A defesa da representatividade política, da memória do movimento LGBT+ e da ampliação de direitos marcou a sessão solene realizada pela Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF), nesta sexta-feira (26). Promovida em celebração ao Dia Internacional do Orgulho LGBTI+, lembrado em 28 de junho, a cerimônia homenageou ativistas, educadores, representantes de movimentos sociais e pessoas que contribuíram para fortalecer a cidadania da população LGBT+ no Distrito Federal.
Ao longo da solenidade, os homenageados compartilharam experiências pessoais, relembraram a trajetória do movimento e defenderam que a ocupação dos espaços institucionais continua sendo essencial para garantir políticas públicas, combater a discriminação e consolidar direitos conquistados nas últimas décadas.
Ocupar espaços
Autor da sessão solene, o deputado distrital Fábio Félix (Psol) abriu os pronunciamentos defendendo que a presença da população LGBT+ em espaços de poder representa uma conquista construída por décadas de mobilização social. Segundo ele, ocupar o parlamento significa também ressignificar uma instituição que, historicamente, nem sempre acolheu essa população.
“Ocupar esse espaço também significa um tanto quanto ressignificá-lo. Ter cada uma e cada um aqui, mesmo que por uma tarde, de forma simbólica, também é reconhecimento, porque esse espaço também é nosso. Não há nenhum discurso capaz de se concretizar aqui dentro do espaço legislativo que a gente possa deixar crescer para nos atacar, porque esse espaço também tem que ser nosso”, afirmou.
Primeiro deputado distrital assumidamente gay da história da Câmara do DF, Fábio Félix relembrou que sua chegada ao legislativo foi marcada por episódios de homofobia institucional. Como exemplo, contou que acabou ocupando o gabinete 24 após outros parlamentares evitarem o espaço por associações preconceituosas com o número.
“Eu não fui parar no gabinete 24 de paraquedas. Foi por conta da homofobia estrutural, porque os deputados começaram fazendo graça sobre quem ficaria com o gabinete 24. Ninguém queria ficar no gabinete 24 e eu fiquei. Ainda bem, porque hoje eu amo o gabinete 24”, relembrou.
Ao fazer um balanço da atuação parlamentar, o deputado também destacou conquistas legislativas voltadas à população LGBTI+, entre elas a aprovação da lei distrital que proíbe práticas de terapia de conversão sexual, conhecidas internacionalmente como “cura gay”. Para ele, a aprovação demonstrou que o diálogo pode transformar posições e ampliar a compreensão sobre a necessidade de proteger direitos.
“A gente aprovou uma lei que eu achava que não aprovaríamos na Câmara, que é a proibição da terapia de conversão. Vários parlamentares se inscreveram para dizer que mudaram de posição e votariam a favor daquele projeto porque compreenderam, através da nossa luta e da nossa história, como era importante aprovar uma lei como essa”, destacou.
Ao encerrar sua participação, Fábio Félix afirmou que a representatividade política ultrapassa as pautas relacionadas à diversidade e fortalece a democracia em diferentes áreas da atuação pública.
“Todos os espaços institucionais precisam dos nossos corpos, na nossa pluralidade, na nossa diversidade de opiniões e de capacidades. Isso de ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além”, concluiu.
História do orgulho começou com resistência
Entre os homenageados da sessão, o presidente do Grupo Estruturação LGBT+ Brasília, Michel Platini, lembrou que o Dia Internacional do Orgulho nasceu da resistência ao preconceito durante a Revolta de Stonewall, em Nova York, em 1969. Segundo ele, a data simboliza a transformação de uma história marcada pela violência em uma trajetória de afirmação da identidade e da cidadania.
“Hoje nós celebramos o Dia do Orgulho LGBT+, mas é importante lembrar que essa data não nasceu de uma festa. Ela nasceu da coragem. O orgulho nunca foi sobre se sentir melhor do que alguém. O orgulho é se recusar a sentir vergonha de existir. É responder ao preconceito dizendo: ‘eu existo’”, afirmou.
Michel também relembrou a atuação do Grupo Estruturação, que há mais de três décadas desenvolve ações de acolhimento, prevenção ao HIV e defesa dos direitos humanos no Distrito Federal. Para ele, a organização ajudou a transformar solidariedade em ação política.
“Quando quase ninguém falava dos direitos LGBT+ e do enfrentamento ao HIV, o Grupo Estruturação acolheu quem havia sido abandonado, combateu o preconceito e mostrou que a solidariedade também é uma forma de fazer política”, ressaltou.
Durante o pronunciamento, o ativista compartilhou um episódio da própria trajetória ao lembrar que permaneceu quase dois anos sem falar com a mãe após apresentar o primeiro namorado à família. O relato foi ilustra que, apesar dos avanços conquistados, muitas pessoas LGBT+ ainda enfrentam rejeição dentro de casa.
“Foram dias em que precisei encontrar forças para continuar acreditando que tinha o direito de existir exatamente como sou. Nem todas as histórias terminam assim. Muitos jovens nunca recebem esse abraço de volta”, observou.
Ao concluir o discurso, Michel homenageou ativistas que marcaram a história do movimento brasileiro e afirmou que a presença da população LGBT+ em espaços institucionais é resultado da luta de gerações. “Nós existimos, nós resistimos e ninguém jamais voltará a nos colocar no armário da história”, concluiu.
Papel das famílias e da escola
A professora da rede pública do Distrito Federal Pat Ramiro também foi homenageada durante a solenidade. Integrante do coletivo Mães da Resistência, ela levou ao plenário a perspectiva das famílias que acompanham diariamente os desafios enfrentados pela população LGBT+.
Mãe de uma mulher trans e de um homem trans, Pat afirmou que transformar o amor pelos filhos em militância foi um caminho natural. “Nós temos muito orgulho dos nossos filhos e nos unir enquanto familiares dentro de um coletivo é exatamente para expandir essa luta, publicizar essa pauta e defender quem ainda precisa ser acolhido”, afirmou.
Ao relatar experiências vividas pelo filho Rafael, a professora destacou que o acesso ao nome social, ao uso do banheiro e ao respeito nas escolas ainda representa um desafio para muitas famílias.
“Lutar pelo nome social do Rafael na escola foi uma batalha. Lutar pelo direito de usar o banheiro também foi uma batalha. Assim como ainda é uma batalha garantir atendimento digno na saúde pública e cuidar da saúde mental de tantos jovens que procuram acolhimento”, ressaltou.
Professora da Secretaria de Educação há mais de três décadas, Pat afirmou que acompanha diariamente relatos de preconceito nas escolas e defendeu que a educação é uma das principais ferramentas para combater a discriminação.
“Recebemos pedidos de socorro desde a educação infantil até o ensino médio. A gente acaba com o preconceito quando leva conhecimento, quando fala dessa pauta com orgulho e quando transforma informação em respeito”, destacou.
Conquistas fortalecem a democracia
A deputada federal Erika Kokay (PT-DF) afirmou que os direitos conquistados pela população LGBT+ são resultado de décadas de mobilização social e política. Ao recordar a realização da primeira sessão solene sobre o tema na Câmara Legislativa, quando ainda exercia mandato como deputada distrital, ela destacou que o movimento transformou reivindicações históricas em direitos reconhecidos.
“Nós implodimos os armários e os armários viraram uma nuvem de purpurina, de todas as cores. Eles que querem nos empurrar de volta aos armários precisam entender todos os dias que nunca conseguirão retirar os direitos que conquistamos”, afirmou.
Ao citar avanços como o casamento igualitário, a criminalização da LGBTfobia e a derrota de propostas relacionadas à chamada “cura gay”, Erika defendeu que a luta por igualdade está diretamente ligada ao fortalecimento da democracia.
“Tira a tua LGBTfobia do caminho, porque a gente quer passar com nossos corpos livres. Queremos passar com nossas expressões de afeto, com o direito de ser, de amar e de ocupar a cidade. A luta pelos direitos iguais é uma luta fundamental para a democracia, para a liberdade e para a cidadania”, declarou.
Dia Internacional do Orgulho
A data faz referência à Revolta de Stonewall, ocorrida em 28 de junho de 1969, em Nova York, quando frequentadores do bar Stonewall Inn reagiram às constantes ações policiais contra pessoas LGBT+.
O episódio é considerado um marco da luta organizada pelos direitos da população LGBT+ em diversos países e inspirou a criação das marchas do orgulho ao redor do mundo. Desde então, o dia passou a simbolizar a defesa da diversidade, da liberdade e da igualdade de direitos.
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