de memória, cultura, juventude, mulheres em movimento, associações, coletivos, arte, educação popular e organização comunitária. É um território que pensa, sente, constrói e resiste.

Outro ponto emblemático é a presença de pessoas e grupos “de fora” assumindo decisões sobre o território sem compromisso real com sua história. Quando equipamentos públicos, políticas ou projetos deixam de ser conduzidos com participação popular e passam a ser geridos por interesses externos, a autonomia comunitária é ferida. É como retirar do povo o direito de decidir sobre aquilo que faz parte da sua própria vida.

E a Venezuela, como Comunas aparecem como experiências de organização popular e resistência territorial. No Grande Bom Jardim, a Rede Dlis formada por associações, movimentos e coletivos cumprem papel semelhante: mantêm viva a capacidade do povo de se organizar, discutir seus problemas e lutar por soluções construídas a partir da própria realidade.

Nenhuma organização, sozinha, consegue enfrentar todos os desafios. O machismo, a misoginia, o racismo, a violência, a desinformação nas redes sociais, os ataques ao meio ambiente e a retirada de direitos são problemas do nosso tempo que não podem ter respostas individuais. Por isso, a luta precisa ser coletiva. Cada movimento tem sua importância, cada associação tem seu papel, cada liderança carrega uma parte da construção. Mas é na articulação entre todos que a resistência ganha força.

Cuidar do território também significa cuidar das pessoas. Significa prestar atenção ao que os jovens estão consumindo na internet, defender espaços de convivência, proteger o meio ambiente, fortalecer a cultura, disputar políticas públicas e afirmar que a periferia não aceita ser tratada apenas como lugar de carência. O Grande Bom Jardim é lugar de produção de vida, saber e resistência.

Assim, a Venezuela tem muito a ver com o Grande Bom Jardim porque ambos expressam a luta de povos por soberania. Ambos enfrentam estigmas. Ambos são alvos de interesses externos. Ambos carregam riquezas que despertam disputa. Ambos mostram que, quando o povo se organiza, torna-se mais difícil dominá-lo.

A saída, portanto, não está no isolamento. Está no afeto, na memória, na organização e na luta coletiva. Está nos pés no chão, no abraço, na raiva transformada em ação e na certeza de que nenhum povo deve abrir mão do direito de decidir sobre o seu próprio território.

Seja na Venezuela, seja no Grande Bom Jardim em Fortaleza, a soberania popular não está à venda. E onde houver tentativa de dominação, haverá também resistência.

*Geyse Anne da Silva é membro do Grupo Diálogos de Extensão e Pesquisas Interdisciplinares (UECE/UNILAB), Observatório das Metrópoles – Fortaleza, e integra a Comissão de Articulação da Rede Dlis. Mestranda em Sociologia (UECE), graduanda em Sociologia (UNILAB) e Bacharela em Humanidades (UNILAB). Coordenadora estadual de Mulheres do MNU Ceará. Direção Estadual da CMP Ceará. Fez parte da delegação dos movimentos sociais brasileiros que acompanharam as eleições municipais e a consulta popular da juventude no dia 27 de julho de 2025 em Caracas – Venezuela.

**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

:: Clique aqui para receber notícias do Brasil de Fato Ceará no seu Whatsapp ::

Source link