O futebol analisado por um filósofo

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Em que Pensamos Quando Pensamos em Futebol é uma obra do filósofo britânico Simon Critchley que, com erudição e paixão, se debruça sobre o fenômeno global do futebol para bem além das quatro linhas.

Publicado originalmente em 2017 como O que pensamos quando pensamos em futebol o livro é uma tentativa de responder a uma pergunta que parece simples, mas que o autor desdobra em vários estratos e níveis: o que realmente pensamos quando nossa atenção se volta para o futebol?

A grande originalidade da obra está em sua abordagem fenomenológica. Quer dizer, se trata de uma descrição atenta da experiência vivida no futebol.

Critchley não apenas analisa táticas ou estatísticas. Ele busca capturar a essência do que significa ser um torcedor, vivenciar um jogo e fazer parte dessa comunidade efêmera que se forma em torno de um estádio ou de uma tela de TV.

Para o filósofo (com ensaios alentados sobre Hegel, Heidegger, Levinas, Jacques Lacan, Ernesto Laclau, etc.), o futebol é um fenômeno social de abrangência singular. Ele argumenta que o desporto proporciona um “acesso privilegiado a noções duradouras sobre o que significa ser humano no mundo”. Só um filósofo pode afirmar isso.

Nesse sentido, o livro explora como o futebol está entrelaçado com memória, história, lugar, classe social, gênero, identidade familiar, tribal e nacional. É um espelho onde se refletem as nossas mais profundas construções sociais, individuais e subjetivas.

Um dos eixos centrais do livro é a contradição inerente ao futebol.

Por um lado, Critchley argumenta que o jogo é “essencialmente colaborativo, mesmo socialista”, um espaço de coletividade e fruição compartilhada.

Por outro lado, reconhece que ele existe “embalado na mescla de ganância, corrupção, capitalismo e autocracia”.

É o reconhecimento à complexidade de um esporte apreciado mundialmente.

Futebol e seu lado sombrio

O autor não foge à crítica, identificando as conexões perniciosas que atravessam o desporto, como a mercantilização, o nacionalismo exagerado, o patriarcado e a psicologia de massas.

É essa tensão que torna o livro tão rico. Critchley tenta, simultaneamente, estabelecer um sistema de estética – “mesmo uma poética” – para mostrar onde está a beleza do jogo, sem deixar de criticar seus efeitos mais sombrios.

Ele consegue captar a estupidez do futebol, expressa em superstições simplórias e no culto de objetos como as camisetas colecionáveis – mas também a sua racionalidade inerente, que o torna uma lente poderosa para interpretar o mundo.

Longe de ser um tratado abstrato, o livro é pontuado por figuras concretas que povoam o imaginário futebolístico. Critchley escreve sobre seus heróis e vilões: Zidane e Cruyff, Clough e Revie, Shankly e Klopp, Ronaldinho e Mourinho.

A sua paixão declarada pelo Liverpool torna a obra particularmente afetiva, especialmente na análise que faz de Jürgen Klopp – o grande jogador alemão que atuou no Liverpool e hoje dirige o complexo de investimento desportivo do grupo Red Bull, inclusive no investimento brasileiro Red Bull Bragantino.

O estilo de Critchley é ao mesmo tempo erudito e acessível, mas não isento de desafios. A obra é cheia de referências a “Esperando Godot”, ao “Elogio da Loucura” de Erasmo e à “Utopia”, de Thomas More, o que pode tornar a leitura pesada em alguns momentos. Uma crítica recorrente é seu viés “Liverpool-cêntrico” e uma postura às vezes rígida em relação aos que não apreciam o esporte originalmente bretão.

No entanto, para o torcedor que se reconhece na descrição de Critchley – alguém irremediavelmente devotado a um jogo – o livro é um deleite. É uma obra que, nas palavras de um crítico, que funciona como uma “metafísica da partida de futebol”, validando a paixão de milhões com a profundidade que ela merece.

Em que Pensamos Quando Pensamos em Futebol é muito mais do que um livro sobre desporto.

É um ensaio filosófico que usa o futebol como um ponto de partida para explorar a condição humana e o próprio sistemão capitalista. Isso não é pouca coisa.

Simon Critchley consegue o feito notável de unir análise social, estética e memória afetiva, mostrando que, por trás da aparente simplicidade do jogo, se escondem questões profundas sobre quem somos, o que valorizamos e como nos relacionamos com os outros.

Para qualquer pessoa que já tenha sentido o coração acelerar com um gol, este livro oferece uma reflexão inteligente e apaixonada sobre essa experiência universal.

Futebol e dinheiro

O filósofo torcedor do Liverpool também aponta que o futebol contemporâneo está transfigurado pela lei do valor, da mercadoria, e do fetichismo – os conceitos marxistas essenciais.

Para o filósofo, essa é a contradição fundamental e mais profunda do futebol moderno. Ele a descreve nos seguintes termos:

“A sua forma é associação, socialismo, a sociabilidade e a ação coletiva de jogadores e torcedores, e – no entanto – o seu substrato material é o dinheiro: dinheiro sujo, muitas vezes de fontes altamente questionáveis e com pouca supervisão.”

Critchley é particularmente cáustico ao descrever o grau de saturação comercial do futebol. Na sua visão, o esporte está não apenas inserido, mas completamente tomado por esse sistema, qual seja: “O futebol é completamente mercantilizado, saturado de patrocínios e do ‘branding’ mais vulgar e estúpido.”

“Branding” neste caso é o esforço comercial das grandes empresas em associar suas marcas a emoções/paixões das massas. No Brasil, isso se vê a todo o momento na TV e nas redes.

Para Critchley, não se trata de uma relação periférica, mas de uma característica definidora do futebol atual, onde a lógica da mercadoria parece ter subjugado a essência do jogo.

O filósofo argumenta que o aspecto corrupto e capitalista do futebol é personificado pela Fifa, mencionando explicitamente figuras como Sepp Blatter (o ex-dirigente, anterior a Infantino). A crítica vai além, mostrando como a instituição tenta usar o próprio espetáculo para se absolver: “É assim que chegamos com Gianni Infantino à frente e no centro de cada jogo, na final, empurrando-se para a frente, associando-se a si mesmo e à corrupção da Fifa com a beleza do jogo. Entrando nas águas curativas do futebol e esperando que elas lavem as manchas da corrupção.” – registra o filósofo.

Esta passagem é uma descrição precisa do “fetichismo da mercadoria” (em Marx): a imagem do dirigente e da instituição buscando se revestir da aura sagrada e bela do futebol para ocultar a sua verdadeira natureza financeira e negocial.

Critchley descreve o futebol como sendo, na sua essência, associativo e coletivo – “socialista” na sua forma -, mas flutuando num poço de ganância, capitalismo e autocracia. Este é o que ele chama de “substrato material” do jogo: dinheiro e dinheiro – sempre de fontes questionáveis.

As epidêmicas casas de apostas (bets) são uma manifestação contemporânea e agressiva dessa contradição. A sua infiltração no futebol, através de patrocínios de camisetas e publicidade massiva, é um exemplo claro de como o jogo se tornou um veículo para a mercantilização, ajudando a criar uma geração de adeptos que, como alertam especialistas, “acreditam que é preciso apostar no futebol para desfrutá-lo”.

A cumplicidade da mídia como parte do espectáculo

Para Critchley todo o ecossistema do futebol moderno – do qual a mídia é parte integrante – é um “espetáculo monetizado e por vezes insuportável” do capitalismo tardio.

A mídia, ao promover incessantemente as “odd’s” (índices que determinam o potencial de retorno sobre a aposta), as apostas ao vivo e os mercados de apostas durante as transmissões, não está apenas relatando um fato, mas está normalizando e naturalizando a relação entre o jogo e o vício, tornando-a parte do entretenimento.

O autor não isenta ninguém: a sua crítica abrange o dinheiro sujo, os patrocínios, a corrupção da Fifa e o papel dos agentes e dos clubes.

Critchley faz uma abordagem – como já disse – fenomenológica: ele descreve a experiência do futebol com honestidade, reconhecendo tanto o seu poder de encantamento como a sua cumplicidade com estruturas que nos repugnam.

Ele arremata em definitivo: não podemos amar o futebol sem estar conscientes dessa sujeira e, de certa forma, ser cúmplices dela.

*Cristóvão Feil é sociólogo.

** Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

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