Nos anos 1970, surgiu na Colômbia uma guerrilha que lutava não pela revolução socialista, mas pela promoção da democracia. A trajetória do Movimento 19 de Abril, que é conhecido como M-19 e teve o presidente Gustavo Petro entre seus militantes, é contada no livro “A Espada de Bolívar – Democracia e Revolução na Colômbia”, do jornalista e historiador Rodrigo Vianna.
Por ocasião do processo eleitoral acirrado que a Colômbia vive, que terá seu segundo turno no próximo domingo (21), contrapondo a continuidade do projeto de país de esquerda com a tentativa do retorno da extrema-direita ao poder, o Entrevista com BdF desta sexta-feira (19) traz um pouco da história da construção política do país.
Viana conta como surgiu o interesse pela história que decidiu contar no livro, com a qual tomou contato durante uma viagem à Colômbia para fazer uma reportagem sobre três brasileiros que se integraram às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). De passagem por Bogotá, se deparou com um enorme acampamento onde estava sendo realizado um encontro do M-19.
“Na época, eu mal sabia o que era. Eu vi aquela sigla M-19 e falei: ‘acho que eu já ouvi falar’. Comecei a conversar com os ex-guerrilheiros daquela altura. Eu estou falando de 2011, 2012. Naquela altura, o M-19 já não existia mais como uma guerrilha. Então, fui conversar com os ex-guerrilheiros, me interessei pela história deles: uma guerrilha que inicia a sua ação falando em nome da democracia e, depois de 16 anos de combates (1974-1990), depõe as armas também em nome da construção ou da ampliação da democracia na Colômbia. Me interessei por essa história, justamente pelo contraste com as Farc. Porque as Farc, naquela altura, ainda estavam atuando no meio da selva e o M-19 tinha deposto as armas. E tinha uma liderança muito interessante, chamada Gustavo Petro, um ex-guerrilheiro também”, relata o jornalista, que, naquele momento, tomou conhecimento da história do atual presidente colombiano.
Vianna, então, decidiu fazer um mestrado sobre o tema com o material que coletou naquela e em outras duas viagens que fez ao país e, agora, a pesquisa deu origem ao livro.
“Petro se torna essa figura importante porque a Colômbia sempre foi um país em que as oligarquias, as elites, jamais permitiram a existência de movimentos políticos mais à esquerda, mais reformistas, populares, que conseguissem furar o bloqueio e ocupar o poder. Em 200 anos de história republicana, é a primeira vez que tem um presidente progressista na Colômbia, porque sempre eram ou liberais ou conservadores”, aponta.
Rodrigo Viana explica que, a partir da pesquisa com o M-19, é possível depreender que as guerrilhas na Colômbia apareceram porque o Estado nunca se abriu “aos de fora”, como ele diz. “As guerrilhas surgem como um sintoma ou expressão desse Estado, dessa organização política, que lá eles dizem oligárquica, que é um sistema bipartidário”, explica.
Viana ressalta o desconhecimento de quem insiste em reduzir a motivação da existência das guerrilhas colombianas ao narcotráfico. “Não é verdade. Havia uma liderança política no final dos anos 1940 na Colômbia, um líder reformista chamado Eliécer Gaitán, que é uma figura muito conhecida na Colômbia, e ele estava para ser eleito presidente. Era uma liderança que levava milhares de pessoas para as ruas, era reformista, um liberal progressista, vamos dizer assim, que propunha reformas, direitos trabalhistas. Foi assassinado. Quando ele é assassinado, existe uma rebelião popular, que ficou conhecida como Bogotaço, no dia 9 de abril de 1948. E aí o povo pensa: ‘Não dá pra ir pelo voto?’”, conta.
“A partir da morte de Gaitán, passam a se organizar guerrilhas pelo país inteiro. Uma delas é a guerrilha que mais tarde dará origem à Farc, que no começo não tinha nada de socialista. Era uma guerrilha liberal, liberales como eles chamavam, contra a repressão desse líder que foi morto”, conta.
Esse é o contexto do surgimento, décadas mais tarde, do M-19, que se tornou um movimento a partir de uma eleição realizada em 19 de abril de 1970, em que um candidato reformista começa ganhando. Repentinamente a apuração da votação é interrompida e, quando é retomada, o opositor, um candidato conservador, vence por uma diferença pequena de votos.
“O 19 de abril é a data de uma fraude eleitoral. O M19, portanto, faz uma referência à data de uma eleição. Não é a data de uma rebelião, de uma revolução; é a data de uma eleição. Como querendo dizer, aqui na Colômbia, a eleição tem que ser garantida nas armas. Quando eles criam o M-19, isso me chamava muita atenção nos documentos, fazer a democracia na Colômbia já é um ato revolucionário. Ou: ‘precisamos das armas para garantir a democracia’. Isso parece muito contraditório, mas parecia uma operação impossível: ou você tem uma força armada para garantir que o seu apoio seja respeitado, ou você vai ser roubado ou assassinado. Essa é a história da política na Colômbia. É muito dura”, avalia Vianna.
Confira a entrevista completa no link abaixo:
Para ouvir e assistir
Ó Entrevista com BdF vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato98.9 FM na Grande São Paulo.

