Dia 12 de junho, após a estreia da empresa SpaceX na bolsa de valores, Elon Musk se tornou o primeiro trilionário do mundo e hoje sua riqueza equivale aos recursos somados dos 46% mais pobres da humanidade. Em números absolutos, esta parcela da população corresponde a 3,8 bilhões de pessoas.
Mas como foi possível acumular tanta riqueza? Ou ainda: o que isso revela sobre a fase atual do capitalismo?
Ao Entrevista com BdFsim Rádio Brasil de FatoViviana Santiago, diretora-executiva da Oxfam, afirma que a ideia de que o enriquecimento de determinados grupos pode mudar a vida da base da pirâmide social não procede e que a lógica, na verdade, é do aprofundamento das desigualdades.
“O surgimento de um milionário não está sendo acompanhado de processos de distribuição de riqueza ou de bem-estar social. Por outro lado, é impossível haver um trilionário sem que haja um processo de exploração associado a isso — seja exploração do trabalho, da natureza, das dinâmicas de vida que estão presentes em todos os países. O surgimento de bilionários e trilionários não vem acompanhado de bem-estar para a base da pirâmide, vem acompanhado de mais exploração”, destaca.
A desigualdade está intimamente ligada à concentração de renda, afirma Santiago, ao também pontuar como ambas cresceram aceleradamente a partir dos anos 1990. “Quanto mais riqueza no topo da pirâmide, menos enfrentamento à extrema pobreza.”
Para ela, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, exemplifica como ocorre a atuação governamental em defesa do empresariado. “Ele vem sendo uma das mais importantes vozes no mundo na tradução dos interesses das big techs. Por outro lado, a gente também vai ver a atuação do presidente Donald Trump na defesa do interesse de livre concorrência, que, na verdade, impacta a capacidade de concorrência no setor como um todo. As maiores empresas são as empresas que mais vão conseguir acessar o mercado, contratos com o governo.” Ela recorda ainda que membros da família e do governo de Trump já firmaram contratos com essas empresas. “Todas essas práticas aumentam sua fortuna e a de seus pares”, avalia.
Viviana Santiago comenta a relação de Elon Musk com Donald Trump e a participação, ainda que breve, do agora trilionário na gestão presidencial. Segundo ela, é um contrassenso pensar que um empresário bilionário cuidaria dos processos e funcionamentos da coisa pública. A lógica reinante seria a privatista, com uma associação entre eficiência e redução do estado.
“Isso não é aleatório. De onde vem esse interesse em desmontar secretarias de educação? Pensar as restrições e desmonte de órgãos de controle, de monitoramento, regulatórios, que teriam capacidade de incidir em freios para extrema riqueza, freios para atuação a partir de uma falta de ética de determinadas empresas? É uma decorrência desse processo. Você desmonta o serviço público a partir de uma atuação”, explica.
“Por trás da suposta ineficiência do Estado, a gente, na verdade, percebe um bilionário transformando, moldando esse Estado numa estrutura mínima que atende completamente aos seus interesses”, destaca a diretora-executiva da Oxfam.
Para Santiago, o acúmulo de riqueza também enfraquece a democracia, pois quem tem mais dinheiro cria e domina as regras do jogo político. Ela cita o caso Banco Master para ilustrar essas relações promíscuas entre o público e o privado.
“Quanto mais a gente tem essa riqueza se multiplicando dessa forma no mundo, essa riqueza vai se traduzindo em poder político”, diz. “(Daniel) Vorcaro, com os seus recursos, conseguia incidir no processo do próprio Estado. A sua riqueza garantia um poder político. E isso é uma regra na nossa democracia. E também garante que essas próprias pessoas passem a ocupar o Estado. A possibilidade é milhares de vezes maior de um super-rico ocupar um cargo na política do que um cidadão, uma cidadã de renda média. Milhares de vezes maior. E a gente entende que isso acontece, seja na prática, porque essas pessoas vão se colocar e vão ter todo um aparato de apoio para atuar na política, seja porque elas podem assessorar essa política”, pondera.
Confira a entrevista completa no link abaixo:
Para ouvir e assistir
Ó Entrevista com BdF vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato98.9 FM na Grande São Paulo.

