Neste sábado (20), acontece o ato de memória dos 50 anos da Assembleia do Povo: na época, o Brasil vivia o auge da ditadura cívico-militar em meados dos anos 1970 e organizações populares em diversas cidades do estado de São Paulo começaram a se mobilizar para questionar o custo da cesta básica, que estava estrangulando a realidade de famílias, especialmente nas periferias.
Na capital paulista, o movimento foi bastante forte na região de São Miguel Paulista, zona leste, com forte articulação das Comunidades Eclesiais de Base (Cebs), ligadas ao grupo dentro da Igreja Católica que fazia resistência ao regime militar. O protesto deste final de semana tem organização do Movimento do Custo de Vida, do Comitê Santo Dias e do Centro de Memória das Lutas Populares Ana Dias.
Em entrevista ao É de Manhãsim Rádio Brasil de FatoLuciana Dias, participante do Comitê Santo Dias, conta um pouco da história do surgimento da mobilização. Ela é filha de Santo Dias, um operário que viria a ser assassinado três anos depois da assembleia, em 1979, durante uma mobilização sindical na zona sul de São Paulo.
Ela explica que o movimento ganhou tração a partir de uma organização popular bastante engajada nos bairros. “Em 1974, lideranças, e isso inclui meu pai e minha mãe (Ana Dias), começaram a se movimentar com relação ao alto custo de vida do trabalhador. Eles escreveram uma carta nos Clubes de Mães que aconteciam nas Cebs, e essa carta foi lida na Hora do Brasil. Depois desse dia, veio a repressão nos bairros e foi questionando quem tinha feito a carta. Mas o documento tinha sido escondido, enterrado, e eles nunca descobriram quem tinha escrito. Depois dessa carta, esse movimento popular fez uma pesquisa junto às famílias e foi feito um abaixo-assinado, que foi passado nas escolas, nas feiras livres, nas ruas e levado para Brasília. A partir disso, houve uma mobilização em 1976 com 5 mil pessoas que, em plena ditadura, se propuseram a discutir a questão da exploração do povo. E esse ano, esse movimento completa seus 50 anos”, conta.
Dias destaca a importância da participação das mulheres nesse processo de mobilização. “As mulheres eram donas de casa em sua maioria. E nesse evento nós vamos compor uma mesa com cinco mulheres que participaram desse movimento. Mulheres como a Dona Lúcia, que está com 92 anos, e estava no grupo que foi levar lá na década de 1970 o abaixo-assinado para Brasília, Irma Passoni, Maria Vilani, mãe do Criolo, e a Odete Marques. São mulheres negras, da periferia, de base, que vão compor essa mesa desse evento. Na época, eram essas mesmas mulheres que não tinham ideia da grandiosidade desse movimento que começou de casa em casa, um trabalho de formiguinha, e que se tornou um movimento gigantesco, até que elas ocuparam a escadaria da Praça da Sé em um grande protesto em 1978″, explica.
O evento em memória aos 50 anos da Assembleia do Povo acontecerá neste sábado (20), no Colégio Santa Maria, localizado na Av. Sargento Geraldo Sant’anna, 901, no Jardim Marajoara, São Paulo (SP), a partir das 13h.
Para ouvir e assistir
Ó É de Manhã vai ao ar de segunda a sexta-feira às 07h da manhã na Rádio Brasil de Fato98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

