Confira o que parte da juventude paraibana pensa sobre o fim da escala 6×1

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Enquanto a escala 6×1 tem sido alvo de debates sobre qualidade de vida e direitos trabalhistas, parte da juventude concilia estudos, trabalho e vida pessoal já na fase inicial da vida. Sem pausas na vida, a juventude vem crescendo nos índices de empregabilidade e estudos.  Dados da fonte DIEESE (Boletim Emprego em Pauta nº 31, 2025) e PNAD Contínua/IBGE, mostram que entre 2018 e 2025 houve uma queda de 3,7 milhões, com o menor registro entre jovens chamados de “nem-nem”, nem estudam e nem trabalham.

Com o aumento dos jovens no mercado de trabalho, os questionamentos sobre direito se tornaram pauta nas redes sociais. Para entender como se iniciou a luta por mais tempo de vida além do trabalho, é importante entender como funciona a escala. A 6×1 é uma jornada de trabalho em que o trabalhador tem seis dias consecutivos e com direito a apenas um dia de folga na semana, geralmente aos domingos. A jornada tem como limite 44 horas semanais estabelecidos pela Consolidação das Leis de Trabalho (CLT).

A jornada de trabalho tem origem na década de 1940, quando Getúlio Vargas, presidente do país, assinou o decreto de lei 5.452, no dia 1° de maio de 1943, data hoje comemorada como Dia do Trabalhador e da Trabalhadora. O texto, da CLT, não especificava o modelo da escala, desde que respeitado o limite de 48 horas na semana. Em 1987, as horas foram regulamentadas para 44 horas semanais.

Os debates sobre o fim da escala existem desde a sua regulamentação. Mas foi com o jovem Rick Azevedo, em 2023, em um vídeo de desabafo para as redes sociais, que o Movimento Vida Além do Trabalho (VAT) foi fundado e o fim desta jornada de trabalho ganhou força entre os trabalhadores. “Quero saber quando é que nós, da classe trabalhadora, iremos fazer uma revolução nesse país relacionada à escala 6×1. É uma escravidão moderna. Se a gente não se revoltar, colocar a boca no mundo, meter o pé na porta, as coisas não vão mudar”, disse Rick Azevedo em vídeo de 2023. Atualmente vereador do Rio de Janeiro pelo PSOL, Rick continua na luta pelo fim da escala, agora como político brasileiro.

A luta pelo fim desta escala de trabalho prevê a redução de 44 horas para 36 horas, 5 dias de trabalho na semana e sem redução salarial.

Apesar da escala cansativa, a jornada é uma necessidade para a juventude. Dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostram que entre os jovens, a escolha pelo emprego formal é ainda mais forte, refletindo a busca por segurança no início da carreira. Isso mostra que a juventude quer sim trabalhar, principalmente com a segurança oferecida pelos direitos trabalhistas.  Os dados também mostram: 41,4% dos trabalhadores de 25 a 34 anos preferem CLT; 38,1% dos jovens de 16 a 24 anos também priorizam o modelo.

Saúde e qualidade de vida

Contando as horas trabalhadas diariamente, os trabalhadores CLT têm, em sua grande maioria, a necessidade de utilizar transporte para trabalhar. Segundo dados do Censo Demográfico, 21,4 milhões de pessoas se deslocam de automóvel e 14 milhões vão de ônibus. A jornada, que exige oito horas diárias com um intervalo para realizar a refeição, pode aumentar, com o tempo, o risco de depressão, irritabilidade, estresse e burnout. E ainda, segundo o INSS, em 2022, cerca de 209 mil pessoas foram afastadas do trabalho por transtornos mentais no país.

A Paraíba, no ano de 2025, foi o segundo estado do Nordeste com o maior índice de afastamentos do trabalho por doenças mentais, ficando atrás apenas do Rio Grande do Norte. Os dados, divulgados pelo Ministério Público do Trabalho na Paraíba (MPT-PB), mostram que a taxa registrada foi de 52,34 afastamentos por 10 mil trabalhadores.

Esses dados fazem sentido para o estudante de Enfermagem da UFCG, Thiago Simplício, que critica a escala 6×1. Para ele, essa modalidade de trabalho desencadeia quadros depressivos, de burnout e de ansiedade. “Existem inúmeros casos de impacto na saúde física e mental. Presenciei muitos casos de LER (Lesão por esforço repetitivo), DORT. Existem casos de suicídios. São impactos da falta de tempo e qualidade com a família e amigos. A escala gera falta de lazer”, disse.

A perspectiva do estudante é reforçada pelo o que disse o professor Helian Nunes, da UFMG, em entrevista para a Faculdade de Medicina, onde afirma que o principal efeito da escala 6×1 seria o sofrimento mental. “Esse sofrimento mental pode ocasionar transtornos de ansiedade e depressão, e até alterações cognitivas. Muitas vezes, esses trabalhadores nos buscam falando que estão com demência, problema de memória”.

O Ministério da Saúde, em publicação de 2022, reconhece que, a depender do tipo de organização do trabalho, ele pode causar ou agravar ansiedade, depressão, burnout, insônia, irritabilidade, sofrimento emocional e transtornos mentais relacionados ao trabalho.

A perspectiva da juventude sobre a escala 6×1

Em recente levantamento da Nexus – Pesquisa e Inteligência de Dados mostra que, entre os jovens de 16 a 24 anos, 31% são totalmente favoráveis ao fim da escala 6×1 independentemente do impacto no salário e 47% apoiam a medida se não houver diminuição salarial.

O Brasil de Fato Paraíba ouviu o que alguns jovens paraibanos têm a dizer sobre a jornada de trabalho atual da CLT.

Para Thiago Simplício, estudante de Enfermagem da UFCG, seria impossível conciliar a vida acadêmica com a jornada de trabalho 6×1. “Meu curso é integral de segunda a sexta, para me deslocar de casa e voltar são quatro ônibus por dia, duas horas só de viagem apenas nisso. Fora que não basta estar presente, tem que estudar. O pouco tempo que me resta é que eu consigo aproveitar, e eu tenho muita sorte! Tem pessoas que passam quatro horas do dia viajando para ir à faculdade e voltar para casa, fora quem ainda precisa trabalhar à noite saindo direto da faculdade para o trabalho e já estar de manhã na faculdade novamente”, explicou.

Já para Emilly Lima, estudante de Jornalismo da UEPB, que trabalha como vendedora, trabalhar e estudar é um desafio. “Eu me sinto frustrada por não “viver a vida” sendo jovem, pois a responsabilidade de estudar e trabalhar detém todo o meu tempo, enquanto amigos curtem os “rolês” você vai estar cansada demais pra entender a piada que soltaram. Resumindo, bateria social baixa por falta de descanso e preocupações. Mesmo no momento de descanso a gente tende a se pressionar, “estou descansando enquanto tenho dois trabalhos da faculdade para fazer e uma meta para bater no trabalho”. Então não dá pra conciliar tudo.”, diz.

Para Lima, a redução da jornada de trabalho para 5×2, seria importante para ela ter tempo para descansar.
Normalmente eu abro mão do meu descanso no domingo ou sábado à tarde para as atividades acadêmicas, já deixei de ir almoçar com a família para fazer um trabalho que precisava ser entregue em dois dias e precisava de tempo para fazer. então precisei doar meu único dia de descanso para realizar atividades acadêmicas. Com uma redução na jornada, eu teria um dia para descansar e um dia para dedicar-se aos trabalhos da faculdade, traria um impacto positivo grande na minha vida.”, explica a estudante.

A luta das organizações

Tião Santos, presidente da CUT-PB, na luta pelo fim da escala 6×1 / Secom CUT-PB.

Houve pelo menos um protesto em cada capital do Brasil pela redução da jornada de trabalho sem redução salarial. Para este avanço significativo na organização popular, é necessário uma grande quantidade de trabalhadores organizados na luta coletiva. Tião Santos, presidente da Central Única dos Trabalhadores da Paraíba (CUT-PB), considera “uma vitória levar essa pauta para dentro do mundo trabalhista, de forma que os trabalhadores entendam e cheguem até eles. É um trabalho coletivo, de formiguinha.”

Ainda segundo Santos, a luta pelo fim da escala é uma garantia para os jovens e futuros trabalhadores, tanto garantindo direitos como interesse pelo mercado de trabalho.

“Entendemos que essa luta que estamos fazendo hoje é para garantir o ingresso de mais jovens no mercado de trabalho. Se observamos, um grande número de trabalhadores que estão ociosos com o trabalho são os jovens. É importante os jovens terem gosto pelo mercado de trabalho, e assim proteger a juventude que vai ingressar no mercado.”, explicou Tião Santos.

Sofia Isbelo, militante do Levante Popular da Juventude / Arquivo Pessoal.

Para a militante do Levante Popular da Juventude, Sofia Isbelo, “o trabalho exaustivo da escala 6×1 é um controle social, uma juventude cansada participa menos e se afasta do pensamento crítico. O tempo livre é uma condição para a consciência. O modelo de trabalho atual é responsabilidade da sociedade em que a gente vive. Então, mudando o nosso modelo social, a gente muda o modelo de trabalho.”, declarou Isbelo.

A pauta pelo fim da escala 6×1 é protagonizada pelos movimentos sociais. “Foi do movimento social que essa pauta surge, surge da indignação e do entusiasmo pela luta de um trabalhador que puxa outros trabalhadores. O movimento Vida Além do Trabalho (VAT), que foi o primeiro movimento que levantou a bandeira e pautou nacionalmente isso, é um movimento social. O plebiscito popular, protagonizado pelos sindicatos, pelos movimentos sociais, pelos partidos, foi puxado pelos movimentos sociais. Debatia o fim da escala 6×1 e a taxação dos super ricos. Então, a gente vem construindo dentro dessa pauta. Mesmo que o protagonismo midiático fique no debate no Congresso e tal, puxar essa pauta para debater ela com o povo é o que é imprescindível para a gente”, disse a militante do Levante.

Para Sofia Isbelo, a juventude organizada tem pautado a dimensão, inclusive que às vezes é deixada de lado nesse debate do fim da escala 6×1, que é o direito ao lazer, o direito à cultura, o direito à participação política, “o fim da escala 6×1 não é o direito só ao descanso físico, mas o direito ao acesso ao que a gente não consegue acessar quando a gente está numa escala que não nos permite isso, quando a gente está em deliveries, quando a gente está no telemarketing, quando a gente está no comércio”, afirmou .

Ainda segundo Sofia, a limitação da jornada 6×1 sem redução salarial se conecta com outras lutas, como a reforma trabalhista de 2017, com a organização do trabalho e o debate sobre o trabalho intermitente. “Então, acho que é muito importante, que os movimentos sociais continuem debatendo sobre o fim da escala 6×1, porque às vezes fica restrita a uma dimensão econômica que não leva em consideração essas outras coisas, como o direito ao lazer, ou também, principalmente, inclusive, com a questão racial. A escala 6×1 afeta majoritariamente a juventude negra periférica, que se concentra nos trabalhos mais precarizados. Então, é importante que o debate seja fomentado a partir dessa ótica também, que quem traz é o povo organizado.”, declarou.

Sofia Isbelo acrescentou que gostaria de falar como uma jovem artista negra que tem muitos sonhos a realizar. “É importante a gente fazer arte, para a gente fazer cultura, para a gente produzir coisas que façam o outro sentir e pensar que o nosso debate não seja apenas no debate de ideias, mas também nesse âmbito subjetivo da vida, que é fundamental para o nosso cotidiano, para a gente ter esperança, para a gente existir, para a gente fazer arte, a gente precisa de tempo livre. Então, a escala 6×1 é também uma ameaça à produção cultural periférica e à possibilidade de a gente se expressar subjetivamente, e que a nossa vida não seja só das dores, mas também alegrias, conquistas e tudo mais.”, desabafou.

Segundo Isbelo, a dimensão cultural é muito importante para o fortalecimento das políticas públicas para a juventude negra. “O Plano Juventude Negra Viva, que é um plano que trabalha a juventude negra em territórios, em vários eixos, não só na garantia da sobrevivência, mas na garantia dos direitos de uma alimentação saudável, de saúde, de cultura, de educação, precisa ser fortalecido pelos municípios, pelos governos, mas também pela juventude. A gente tem que lutar para que essa política seja implementada nos nossos territórios não só com adesão dos estados e dos municípios no plano que é nacional, mas também com a construção de leis, de diretrizes orçamentárias estaduais e municipais específicas para a juventude negra. A gente precisa estar na rubrica das nossas cidades, do nosso município, do nosso estado, para que a política de juventude negra não seja feita com o que sobra das secretarias, mas que seja uma política fundamental, primordial, pilar e basilar, para que todas as outras políticas aconteçam.”, concluiu.

Para ela, fortalecer a política de juventude negra é garantir futuro e liberdade para toda a juventude e para a sociedade.

*Andrei Oliveira é estagiário de Jornalismo no BdF-PB e está sob supervisão de Heloisa de Sousa

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