Análise: Para líderes do Irã, sobreviver pode ser mais fácil que ganhar paz

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Após quase meio século flertando com um conflito direto, os Estados Unidos entraram em guerra com o Irã. Quinze semanas depois, os combates chegaram ao fim.

O regime iraniano não apenas sobreviveu a um confronto com a mais poderosa força militar do mundo, como emergiu acreditando ser mais forte do que antes.

Apesar de o presidente dos EUA, Donald Trump, ter declarado poucos dias após o início da guerra que já havia saído vitorioso, o Irã manteve sua capacidade de reação até a assinatura de um acordo de cessar-fogo provisório.

Sua arma mais poderosa se revelou o maior choque de oferta de petróleo da história, provocado pelo fechamento do Estreito de Ormuz, pelo qual passa um quinto do petróleo bruto mundial.

O Irã está apresentando sua sobrevivência como uma vitória estratégica sobre os EUA e Israel. Mas sobreviver à guerra pode se mostrar mais fácil do que vencer a paz.

Supondo que o cessar-fogo se mantenha, a batalha mais decisiva é saber se os líderes da República Islâmica conseguirão transformar essa resistência em alívio de sanções, recuperação econômica e apoio popular suficiente para garantir o futuro do regime.

Projetando sua própria vitória, o regime iraniano fortaleceu uma liderança linha-dura, lançou mísseis e drones contra seus vizinhos, rejeitou cessar-fogos temporários e redobrou sua defesa do direito a um programa nuclear.

O país também nomeou Mojtaba Khamenei, filho do líder supremo assassinado, o aiatolá Ali Khamenei, para suceder o pai, em uma demonstração deliberada de continuidade que desafia o tabu histórico da República Islâmica contra a governança hereditária.

O regime mantém um governo em funcionamento e uma estrutura militar coesa, ainda capaz de lançar mísseis balísticos que ameaçam os aliados regionais dos EUA e a economia mundial.

Um memorando de entendimento firmado entre os EUA e o Irã no fim de semana encerra as hostilidades “imediata e permanentemente”, abre caminho para a remoção de todas as sanções contra o país do Oriente Médio e descongela seus ativos, sem que precise encerrar seu programa de mísseis ou seu apoio a grupos armados na região.

Em contrapartida, o regime iraniano reiterou seu compromisso histórico de não construir uma arma nuclear, prometeu diluir urânio que estava enriquecido a níveis próximos ao grau de armamento e concordou em desbloquear o Estreito de Ormuz — concessões que não vão muito além de suas ofertas anteriores ao conflito.

“Para a República Islâmica e seus apoiadores, há uma forte sensação de confiança de que suportaram os maiores golpes que os EUA e Israel podiam desferir, permaneceram de pé e estão obtendo concessões”, disse Sina Toossi, pesquisador sênior não residente do Centro de Política Internacional.

Triunfos do Irã precisam virar ganhos internos

Especialistas afirmam, no entanto, que o senso de triunfo do regime pode se dissipar rapidamente caso ele não consiga converter seu sucesso em tempos de guerra em ganhos internos.

Isso pode exigir conter a vontade dos linha-dura pela continuação do conflito.

Os generais e políticos belicistas do Irã se vangloriavam há muito tempo de seu poder de retaliar, e este conflito os deixou encorajados. Eles veem o desfecho como prova de que foi sua estratégia militar — e não a diplomacia ou o compromisso — que forçou um acordo.

Os linha-dura emergiram com as mãos nos centros de poder e no comando do campo de batalha, e seus apoiadores agora inundam as ruas do Irã com manifestações diárias celebrando uma legitimidade recém-conquistada, forjada ao sobreviver ao ataque dos EUA e de Israel.

O presidente moderado, Masoud Pezeshkian, permanece limitado à governança administrativa, e seus companheiros reformistas foram colocados de lado — alguns deles, segundo relatos, até em prisão domiciliar.

Mas alguns problemas da República Islâmica permanecem sem solução, dizem os especialistas.

A menos que consiga converter sua suposta vitória em ganhos econômicos tangíveis para a população em geral, o regime pode ter de continuar a lidar com um futuro turbulento internamente e com inimigos estrangeiros à espreita.

“Eles (o regime) têm mais confiança e provavelmente mais apoio porque sobreviveram à guerra e têm uma base suficientemente leal”, disse Sanam Vakil, diretora do Programa para o Oriente Médio e Norte da África do think tank Chatham House, em Londres.

“Mas ainda há uma parcela da população que gostaria de ver o fim da República Islâmica”, adicionou.

Apesar do sofrimento generalizado, a vida cotidiana no Irã seguiu em grande parte seu curso em meio à maior ameaça existencial nos 47 anos de história da República Islâmica.

Uma estratégia de resiliência militar e econômica preparou o país para um conflito prolongado, no qual táticas assimétricas se mostraram eficazes e uma nova geração de comandantes emergiu.

Mas os iranianos comuns arcaram com o peso dos ataques dos EUA, com mais de 3.000 pessoas mortas nos mais de três meses de guerra.

Os preços dos bens essenciais dispararam e muitas pessoas perderam seus empregos, com milhões agora em risco de cair na pobreza em meio a amplas dificuldades econômicas.

“Para o povo iraniano, é preciso ver os dividendos da guerra”, disse Toossi, analista do Centro de Política Internacional.

“A República Islâmica está dizendo a eles que sua grande estratégia deu resultado e que haverá uma nova ordem regional, mas, se o povo não conseguir ver isso na mesa de jantar, os problemas do regime não vão desaparecer”, explicou.

Regime cada vez mais paranoico

Poucas semanas antes da guerra, o Irã enfrentou uma das suas maiores ameaças internas, quando dezenas de milhares foram às ruas para protestar contra as condições econômicas precárias agravadas pelas sanções dos EUA.

Milhares foram mortos na brutal repressão do governo, mas o movimento expôs a fragilidade do regime e de sua liderança.

Manifestantes e oposição política agora precisam lidar com um regime cada vez mais paranoico, que testemunhou infiltrações inimigas e enfrenta as afirmações de Trump sobre o armamento de grupos étnicos de oposição.

A República Islâmica provavelmente desfrutará de uma nova ousadia no enfrentamento da dissidência.

De forma crítica, Teerã precisa lidar com a linha-dura firmemente entrincheirada dentro do regime, incluindo figuras influentes que se opuseram veementemente aos termos do acordo atual com os EUA e que anteriormente tentaram sabotar a diplomacia para pressionar por uma guerra.

Esses linha-dura insistem — sob a crença de que são os vencedores do conflito — que o acordo equivale a uma rendição aos EUA e abandona as prioridades centrais do Irã.

Assim como Trump, mas por razões diferentes, eles também se opuseram ao acordo nuclear iraniano de 2015, firmado durante o governo Obama.

Para apaziguar tanto os manifestantes quanto as figuras linha-dura, espera-se que os negociadores iranianos insistam junto às suas contrapartes americanas que qualquer acordo final deve incluir um alívio substancial de sanções e o descongelamento dos ativos do Irã.

O regime entende que uma vitória puramente simbólica não seria suficiente para conquistar os opositores do regime, que deixaram de lado suas queixas temporariamente  em nome da unidade em tempos de guerra, e nem os linha-dura, que relutantemente suspenderam os apelos à guerra mediante a promessa de grandes concessões por Washington.

E sem um alívio significativo das sanções que amenize o sofrimento dos iranianos comuns e coloque o país em um caminho claro de recuperação econômica, questões difíceis poderiam surgir novamente sobre a política de longa data do regime de desafio aos EUA.

Paradoxalmente, qualquer alívio desse tipo e o descongelamento de ativos quase certamente estariam condicionados a grandes concessões no programa nuclear do Irã — concessões que os linha-dura provavelmente rejeitarão.

E a principal variável ainda não testada será a liderança de Mojtaba Khamenei. Ele ainda não fez nenhuma aparição pública, e permanece incerto que forma assumirá sua orientação como líder supremo.

“No período pós-guerra, o governo será mais excludente, mais inclusivo, quais serão as liberdades sociais, as liberdades políticas?”, perguntou Toossi.

“Todas essas coisas serão reveladoras nos próximos meses”, concluiu.

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