Editora Coragem publica as raízes mais profundas da América Latina

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A Editora Coragem cumpre bem o seu papel de ser porta voz da história e da literatura da América Latina, do Brasil e do Rio Grande do Sul. Pepe Mujica, Che Guevara, Mães da Praça de Maio, Atahualpa Yupanqui, Patagônia Rebelde, grandes nomes da literatura latina sobre sociologia, história e sociedade estão ali impressos. Uma editora como a Coragem não para. Livros extraordinários que vendem bem e são elogiados por críticos de todo o país.

A editora também é mais um ingrediente de ligação permanente do bairro Cidade Baixa com a cultura, com posicionamento firme contra as direitas e os fascismos da vida. Tem olhar para o que realmente acontece. O responsável por toda esta postura progressista é o editor Thomás Daniel Vieira, 32 anos, formado em Ciências da Computação pela PUCRS, engenheiro de software da previdência de Portugal, e estudante do Mestrado de Letras na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

A Editora Coragem cumpre bem o seu papel de ser porta voz da história e da literatura da América Latina
A Editora Coragem cumpre bem o seu papel de ser porta voz da história e da literatura da América Latina | Crédito: Rafael Rosa

Ele também colabora eventualmente com a Revista Parêntese, uma publicação cultural e literária independente, ligada ao Matinal Jornalismo, sediada em Porto Alegre. O projeto do Matinal foca em crônicas, ensaios e artes visuais, circulando semanalmente no formato digital (newsletter) e ocasionalmente em edições impressas e especiais.

Como arruma tempo para tanta coisa? Simples, segundo ele. De manhã, ele é engenheiro de computação on-line para os portugueses, estuda duas tardes por semana e no resto do tempo é editor da Coragem. A qualquer hora. Edita, compra direitos autorais, encaminha originais para impressão, controla com outras auxiliares da tradução, revisão e logística de distribuição. A empresa utilizada para impressão dos livros é a Pallotti, de Santa Maria (RS).

Vendas em livrarias e na internet

O tradutor especial, Demétrio Xavier, faz todas as obras de Atahualpa Yupanqui
O tradutor especial, Demétrio Xavier, faz todas as obras de Atahualpa Yupanqui | Crédito: Rafael Rosa

“Prefiro vender em livrarias, mas tem entregas a domicílio, tarefa que faço para quem compra pelo site. Como funciona a minha logística de quem compra pela internet? Aqui vale o método eu-quipe”, diz ele, brincando. Thomás conta que tem uma boa equipe: Camila Costa Silva coordena e faz edições, Nathalia Cadore revisa e Helena Jungblut edita o Selo Valente – livros para crianças. As traduções da Coragem variam um pouco. Tem Fabio Pinto, Paulo Damin, Monique Izoton, Ezequiela Scapini e Gabriela Petit.

E tem ainda o tradutor especial, Demétrio Xavier, que faz todas as obras de Atahualpa Yupanqui. Ele pesquisou a vida inteira a obra do cantor, compositor, violonista, escritor, considerado um dos mais importantes divulgadores de música folclórica argentina. Atahualpa é pseudônimo de Héctor Roberto Chavero (1908-1992).

A Coragem ainda apoia o Clube de Leitura Senderos, da Bancaberta, conduzido pela companheira de Thomás, Alice Xavier. O símbolo é um coração anatômico, cheia de vias e ramificações.

homás considera a editora de linha independente, sem compromissos com qualquer estilo fixo ou estritamente comercial
Thomás considera a editora de linha independente, sem compromissos com qualquer estilo fixo ou estritamente comercial | Crédito: Rafael Rosa

A gravadora foi fundada em 2020 e completou seis anos com uma grande festa para 150 pessoas em maio. Thomás considera a editora de linha independente, sem compromisso com qualquer estilo fixo ou estritamente comercial. Ele diz que recebe originais direto, por indicação e também procura em feiras que participa, como em Buenos Aires, São Paulo e Porto Alegre, naturalmente. É óbvio que não publica coisas extremistas.

A sede fica na rua Sofia Veloso*, 49, sobrado de dois andares alugado do Asilo Padre Cacique por R$ 4.500,00. Aliás, todas as casas da rua pertencem à instituição de caridade dos idosos, localizada em frente ao estádio Beira-Rio. Alguns prédios existem na Sofia Velloso, mas os terrenos foram vendidos para incorporadoras.

Mujica, o mais vendido

Pepe Mujica e Mães da Praça de Maio estão entre os mais vendidos
Pepe Mujica e Mães da Praça de Maio estão entre os mais vendidos | Crédito: Rafael Rosa

Nestes anos de funcionamento, o livro que mais vendeu, com 6 mil exemplares, foi “Palavras para depois – Conversas com Pepe Mujica”, uma celebridade política do Uruguai e do mundo. O autor é Fabián Restivo. Este livro reúne uma série de diálogos entre o ex-presidente uruguaio e o jornalista argentino, resultado de dez dias em que estiveram juntos conversando sobre muitos temas, como a vida, a militância, a política, o amor, a juventude e a relação com a natureza.

Conforme o ex-governador Olívio Dutra, que escreveu na contracapa da obra, o livro não é apenas para ser lido, mas meditado e refletido nesse mundo que está aí. “Pepe Mujica, de maneira sábia, nos provoca a não naturalizar as coisas, e nem a achar que as mudaremos de uma hora para outra.”

“Pepe não trata apenas de um tema, mas os relaciona em sua profundidade sobre várias questões da vida. As contradições, as tensões do mundo, assim como as nossas, estão ali. Ao olharmos para trás, lá também estão os nossos limites. O ser humano está sempre aprendendo. Estamos aprendendo agora. Mujica sabe, e nos mostra, que não há uma verdade religiosa, cristalizada, ou uma visão particular que possa se impor e resolver nossos problemas. Mas nessas palavras para depois temos sementes para pensar as transformações sociais, culturais, políticas e humanitárias em nossa sociedade, onde a relação com a natureza é essencial”, analisa Olívio.

Gauchismo líquido e poesia

Outro livro bem aceito na comunidade de leitores é “Gauchismo Líquido”, de Clarissa Ferreira, violinista, etnomusicóloga e compositora gaúcha, conhecida por repensar e recriar a tradição gaúcha. Este é o primeiro livro dela e traz reflexões sobre a cultura do Rio Grande do Sul, pensando sobre suas construções identitárias e representações na música e na literatura.

“Líquido” vem do sociólogo Bauman, quando se refere à contemporaneidade, onde nada é feito para durar, para ser “sólido”, contrariando entendimentos estanques sobre tradição. Os textos trazem temas diversos em formato de artigo ou crônica repensando a cultura gaúcha com a lente do presente”, conforme relata texto que acompanha a apresentação da obra.

A editora, conta Thomás, também vende poesia, coisa rara nesses tempos de muita insensibilidade e festival de grosserias. É o caso do livro “Mujido” de Marília Floôr Kosby, natural de Arroio Grande, poeta e antropóloga. Ela também é autora dos livros: “Os baobás do fim do mundo”, “Nós cultuamos todas as doçuras”, “Alma-caroço”, “Genealogia das mulas”, “Chúcara / Xucra”, entre outros. Docente do curso de Medicina, na Universidade Federal do Pampa, Marília atua como pesquisadora no campo da saúde interespecífica, com terapias assistidas por cavalos e novos paradigmas equestres. “Ela é uma poeta com amplitude”, afirma Thomás.

A história da literatura gaúcha

Coleção reúne seis volumes sobre “A História da Literatura do Rio Grande do Sul”, que podem ser adquiridos isoladamente ou em grupo
Coleção reúne seis volumes sobre “A História da Literatura do Rio Grande do Sul”, que podem ser adquiridos isoladamente ou em grupo | Crédito: Rafael Rosa

Outros livros, ou uma verdadeira coleção, é o que reúne seis volumes, “A História da Literatura do Rio Grande do Sul”, que podem ser comprados isoladamente ou em grupo. Com organização do escritor, professor e jornalista Luís Augusto Fischer, a obra total reúne mais de 70 textos, escritos por um conjunto de mais de 80 pesquisadores, ligados a universidades de todo o estado e de outras localidades.

“Esta coleção quer ser um depoimento de nossa época. Partindo da pesquisa acadêmica, em estágio maduro, fruto de quatro décadas de trabalho continuado em vários programas de pós-graduação brasileiros, as obras organizam um panorama sobre a literatura produzida no estado desde seus começos até o presente século”, conta Thomás.

Vende? Sim, diz Thomás. Escolas, universidades, bibliotecas, estudiosos, pesquisadores e estudantes são sempre os maiores interessados. “Já vendemos muito”, afirma. “Não é uma história da literatura do RS, nosso trabalho parte da extrema especialização a que os estudos universitários obrigam, para alcançar uma visão abrangente. Aqui se discutem autores, obras, fenômenos, circuitos de leitura, instituições presentes no estado, reconhecendo, como cabe ao nosso tempo, a internacionalização da perspectiva crítica e historiográfica, mesmo quando toma como objeto um recorte subnacional, como aqui, que sempre carrega laços com outros quadrantes e épocas.”

Vale dizer também que a organização do professor Fischer procurou combinar a presença de diferentes orientações teóricas, assim como de três ou mais gerações cronológicas – representantes da primeira geração de alunos da pós-graduação, nos anos 1970, assim como de jovens que concluíram seu doutorado nos anos 2010.

Paulo de Ricardo Riccordi e os exilados

O novo lançamento da Coragem, com financiamento da Fundação Perseu Abramo**, de São Paulo, é o livro “O exílio brasileiro no Chile de Allende” do escritor, jornalista e professor Paulo de Tarso Riccordi, 76 anos. Pela editora ele publicou também “Meninos guerreiros” (2022) e o livro “O conto da charrete tão linda que ninguém podia comprar” (2025). Riccordi, natural de Bagé, ganhou o Prêmio Internacional Pena de Ouro de 2023, um feito para um escritor gaúcho que concorreu com outros 1137 autores do mundo de língua portuguesa.

O lançamento será em julho e conta como viveram os exilados brasileiros que, entre 1964 e 1974, escolheram o Chile como sua casa e os chilenos como sua família. O golpe militar (1964-1985) tornou inviável ficar por aqui. Vítimas de perseguição, prisões e até desaparecimentos, eles encontraram no Chile uma porta escancarada para a liberdade no governo socialista de Salvador Allende (derrubado em 1973).

Livros da jornalista argentina Stella Calloni também estão entre as traduções | Crédito: Rafael Rosa

Mais de 4 mil brasileiros foram para o Chile, onde alguns casaram, muitos estudaram, jogaram futebol, constituíram grupos musicais, trabalharam. Foi onde Paulo Freire escreveu sua obra contundente “Pedagogia do oprimido”, que recebeu o prefácio do professor e filósofo gaúcho Ernani Maria Fiori, como ele impedido de dar aulas em universidades no Brasil.

O livro tinha perto de mil páginas, conta o editor Thomás, com mais de 1 milhão de caracteres. Foi reduzido para 540 páginas para ser publicado. “Entrevistei espontaneamente 73 dos tantos que foram para lá, todos afirmando que foram muito felizes no Chile, onde viveram a rara experiência de um governo socialista”, diz Riccordi.

Além das entrevistas, o jornalista colheu depoimentos pessoais de dezenas de outros prestados à Comissões do Congresso e à Comissões da Verdade estaduais e a nacional, cartas, livros memoriais.

Segundo Riccordi, o livro-reportagem é, até aqui, o mais amplo painel do exílio brasileiro no Chile, entre 1964 a 1974, um quadro inédito de amores, trabalho, festas, esperança, manifestações políticas e tantas outras coisas. Foram 1.042 dias nos quais a maioria dos exilados brasileiros (com média de 25 anos de idade), pela primeira vez desde a infância, conheceu democracia e liberdade.

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*Sofia Veloso (1856–1930) foi uma ativista abolicionista e filantropa porto-alegrense do século 19. Ela ficou conhecida por integrar o Centro Abolicionista da cidade na década de 1880 e por doar seus terrenos e imóveis na região da Cidade Baixa para o Asilo Padre Cacique, que utiliza os aluguéis como fonte de renda. Hoje, sua principal lembrança é a rua Sofia Veloso, localizada no coração da Cidade Baixa, em Porto Alegre. É uma das poucas vias da capital gaúcha batizadas com nomes de mulheres, a outra do bairro é a Baronesa do Gravataí. A rua também é um dos berços do famoso carnaval de rua da cidade, sendo a sede do bloco Maria do Bairro, que já homenageou a história da abolicionista em seus desfiles.

**Perseu Abramo (1929-1996) foi paulista, sociólogo, professor e jornalista. A fundação que o homenageia financia livros, vídeos, documentários e estimula financeiramente a publicação de obras de profundidade e estudos.

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