“Não estamos buscando uma restauração capitalista do país. Estamos buscando o aperfeiçoamento da construção socialista nas condições tão adversas em que vivemos hoje”, afirmou o presidente cubano Miguel Díaz-Canel durante uma extensa entrevista concedida a um programa do veículo de imprensa dominicano Grupo Corripioconduzida pelo jornalista de origem cubana Roberto Cavada.
Trata-se da primeira entrevista após o anúncio do pacote de transformações econômicas e sociais mais profundas impulsionadas pelo país nas últimas décadas, reformas que geraram fortes controvérsias tanto dentro quanto fora da ilha.
O mandatário enquadrou o debate nacional nas condições históricas e estruturais que Cuba atravessa, ressaltando a necessidade de repensar o modelo econômico sem abandonar seus fundamentos. Essas mudanças ocorrem em um momento em que o país enfrenta uma das crises mais graves de sua história, com uma queda acumulada de 15% do PIB nos últimos cinco anos.
“Nas condições atuais, como uma pequena ilha submetida ao prolongado e mais genocida bloqueio da história por mais de sessenta anos, e agora a um bloqueio recrudescido com um componente adicional que é o bloqueio energético, como construir o socialismo? Como encontrar as vias para manter as conquistas sociais da revolução?”, reflete Díaz-Canel.
O mandatário insistiu que o processo de transformação responde a uma mudança na situação global na qual Cuba está inserida. Ele destacou que essas reformas são “vias” para continuar avançando na construção do socialismo em um contexto de “bloqueio recrudescido” dos Estados Unidos, e acrescentou que “são tempos de transformação”.
“Mudaram os tempos, mudou a geopolítica, mudou a agressividade dos Estados Unidos; não podemos permanecer iguais. É preciso transformar. São tempos de transformação. Fidel sempre nos pedia que, nas crises, fôssemos capazes de não renunciar nem ao pensamento nem à criatividade, e que encontrássemos nas crises as oportunidades não apenas para resistir, mas para crescer, para avançar, para aperfeiçoar”, recordou o mandatário.
Nessa mesma linha, afirmou que as reformas atuais levam em conta um processo de revisão comparada com outras experiências socialistas contemporâneas, destacando que foram analisadas transformações de construção socialista como as do Vietnã e da China.
Um dos pontos centrais de sua explicação foi a estrutura das medidas, sintetizadas em três eixos. Sobre o primeiro, detalhou: “Um primeiro eixo é mudar ou aperfeiçoar, atualizar o sistema de direção da economia, em que haja uma relação adequada entre centralização e descentralização, e em que haja uma relação adequada entre o que planejamos e o que vai se mover por sinais de mercado.”
Questionado sobre o papel do planejamento econômico, o mandatário defendeu a vigência de princípios estratégicos do modelo cubano, esclarecendo que não se trata de uma renúncia à sua essência. Nesse sentido, afirmou que existem linhas “estratégicas” às quais Cuba não renuncia, incluindo os equilíbrios entre os diferentes setores da economia.
Da mesma forma, defendeu uma maior autonomia territorial como parte do processo de reorganização institucional, mostrando-se favorável ao fortalecimento político dos municípios.
Como terceiro eixo, defendeu a incorporação do setor privado como uma “parte do sistema empresarial cubano”.
“Como as pessoas estão descrevendo que haja um único sistema empresarial no país… Esse sistema empresarial tem componentes estatais, componentes cooperativos e componentes não estatais ou privados; mas todos participam, todos se interconectam, todos se encadeiam, todos estão em função do desenvolvimento do país”.
Quanto à relação com os Estados Unidos, Díaz-Canel expressou uma visão crítica sobre a postura de Washington diante das reformas, apontando que a Casa Branca defende uma “Cuba totalmente dependente dos Estados Unidos”.
“Eles nunca vão entender o que fazemos e nunca vão aceitar o que fazemos. Porque o que eles almejam é outra Cuba, uma Cuba que seja totalmente dependente dos Estados Unidos, uma Cuba totalmente privatizada”, afirmou.
Ele também acrescentou que Donald Trump não manda em Cuba, nem o governo dos EUA. “Cuba é soberana, Cuba defende sua autodeterminação… Este é um processo que é consequência de coisas que já vinham sendo discutidas nos últimos dez ou quinze anos”, sustentou.
Nessa mesma linha, voltou a enfatizar que as transformações não respondem a pressões externas, mas a “decisões soberanas”.
“Não porque estejamos cedendo à pressão dos Estados Unidos, mas porque estamos buscando como superar essas pressões sem colocar em risco a soberania, a independência e a autodeterminação do nosso país”.
O presidente foi ainda mais categórico ao rejeitar qualquer cenário de intervenção, qualificando como “insensato” quem pense que a presença militar de Washington na ilha possa solucionar a situação atual do país. “A alternativa de Cuba nunca poderia ser a anexação aos EUA. Não há futuro para Cuba com uma anexação aos EUA”.
Por fim, em relação aos pilares sociais do modelo cubano, especialmente saúde e educação, o mandatário defendeu seu caráter essencial dentro do sistema político e econômico.
“Essas são coisas sagradas, as conquistas sociais são sagradas… Continuará existindo um sistema universal de educação, um sistema universal de saúde; educação gratuita e saúde gratuita com acesso para todos os cidadãos cubanos, totalmente inclusiva, de qualidade.”
E concluiu vinculando a sustentabilidade desses direitos ao desempenho econômico do país: “Com uma economia mais forte, com as forças produtivas liberadas, que contribuam mais, haverá então mais possibilidades não apenas para sustentar essa imensa obra de justiça social… Mas também para ampliá-la e alcançar mais justiça social.”

