A previsão de receita própria da Fifa para esta Copa é de aproximadamente R$ 45 bilhões, com 44% vindos dos direitos de televisão, que por sua vez arrecadam patrocínios. O aumento do número de seleções participantes para 48, com 104 jogos em três países – México, EUA e Canadá – aumenta o valor das bilheterias. Os seus gastos de organização e premiações e repasses às seleções participantes é de aproximadamente R$ 25 bilhões. Ou seja, realiza um belo lucro líquido. Estas são apenas as finanças próprias da Fifa.
Os países onde a Copa se realiza igualmente tem altas receitas. Em todos os países cujas seleções participam (e nos outros também, em tamanho menor) há grandes volumes de vendas relacionadas à Copa e muitos patrocínios vinculados.
E quem paga os patrocínios? Nós, os consumidores dos respectivos produtos e serviços, onde estes custos são incorporados.
E tudo isto soma volumes de recursos extraordinários. O futebol incide fortemente na economia. Assim como vultosos recursos sustentam o futebol de elite, influenciando o mesmo.
E que fenômeno é este, o futebol?
Na antiguidade já ocorriam jogos com a bola; na China eram usados em treinamento militar, em outras culturas eram um ritual de guerras e celebração de vitórias.
Foi a Inglaterra que em 1863 criou regras disciplinadoras, reduzindo a violência, para a sua prática inicial nas escolas e universidades. Seus propósitos eram a prática de um esporte promovendo a socialização e o lazer.

Em 1984, o inglês Charles Muller radicou-se em São Paulo, trazendo algumas bolas e as regras e começou a organizar times amadores.

Em 19 de julho de 1900, na cidade portuária de Rio Grande, foi criado o primeiro clube profissional, ainda em atividade. Teve a iniciativa do alemão Johannes Minnemann, que realizou a reunião fundadora no clube Germânia, contando com alemães, ingleses, portugueses e brasileiros. As cores escolhidas foram o vermelho, verde e amarelo, homenageando a bandeira do RS.
A data histórica de 19 de julho foi posteriormente reconhecida pela então Confederação Brasileira de Futebol (CBF) como dia nacional do futebol.
Imigrantes europeus tiveram forte participação na criação dos grandes clubes brasileiros. Em especial cabe citar: (i) Os italianos criaram em 1914 o Palestra Itália, hoje Palmeiras; e, em 1924 criaram em BH a Societá Sportiva Palestra Itália, hoje Cruzeiro; (ii) Os portugueses criaram o Vasco da Gama no RJ e em 1920, em São Paulo a Portuguesa, e a Portuguesa Santista; (iii) Os britânicos criaram em 1924 o Athlético Paranaense; (iv) os alemães criaram em 1909 o Coritiba. Já em Porto Alegre, os imigrantes alemães, de forma exclusiva, criaram, em 1903, o Grêmio Football Porto-alegrense. Ironicamente o hino do Grêmio foi composto pelo compositor negro Lupicínio Rodrigues e entre os grandes jogadores no passado destacou-se o negro Everaldo Marques da Silva, da vitoriosa Seleção de 1970, homenageado com uma estrela dourada na bandeira. Destacaram-se também os craques negros, entre outros, Airton Pavilhão, Tesourinha, Tarciso Flecha Negra, Tinga e Ronaldinho Gaúcho.
Em 1909, em contraposição, os irmãos Hoppe, vindos de SP, criaram o Sport Club Internacional, de livre participação, aberto a todas as classes sociais.
Os demais grandes clubes brasileiros também tiveram a participação de imigrantes, de várias nacionalidades, e de brasileiros, de forma mais ampla.
Numa fase inicial o futebol foi bastante elitizado. No entanto, por ser um esporte coletivo, de simples entendimento, de baixo custo (bastava um terreno, seis paus para fazer duas goleiras, uma bola, até mesmo de pano), difundiu-se amplamente como esporte popular, congregando, propiciando lazer e dando identidade em bairros e comunidades. Os negros tiveram (e tem) oportunidade e destacaram-se. Segundo o sociólogo Gilberto Freyre “o futebol serviu como um elemento unificador em um país historicamente dividido”.
Em grande parte dos demais países, o futebol também cresceu, envolvendo parte significativa da população.
Em 1924 o futebol participou dos jogos olímpicos de Paris. Em parceria com o Comitê Olímpico Internacional (COI), a Fifa organizou o primeiro torneio com a participação de 22 nações. O COI proibia de atletas profissionais em todas as modalidades, o que foi sendo eliminado a partir da década de 1970.
O Campeão, medalha de ouro foi o Uruguai.
A Fifa resolveu criar uma competição global, com jogadores profissionais, visando a união dos povos. A primeira Copa do Mundo foi marcada para 1930. O local escolhido foi a casa dos vencedores da Medalha de Ouro, o Uruguai. A data também coincidia com o centenário da Independência deste País. Campeão da primeira Copa do Mundo: Uruguai.
A partir daí somente países maiores foram vencedores da Copa: Itália (4). Alemanha (4), Brasil (5), Argentina (3) e França (2).

Houve uma exceção: Na copa de 1950, realizada no Brasil, a seleção brasileira chegou amplamente favorita à final e diante de mais de 200 mil pessoas presentes, numa partida que os “hermanos” apelidaram de “Maracanazo”, perdeu para o Uruguai, sagrando-se este país bicampeão. O segundo grande vexame brasileiro ocorreu novamente na outra Copa realizada no Brasil, em 2014. Numa partida de semifinal, o Brasil levou 7×1 da Alemanha, que viria a conquistar aquela Copa.
A partir de 1950 o Brasil passou a viver a sua era de ouro no futebol, muito popularizado, praticado por milhões de “atletas”, reconhecido como paixão nacional. Desenvolveram-se muitos clubes, muitos jogadores, entre os quais grandes craques como Pelé e Garrincha. O Brasil conquistou 5 copas do mundo (a última em 2002), principalmente com seu futebol arte, sendo reconhecido como o país do futebol. Com times identificados com seus estados, foi pioneiro ao criar uma competição nacional com a Taça Brasil.
Craques, como Pelé que foi para o Cosmos nos EUA, e treinadores foram chamados a países para desenvolver o futebol, onde hoje este esporte também é forte.
Com este apelo popular, passou a ser referência de empresas para vender seus produtos com patrocínios, principalmente em rádios e televisões. A macroeconomia passou a ditar muitas regras do jogo, em todo o mundo.
Jogadores de grandes clubes, que representam uma pequena parcela de 5% dos profissionais, passaram a ter contratos e ganhos milionários e transformados em “marcas ambulantes”. Mais de 50% dos demais jogadores, profissionais de clubes menores, não recebem mais de um salário-mínimo. Países com maior poder aquisitivo adquirem os craques de outros países, como acontece no Brasil. Mesmo assim o futebol brasileiro movimenta algo em torno de R$ 90 bilhões, mais de 1% do PIB nacional.
Os clubes precisam administrar orçamentos grandes, muitos com dívidas enormes, praticamente impagáveis. Os grandes clubes brasileiros chegam a ter um quarto de suas receitas na venda jogadores, o maior percentual vem dos direitos de transmissão da TV e a contribuição dos associados não passa dos 20%.
Obviamente que o futebol e demais modalidades esportivas necessitam de recursos financeiros. No entanto, o que acontece no futebol de elite é uma demasiada influência econômica, distorcendo a sua condição de esporte.
A inflação dos valores financeiros no futebol disparou na Europa na década de 90, o que a seguir, influenciou todas as demais nações.
O futebol passou a ser caro e novamente elitizado. Altamente concentrado e concentrador de renda e do esporte. As demais modalidades esportivas, com menos recursos financeiros, acabam secundarizados.
As bets, que usam os jogos de futebol como referência, tem deixado os pobres mais pobres, geralmente endividados.
O futebol feminino brasileiro passou a ter alguma relevância porque os times da primeira divisão nacional foram obrigados a instituir equipes femininas.
A maioria de nossos craques jogam na Europa e outros países.
Continuamos a gostar de futebol e torcemos para nossos times e para a seleção nacional. Mas a paixão nacional não é mais a mesma. O futebol arte sumiu e nem somos mais o país do futebol, embora ainda sejamos reconhecidos por sermos o único país com 5 copas conquistadas e termos grande admiração por países mais pobres como o Haiti.
A Fifa criou as copas para integrar as nações, os povos. Que ironia! A que ponto chegamos. A Entidade virou uma grande empresa multinacional concentradora de renda, de orientação conservadora, não raro com corrupções já provadas.
Em 2013/14, quando o Brasil estava organizando a Copa, a Fifa, de forma petulante, autoritária e intervencionista fazia exigências com o “padrão Fifa”.
Agora criou uma copa maior e mais longa, com 48 nações, para aumentar a arrecadação, em três países.
A predominância é dos EUA, que sequer possui clima apropriado (excesso de calor e possíveis temporais) para a prática do esporte. A Fifa concedeu o título de “Nobel da Paz” a Trump, e vergonhosamente subordina-se a este neofascista. A concepção do esporte congregando os povos foi completamente às favas!
Trump trouxe a guerra pra dentro da Copa. Os jogadores do Irâ podem permanecer somente 36 horas no País quando jogam nos EUA. Torcedores iranianos nos EUA nem pensar. Torcedores na Costa do Marfim são impedidos de acessar os EUA. O árbitro Omar Abdulkadir Arlan, da Somália, eleito o melhor da África, ficou retido 11 horas no aeroporto de Miami, e foi impedido de entrar nos EUA. Os torcedores do Haiti, por “segurança nacional” estão impedidos de entrar nos EUA; sequer os haitianos que moram legalmente nos EUA podem comparecer ao jogos.
A Fifa diante destes absurdos antiesportivo não moveu uma palha!
Quase tudo é dinheiro. No atual quadro, os clubes e as Seleções mais ricas acabam por favoritas nas competições. Porém, frise-se quase! Aqui no RS temos dois exemplos insistentes: as folhas de pagamento de Grêmio e Internacional estão entre as maiores dos clubes brasileiros, mas os respectivos times há horas tem lutado para não cair para a segunda divisão.
Os jogadores precisam praticar o futebol, com tudo o que este esporte pode oferecer de atraente e emocionante. Não basta serem meros contra prestadores de seus exagerados ganhos financeiros.
Alguém poderá dizer que o resultado de uma equipe é o somatório do que cada jogador realiza individualmente. Nada mais errado! Como em qualquer atividade coletiva, o resultado sempre é aquilo que o conjunto produz coletivamente. No caso do futebol, é o resultado construído dentro e fora do campo, interna e externamente aos clubes e seleções.
E assim o futebol, apesar dos pesares, continua emocionante e surpreendente. Não há jogo definido previamente, só depois que o juiz apita o final.
**Este é um artigo de opinião e não representa necessariamente a linha editorial do Brasil do Fato.

